Bola de neve

No desenrolar da bola de neve que a gente vai se tornando e rolando, uma hora alcança terra, grãos, atrito, e a neve nos deixa em lascas. Outra hora, cai no mar e a neve vira mais algum litro de oceano. E o que acontece depois é ridículo. Em uma situação, se vira carne viva à milanesa de areia. Na outra, não se consegue respirar. Então se volta ao topo do cume gélido acreditando poder se manter em pé, firme, mas ninguém é mais forte que a gravidade, uma avalanche ou a vontade humana de se jogar e sair da mesma merda de lugar.

Que exista o vento cortando a face, se deixar acumular a vida, que se prenda em nós como limo em pedra. Ao que parece, repetiremos as mesmas ações, sentiremos o mesmo vazio, nossa alegria sempre será fruto do que sabemos nos fazer sorrir e pecaremos nas conhecidas falhas. O importante não é mudar quem somos, é saber quem somos. Só com conhecimento do percurso que se pode desviá-lo com sabedoria. Somente se deixando rolar que saberemos como e até onde podemos ir. A neve não nos prende, ela nos embolota para que possamos, no momento certo, nos livrar dela e automaticamente virar memória, e memória é experiência.

Quem não se vê uma bola de neve não tem como dizer que lutou por alguma coisa. E isso é coisa de quem sabe o que quer, de quem segue o que chamam de destino. O corroborar para a existência em atitudes da sua essência. Ser vida, não sobrevida. Se lascar no chão e perder a respiração faz parte, ser bola de neve que só rola é repetir a mesma sequência de quadros como Tom caçando Jerry. Tudo tem seu momento, e a vida é assim: cume gélido, bola de neve, já chega de neve, já chega de não neve. E de novo.

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Quando Tocar o Céu da Boca

Voltamos do enterro e me pus a cortar cebolas pro almoço. Minha mãe saiu pra deixar o guri na escola, ele não entendia nada mesmo, então que estudasse. E eu ficava ali, esperando a cebola me ajudar. Suplicando pelas lágrimas, mesmo falsas, que nunca vieram. Ardência nos olhos, no peito, nos pés. E um corte no dedo manchando os quadradinhos de cebola de vermelho. A faca atraente, o sangue insuficiente para trazer alívio. Só mais uma ardência.

Os dias se arrastavam em horas sem sorrisos. Nenhuma paciência destinada à vontade de continuar dos outros, à aceitação prematura da minha mãe, às brincadeiras fora de hora do meu irmãozinho de quatro anos, às ligações superprotetoras da minha avó em outro estado. Mas ninguém ousava entrar no escritório dele, nunca trancado, só de porta encostada por um peso de areia no formato de uma tartaruga vesga. Assim, a sensação de que ele sempre poderia sair de lá, como de costume, perguntando se a vaca ainda ia ser abatida, se era preciso a ajuda de um de seus rifles de coleção pro almoço ser posto na mesa. Horrivelmente ambíguo, mas minha mãe ria, eu ria. Risadas não mais se ouvia, só as do meu irmão em frente a TV, sem sentir falta de muita coisa, sem sentir o nada que eu sentia. Eu o observava, com raiva e com inveja, ele não parecia pertencer ao mesmo mundo em que eu tentava continuar caminhando.

Gritaram meu nome da cozinha, não queria atender, queria me fingir inexistente, mas fui, em respeito a memória do meu pai e às repreendas constantes de que eu devia obedecê-la. O pirralho de pijamas agarrado nas pernas da mulher esperneava.

– Ajuda aqui, vai… Faz o café do teu irmão que eu tô lavando as coisas.

– E esse menino não sabe esperar, por acaso? Assim não tem como aprender a respeitar nada nem ninguém, se fica se fazendo todas as vontades na hora que bem quer…

– Então dê o exemplo, pra ele não acabar igual você.

Ele observava minha humilhação com gosto. Peguei o pote de achocolatado com raiva e despejei numa xícara deixando cair quase a mesma quantidade fora. Limpei a merda que fiz e bati a porta de casa às costas, deixando um nescau mal mexido pro pirralho.

Cris me recebeu com aquele olhar de quem me lê e entende. Me abraçou. Sentei na cama, desabafei um pouco, em frases soltas de lamento e revolta. No meio do meu monólogo, ele se deu a remexer nos livros. Virou-se para mim folheando um.

– Escuta isso: Família é ser escravo para o conforto dos outros, do respeito que não se tem, da gratidão que não se sente. Por isso escolhi o mundo, em vez da raíz que prende.

– Me identifico. Fazia algum sentido antes, ficar lá. Agora não mais.

– Não tá na hora de ir para o mundo?

Fiz o percurso de volta para casa sabendo exatamente de onde tirar a mala, contando na cabeça as mudas de roupa que levaria, o que não podia esquecer. Todos os argumentos montados na ponta da língua, ela não teria como me impedir. Entrei e passei direto sem olhar ao redor, não daria brecha a nenhum chamado. Tirei a mala do compartimento de cima do guarda-roupas, arranquei calças e blusas dos cabides, procurei pelo par de tênis branco. Parei por um momento sem conseguir encontrá-lo. Percebi no silêncio. O silêncio incomum de um final de tarde de sábado. Televisão sempre ligada, os passos apressados do guri pra lá e pra cá, minha mãe gritando “cuidado”. Que bom que estava sozinha, deixaria só um bilhete, seria melhor assim. Saí do meu quarto em direção à cozinha para a área de serviço em busca do tênis. A luz da cozinha ligada, estranho. E o cheiro de queimado. Cheguei à entrada sem portas. O ar foi sugado dos meus pulmões. Meus pés se desequilibraram no piso escorregadio. Senti os joelhos chocarem contra o chão. À minha frente, meu irmão olhava curioso para algo escuro em suas mãos, entre suas pernas, sentado. Ao seu lado minha mãe, de bruços. Os dois em uma poça vermelha. O cheiro de ferrugem escureceu minha visão.

O arroz um grude escuro e duro no fundo da panela. A carne crua na bancada. O escritório do meu pai um pouco revirado, algumas caixas abertas. O corpo sem vida da minha mãe levado embora. Apenas as pequenas impressões digitais encontradas na arma. Ele nada disse além de estar brincando com a mamãe e ter feito barulho. Começou a chorar quando as perguntas não pareciam parar. Um psicólogo foi tudo o que indicaram de necessário, uma vez por semana, para ele. Para mim, adulta, maior de dezoito com dezoito, que soubesse lidar e fosse responsável. Sobrou eu e ele.

Os dias se arrastaram em minutos inexpressivos. Ele parecia estar bem. Comia, assistia TV, soltava suas gargalhadas. Eu cozinhava, deixava e pegava na escola, varria, lavava, passava, dobrava, guardava, fazia nescau. No silêncio, no mínimo de palavras, tornei-me um fantasma ou uma pedra. Me entupia de remédios, amorteci todas as dores, desviei o caminho das lágrimas, eu era uma alma dormente. E o menino agia pavorosamente normal. A falta de compreensão da vida que tinha, ou da morte, me assustava.

Um dia dentro da terceira semana após o segundo enterro do mês, ele apareceu correndo no meu quarto, mostrando o dedão. Havia se machucado. Gotinhas de sangue se formavam enquanto ele pressionava o dedo. Limpei a ferida, fiz o curativo.

– Quanto precisa sair de sangue pra ir onde a mamãe foi?

Não respondi. O psicólogo me pediu para nunca entrar no assunto e deixar tudo com ele, avisá-lo de algum comportamento ou questionamento diferente, e só. Assim fiz.

Na oitava semana, e dias antes do seu quinto aniversário, o guri voltou no assunto. Sentado à mesa revirando a comida no prato, parecia concentrado, sorria por vezes, e logo voltava a ficar sério. Em um dos momentos de seriedade me indagou:

– Quando a mamãe volta?

– Nunca.

– Por que?

Me arrependi de ter respondido, dei o silêncio ao porquê. Ele continuou.

– Vamo visitar… Vamo conseguir dinheiro e ir… Papai deixou dinheiro, não deixou?

Dormi e a vi. Ela me dizia para ajudar meu irmão no que precisasse, e que eu precisava ter paciência e coragem para dar meu amor, que existia amor em mim. Esperei pelo papai e ele não apareceu, ele nunca aparecia. Um barulho seco no tímpano, minha mãe com um furo no meio do peito. Eu coberta de sangue. Me encaminhei à cozinha. A luz ligada, passei pela abertura. Ninguém lá. Um ruído de ar passando por dentes, de quem chupa saliva. Respiração pesada. Procurei ao redor, não havia ninguém. Me encaminhei para a área de serviço, abri armários, o volume do ruído aumentava. Uma puxada na barra do meu pijama. Virei. Mãos apertaram meu pescoço por trás me sufocando. À minha frente meu irmão em pé segurava um braço humano que arrastava no chão, o braço do meu pai, e me encarando, hipnotizado, levou a boca vermelha ao buraco de um dedo decepado e chupou.

Suor. Muito suor. Era meio da madrugada. Passei pela sala em direção à cozinha, as formas no escuro se transformando em espreita contra um quadro azul da luz que refletia na película das janelas. Substituí o fôlego por água e quando o ar vinha a preencher o espaço restante dentro de mim, um repuxo na minha calça. Caí, atordoada tateei o chão para me virar e me defender do que quer que fosse. Olhei ao redor. Nada. A bainha da minha calça presa no meu calcanhar.

Saí da cozinha desligando a luz atrás de mim. Passei pelo quadro composto de janela e sombras. Lentamente. Sem querer ouvir meus próprios passos. Uma sombra se moveu, veloz. Passos estalados ecoaram. Algo macio arrastava-se pelo piso da sala. O suor pregando na minha pele, o frio da espinha me congelou. Pressionei a fenda dos olhos com força, esperando por um barulho mais alto, as mãos no pescoço, o odor de lata velha. Esperei dois segundos. Um barulho. Minha mão no interruptor. A sala iluminada. Meu irmão me fitava do canto, a uns cinco metros, apático, abraçado ao travesseiro como se escondesse algo além de si. Nos encaramos por um momento. Escondi o meu medo por detrás da seriedade. O chamei. Ele não se moveu. O chamei novamente. Ele hesitou. Deu um passo para frente. Deu outro. Sem deixar de me olhar, sem desviar seus olhos frios, sem vida, dos meus. Percebi um sorriso salientar-se no canto de sua boca, tímido. O travesseiro preso por um dos braços contra o corpo, pendeu para a direita, revelando o início de seu outro braço. Aceitei o meu destino. Primeiro meu pai, que eu não aceitava ter cometido suicídio, não acreditava, e depois ela. Agora era eu a companheira de brincadeira. Ele diria “mãos ao alto?” como o policial da série que assistia? Onde pode ter arranjado outra arma? O escritório. O escritório que eu ainda não havia tido coragem de limpar. Dar as coisas. Que se mantinha entreaberto com um peso de areia revestido de tartaruga, como se ele pudesse sair de lá a qualquer momento e me dissesse “daqui a pouco o seu irmão lhe bate e vai começar a doer, aí você vai se arrepender de tirar do programa dele só pra chatear…”. O menino apressou o passo em minha direção, agora com os lábios formando uma meia lua de sorriso. Tentei falar alguma coisa, nada audível. Ele continuou vindo, o travesseiro arrastando no chão, as duas mãos ocupadas nele. Ele passou e se dirigiu ao quarto. Não consegui ouvir meu suspiro, mas o movimento do meu peito denunciou o alívio.

Eu morava e cuidava do demônio. Quatro anos, e sem qualquer indício de humanidade. Nenhuma compreensão do que é a dor da alma, vivendo para suprir necessidades. Nenhum sinal de real emoção, exceto o entretenimento de quem não tem nada com o que se preocupar. Seu destino em minhas mãos, ao que aparentava, mas o meu que estava nas suas. Algemada em sua pequena e destruidora existência.

Acumulei coragem e entrei no escritório no dia seguinte, depois de deixá-lo na escola. Ainda revirado. Nada senti. Em ações automáticas como um cão bem treinado me pus a arrumar. Abri armários, caixas, folheei papeis. Muitos foram para o lixo. Purificação a cada reserva de itens para doar, a cada papelada inútil na lixeira. Um álbum. Um álbum meu. Ali estava eu recém-nascida, arroxeada, um bolo de carne prematuro. E depois nos braços da minha mãe com ele em pé ao lado da cama de hospital. Meu batizado. Meu primeiro aniversário. Cada fotografia com uma legenda, “minha menina abrindo o primeito presente de natal”, a vida tranquila que sua menina um dia teve. A pressão no estômago subiu para a garganta, ia vomitar. Expeli um grito soluçado, fechei o álbum num tapa, meu corpo inteiro chorava, meus olhos não. O tremor dos dedos dos pés aos ombros. Me impulsionei a continuar o trabalho.

Esvaziei mais um compartimento de envelopes, no fundo três caixas de madeira. Uma era o abridor de vinhos velho do meu avô, item de família há algumas gerações, em outra cartões antigos de felicitações, na última, uma caixa com entalhos trabalhados, mais um item de sua coleção. Fitei o interior da caixa por um momento. As outras duas joguei no lixo, essa guardei comigo.

Era a noite do quinto aniversário do menino. Não havia lhe dado parabéns, feito bolo, nem nescau com granulados de brigadeiro como nossa mãe costumava fazer. Apertada em minhas mãos a caixa de madeira entalhada. Fui ao seu quarto, onde já de pijamas se preparava para dormir. Sentei na cama, ele me olhou com curiosidade, tinha pena em seus olhos. Não desviei.

– A mamãe te mandou um presente – disse.

– Sério? – uma súbita empolgação lhe tomou a face.

– Uhum. Ela me ligou e disse que sabia que você sentia sua falta. Pediu que eu lhe ajudasse a ir encontrá-la.

Ele ficou maravilhado. Lhe entreguei a caixa. Lhe disse como fazer.

– Espere eu sair. É só apertar aqui com força quando tocar o céu da boca.

Ele assentiu ansioso.

– Feliz aniversário.

Voltei ao meu quarto e esperei. Alguns segundos se passaram. O via chegar ao meu quarto a qualquer momento, com seus passos curtos e leves, que faziam estalos. Desejei que o fizesse. Não me importava, contanto que aquilo acabasse. E então um estampido. Alcancei o telefone e disquei. Estava livre.

A Descarga Aleatória de cada terceira Quinta

Coloquei o relógio de quinta no pulso. Era, inclusive, quinta-feira. Os ponteiros marcavam sete horas da noite, em ponto. No celular ao lado também, junto com mensagens não visualizadas. Não consigo tolerar meus relógios em horários diferentes. Passo um tempo considerável tentando sincronizá-los quando percebo que algum perdeu o passo. Se existe uma hora certa, que se tenha ela na mão. Um minuto a mais, um minuto a menos, fazem toda a diferença. Vira hora errada, de que serve uma hora errada? Se fosse de algum proveito ouviríamos na rádio “a hora errada é: 18:58”, “repita”, “10:27”. Inútil. Mas às vezes seria mais sincero. Em contrapartida, os númerozinhos de contagem de mensagens não me irritavam. Deixa acumular… Assim me sinto querido. Alguém estará esperando por mim.

Saí com meu relógio pontual. Esse era daqueles de vinte contos, imitação livre. Não ousaria sair com os caros, melhor ficarem na caixa do que caírem num pulso que não o pagou. Andei algumas quadras, em cada esquina um horário diferente na parede. Andei devagar, inspirando o ar que não parecia existir na cidade abafada que é São Paulo. Os prédios e o asfalto respiram mais que a gente aqui.

Avistei um barzinho padoca com pouca gente, mas com gente. E lá me sentei do lado de fora. Pedi uma cerveja. “Copo americano, por favor?”. Uma moça bebericando de uma caldereta semicerrou os olhos pelo meu pedido. Seria ela meu cano de descarga? Um homem a cumprimenta e senta-se ao seu lado. Não. Não seria ela.

Bebi uma, duas, três cervejas. Risadas eclodiam dali, morriam no meu labirinto, todos acompanhados. Meu celular apitou mais uma vez, não chequei. Não seria a primeira vez que não encontraria um amigo desconhecido, não podia ser. De preferência uma mulher, sempre uma mulher, por favor. Quarta cerveja. E ela, tragando com vontade um cigarro antes de conseguir levar o isqueiro à ponta, parou ao lado da minha mesa. Tragou fumaça. Nos olhamos. Feição agradável. Uma brecha. Levantei-me levando o copo e meu cigarro nos dedos. Pedi-lhe o isqueiro.

– É engraçada a linha tênue que transforma os outros em fumantes passivos – comentei, na maior simpatia. Ela riu.

– É verdade… Um toldo configura isso tudo?

– Sim, mas como a camada de ozônio é um teto muito distante a gente pode sair dirigindo daqui.

Ela riu de novo. Engatamos um papo sobre a estupidez das pessoas. Fumamos mais de um cigarro juntos. Lhe ofereci um copo de cerveja, ela aceitou. Bebemos a quinta rindo da supervalorização de certas condutas sociais, como dar bom dia. E como essas mesmas condutas, se ignoradas, causam tanto desconforto e até inimizades. E ninguém se importa com ninguém de verdade, só em receber seu bom dia que nem um desejo verdadeiro é. Ela era Sandra, eu Heron, menti. Duas outras mulheres se aproximam, amigas da minha amiga. Uma me cumprimenta com as sobrancelhas no meio de sua exclamativa de “Pensei que você tinha ido embora! Já fechamos a conta”, a outra só observa prendendo os lábios. Para minha felicidade, elas se vão e minha amiga desconhecida fica.

Era o momento certo? Já havia tomado cervejas suficientes, ela também. Ficou porque quis… Então comecei:

– Sabe, acho que minha vida piorou depois que descobri o sexo.

Sua expressão parte reticente, parte confusa, me fez continuar.

– É… Sabe? Quando você é criança e não se importa que o que você está fazendo pode parecer um convite sexual? E de repente você cresce e tudo pode ser interpretado como um?

Ela riu. Ela me achava engraçado. Mas não havia graça naquilo. Era em realidade muito triste. A angústia roía meu estômago mais que minha gastrite.

– É sério… Por exemplo, semana passada, elogiei a apresentação de uma colega de trabalho. Qual é a primeira coisa que as pessoas concluem, inclusive ela? Que eu quero é comer. E talvez eu comesse! Mas eu nem sei se eu quero, nem passou pela minha cabeça. Mas agora talvez passe.

– A conclusão dos outros te leva a pensar que talvez a sua intenção era na verdade sexual?

– Sim. E não. Entende o problema?

– Não.

– Eu sei que minha intenção não era sexual, mas… Se eu admiro uma mulher por fazer algo e eu não a considero esteticamente repulsiva, então eu poderia muito bem transar com ela, certo?

– Certo…

– Mas por que eu deveria concluir com sexo?

– Porque é seu instinto?

– Só existe esse então? Eu não posso só gostar de estar aqui conversando com você, por exemplo?

– É… Entendi. É foda.

– Viu? Sexo estraga tudo.

Despencamos no barulho dos arredores, do nosso tabaco sendo queimado, do nosso pulmão preenchendo-se de fumaça.

E veio o que eu mais queria.

– Você tem razão…

– No quê?

– Eu estava aqui conversando com você achando que seu interesse em mim, no final das contas, era sexual.

– Não me leve à mal… Você é uma mulher atraente!

– Sei, sei… Mas eu não deveria levar qualquer atitude como algo a desfalcar ou fortalecer meu status de desejável. É me limitar, limitar os outros.

– E todos somos limitados e descritos e vistos por sexo. Somos escravos disso. Entende?

– É… É triste.

– Exatamente. Triste.

– Minha iniciação sexual sempre me deixou confusa…

Ela hesitou por um momento, arrastando um dos pés no cimento da calçada.

– Porque meu primeiro beijo foi em uma amiga. Brincávamos juntas, entende?

– Sei…

– Nos tocávamos. Mas era brincadeira. Eu nem posso dizer que sentia alguma coisa mesmo, eu era uma criança. Só mimetizávamos o que víamos chamar de relacionamento, era atuação. Ela parecia gostar, eu nunca soube de verdade, perdemos o contato, vergonha talvez, quando crescemos e entendemos o que era aquilo que fazíamos. Eu esperei em alguns momentos que me descobrisse lésbica, me senti forçando que me aceitasse quando não tinha o que aceitar, fiz terapia até…

– E você é hétero?

– Sim, um tanto completamente.

Rimos da ênfase.

– Você só ficou confusa porque sentiu que precisava rotular a sua sexualidade. E porque deu muito valor ao início da coisa, existe essa supervalorização de inícios… Em tudo, assim vejo. “O primeiro”.

– É… E depois de um tempo descobri que era normal, muitas pessoas tem experiências… homossexuais, digamos assim, quando novas.

– Sim, eu sei. E até descobrirmos isso, ficamos nos achando estranhos, com algum problema. Eu lhe entendo… Comigo foi um tio.

Ela tentou controlar os olhos que queriam arregalar pelo tanto que comprimiu os lábios.

– Família grande, o tio mais novo, – continuei – eu tinha catorze, ele vinte. Não foi uma história de abuso nem nada disso. Brincávamos, como você e sua amiga, nos testávamos. Ele se afastou, parou de falar comigo, acho que se sentiu culpado, ou teve medo. Só fui entender depois de muito tempo. Depois que se matou.

Sandra tinha os lábios tão apertados um ao outro que sua boca desaparecera. Curiosidade e lástima perpassavam o topo das maçãs das bochechas dando-lhe outros olhos. Não ousou questionar, não esperei que o fizesse.

– Eu o amava muito. Ele era meu exemplo em tudo na infância e na pré-adolescência. Corria como um raio, era impossível alcançá-lo. Dava uma canseira danada no Spielberg, meu cachorro. Me ensinou a jogar xadrez, me deixava ganhar às vezes…  – vaguei em memórias, fiz um momento de silêncio e continuei – A família o achava um perturbado, ninguém se assustou quando aconteceu o que aconteceu, ele se matar e tudo…

– Mas… – Sandra ponderou – Você nunca se sentiu… Nunca achou que fosse…

– Gay?

– É.

– Sim… Como eu disse à você, eu entendo. Me tornei muito reservado quando ele começou a me evitar. E logo foi embora da casa da minha avó… Ela era a única que o defendia, sofreu muito. Morreu dormindo, agarrada em uma camiseta antiga dele. Ele se enforcou quando eu tinha dezoito anos. Eu já compreendia melhor as coisas. Meu maior problema foi a culpa… Sim, fiquei um tempo demonizando minha sexualidade. Evitava qualquer um, homens, mulheres. Não me deixava sequer pensar a respeito. Me afundei nos estudos, me concentrei em fugir de tudo que era familiar e ao mesmo tempo doloroso. Me evitei até quando não pude mais.

O cigarro preso nos dedos de Sandra resumia-se a uma curva de cinzas. Bastou meu olhar para que despencasse. Lhe ofereci outro, ela sorriu envergonhada, sua postura antes ereta, agora encurvada e encolhida. Minha dor em seus ombros. Tentei amenizar o peso da minha história.

– Mas hoje em dia tá tudo bem! Desculpe lhe incomodar com isso tudo…

– Não, não… Imagina! Continue…

– Pois é… Me evitei até quanto não pude mais. Carlinhos na faculdade. Quando finalmente pude fugir daquilo tudo, vim cursar a faculdade na capital. Conheci o Carlinhos, o cara era brilhante. E gay. Eu não sabia. Ficamos muito próximos, amigos, até que ele deu o primeiro passo. Eu me deixei. Precisava me descobrir afinal. Não senti nada. Fui sincero com ele, ele nunca mais falou comigo. Perdi o amigo, mas ele foi minha motivação pra me sentir confortável em me deixar conhecer. Tentei ficar com outros caras, viajava para outras cidades às vezes pra isso. Não foi muito além, acabei me sentindo dando murro em ponta de faca. Eu não era gay. E eu achava isso incrível. Concluí que era assexuado. Só fui descobrir que não era quando conheci a Rita.

– Não sentiu nada nada nada por nenhum cara?

– Não… Estranho, né?

– É… Quero dizer, não sei. Eu jurei que você devia ser gay. Ou bi…

– Eu também.

Nesse momento gargalhamos juntos, aquela risada que soa como a que sucede o choro. Tímida e que traduz um “olha que loucura!”.

– Isso de precisar definir minha sexualidade, e todo o drama da minha iniciação sexual, por assim dizer, foi sufocante. Criei uma barreira. Acreditei ser o que não era. Tenho um certo orgulho de ter passado por isso tudo e me considerar uma pessoa bem esclarecida hoje em dia, devo admitir. Sem grandes traumas.

Sandra me presenteou um sorriso de admiração pelo segundo que nossos olhos se encontraram, mas logo abaixou a cabeça. Comentou que já estava tarde e precisava ir. Nos despedimos em mais um aperto de mãos, não trocamos contato, não queríamos, fiquei até aliviado de não precisar mentir novamente. Ela era como eu.

Voltei para casa respirando melhor, como se o ar da cidade tivesse sido filtrado pela minha noite. Tirei o relógio do pulso e o coloquei em cima da mesa, eram exatamente 01:37, e a sensação de cumprir com intuitos na minha espreguiçada, espalhando-se pelas minhas costas cheias de nós de stress. Toda terceira quinta-feira do mês eu saía e escolhia um lugar propício para conversar com algum estranho amigo. Um cano de descarga aleatório. Algumas vezes dava mais certo que outras, mas sempre, de alguma forma, dava certo. As pessoas são solitárias, as pessoas não confessam, não se mostram. Um pouco de álcool e ouvidos de um desconhecido realizam esse milagre. Ser verdadeiro, honesto, nos seus maiores podres, nas suas mais dolorosas experiências, é coisa que você tem que pagar alguém para poder ser, um psicólogo. Ninguém está preparado para saber a verdade de ninguém, a verdade é suja, amoral, feia, e sempre será lembrada. Você sempre será aquele com aquela história cabeluda em tudo o que você fizer, é um preço que a vida social, o seu nome respeitável, não suportam. Assim como eu, Sandra, se é que seu nome era mesmo esse, não quis que estendêssemos nossa amizade, já sabíamos pontos fracos suficientes um do outro, nos machucaríamos no andar da carruagem, nos sentiríamos vulneráveis, expostos demais. E não conseguimos manter qualquer relação em que não somos dominantes e impecáveis. Se não agora, depois.

Tirei o celular do bolso e chequei as mensagens. Era o WhatsApp, quinze mensagens não lidas. Uma de Rita, me desejando boa noite. As outras eram da minha mãe que havia acabado de ganhar um celular novo da minha irmã. Catorze mensagens de teste, “oi meu.filho”, “voc esta ai”, “?”, um emoji de carinha feliz e um monte de animais aleatórios. E pronto, noite perfeita. Ri daquela mulher que me colocou no mundo e que nunca entenderia meu mundo, pois por muito lhe amar, jamais compartilharia minhas verdades. Que ela ficasse com meus prêmios profissionais e alguns netos. Dormi feliz.

TPM: Uma Jornada – TPM é tão Natural quanto Sexo

Introdução ao conteúdo abaixo AQUI.

A minha teoria que eu gosto de pensar:

Quando o óvulo não é fecundado, se menstrua (e muitas vezes se comemora e se fala que vai pagar uma grade de cerveja pras amigas), e os níveis de estrogênio e progesterona despencam, ficam no quase zero, e logo tudo volta a acontecer. É como preparar um enxoval, um berço. O estrogênio vai montando a estrutura, a progesterona coloca o colchãozinho, a hipófise manda de presente as ferramentas e os lençois. E o berço fica lá esperando, esses hormônios todos tendo esse trabalhão, subindo e descendo escada, saindo pra deixar o outro entrar porque os cômodos celulares só tem espaço pra um às vezes, e quando terminam, eles esperam. Esperam ansiosamente. E nada acontece. Eles começam a ficar putos, oras. Como assim eu arrumei isso tudo pra nada?!

Uma fêmea é uma fêmea para um único propósito: procriar. O organismo feminino funciona para esse fim. Mesmo que a cultura possa querer o contrário, mesmo que a capacidade de racionalizar e o livre-arbítrio queiram diferente, mesmo que a vida não seja só a súplica do seu útero. Se você é uma fêmea o seu papel na natureza e na perpetuação da espécie é esse. Nós, como partes de um sistema natural, nos encaixamos nele para propósitos simples assim. O que somos no que criamos, o sistema social, não muda o que a natureza demanda, mesmo que possamos impedir e bater de frente. A natureza grita e continuamos tentando mudá-la em nossa inventividade, e muito conseguimos, mas não deixamos totalmente de ser o que somos.

A TPM é só a resposta de um organismo que não cumpriu o seu papel primordial em existir. Passou o momento certo pra fazer vida dentro daquele óvulo-alvo posicionado com tanto cuidado, então tudo começa a descamar, a morrer, e sangue. É o sentimento do fracasso sendo reconhecido, os ombros caídos de toda a química que se envolve tanto, de 28 em 28 dias, pra conseguir seu objetivo. É a fêmea que não provou ser fêmea de verdade. A depressão toma conta por isso. Por algo que muitas vezes nem se queria que acontecesse. Mas a natureza queria.

Quando eu me vejo na TPM eu fico com raiva, não necessariamente motivada pela TPM, mas porque ela existe e me deixa diferente, e eu não consigo total controle sobre os olhos que enchem de lágrima facilmente ou a impaciência de ter que explicar mais do que eu quero. É por isso que, na minha teoria, a TPM deixa as mulheres carentes, necessitadas de atenção, de comprovação de valor, afeto, porque de repente o organismo delas aponta o dedo num carão dizendo que ela não foi mulher o suficiente. Porque ela não recebeu a visita que faria sentido à sua existência. Como não ficar irritada com tudo e todos com tanta pressão química?

Quem nunca teve, não vai entender.

Um paralelo entre a incompreendida TPM e o que os homens acreditam que não dá pra entender:

Em um paralelo, a TPM seria como o que muitos homens acreditam ser “coisa deles”, o desejo sexual pulsante pela sua, pelas dos outros, pelas de ninguém, mas por elas, muitas delas, todas elas. Aquilo que seria o seu motivo em existir como macho, o mesmo da mulher, perpetuação da espécie. E para eles é ir soltando sementinhas aos quatro cantos, enfiando o berimbelo em quanto mais melhor, porque é assim que a natureza manda ser. E eles acham que mulheres jamais compreenderiam isso, porque é “coisa deles”. Inicialmente, sim. Homens foram feitos pra isso, fecundar, mas…

Pulei o parágrafo pois a coisa é nossa. O acasalamento, a busca do nosso instinto por um parceiro ideal, é nossa. O “ideal” sempre dependendo do momento, do objetivo, algumas pessoas querem para a vida, outras para o aqui-agora, e ainda o “vamos ver”, “deixar acontecer”, “por que não?”, e esse foco se desloca. Se homens tendem a ser poligâmicos por instinto, mulheres tendem a mudar o seu foco masculino de prioridade, por instinto. Se o macho o qual uma fêmea se relaciona não atende às expectativas, ela se torna naturalmente vulnerável à influência de outro, e às vezes é só por uma questão de piscar os olhos. O idioma em que muitos homens se sustentam é o prazer, e a expressão mais utilizada nessa língua é o “não significou nada”. Esse idioma “prazer” que a cultura faz muitas mulheres não perceberem ter a mesma inclinação para falar, mas falam fluentemente. Ouso dizer que a natureza feminina auxilia fazer o “prazer” uma língua moribunda, já que fêmea quer a segurança para si e sua cria, nossos antepassados ecoam dentro de nós, sabe? E os contos de fadas também.

Dizem que quem criou a infidelidade (ou a poligamia) foi um homem, eu tenho lá minhas dúvidas, mas faz sentido. Por esse motivo de mulher existir pra ser mãe e homem existir pra ser pai dos filhos de muitas mulheres. Por experiência e observação, mulheres tendem mais à monogamia, ou pelo menos à crença de sua aplicabilidade, do que os homens, eles, sempre tentados pelo capeta chamado curvas femininas. Essas curvas supervalorizadas na estética mundial. É complicado ser diferente quando tudo ao seu redor corrobora para o pensamento imperativo: deseje-a, deseje-a, deseje-a. E ser homem na nossa sociedade ter tanto sobre o “pegador”, o conquistar, o conseguir. Cocotas são troféus. Uhul. Não, ridículo isso, macacos.

Não é difícil de entender que seja assim, os motivos e fatores são inúmeros para que homens ajam e sintam como tal, para que esse comportamento esteja enraizado passando por geração após geração após geração, Eras. Um traço cultural desenvolvido com base na natureza, onde mulher era algo a ser conquistado (sendo como for, e ainda até que é, né?), que sempre foi vulnerável em força física e por ter que carregar um bebê, que a moral religiosa soube separar “muito bem” os papeis dos gêneros, e tudo aquilo que sabemos da História e sobre a vida das nossas avós naquele mundo de casa, comida, roupa lavada. Não é difícil de entender, acredite em mim. Aceitar que você, machão, precise espalhar suas sementinhas porque a natureza manda, é outra coisa. Assim como uma mulher na tensão pré-menstrual querer jogar um vaso pra espatifar na sua cara. Não aceitamos, apenas entendemos que existe o impulso.

A natureza me manda gritar na cara de muita gente quando eu tô na TPM, e eu não faço isso. A natureza me pede, até implora, pra eu enviar um belo dum “vá tomar nas partes tabu do corpo” pra quem muitíssimo pode merecer, mas nem por isso eu envio. É isso, eu me olho no espelho e vejo uma criatura escrava da natureza, das influências a que fui submetida desde minha concepção, da minha história pessoal, dos meus sonhos, das minhas decepções, das minhas crenças e consigo não ser só um corpo o qual a química manda e desmanda, mas que a respeita por ser o que é, e administra.

Homens e mulheres não são tão diferentes assim quando atribuímos correspondentes, só se fica na dúvida eterna do que dói mais, o parto ou um chute no saco.

TPM: Uma Jornada – TPM não é Jesus Cristo

TPM poderia ser uma sigla existente em cantigas educacionais infantis, daquelas de botar medo. Se uma mitologia fosse a ser originada nos dias de hoje, inspirada no humano contemporâneo médio, a TPM seria, sem sombra de dúvidas, representada como algum monstrengo poderoso de força sobrenatural, e cheio de lábia. E mesmo não existindo essa entidade mitológica, a TPM paira como uma nuvem surreal na vida de muitos, e é vista sim como um mito, uma bobagem, uma desculpa esfarrapada.

TPM: Uma Jornada está dividida em dois posts e quatro sessões. Aqui as duas primeiras, onde eu conto um momento da vida quando eu quis querer arrancar a cabeça de uma mulher com os dentes e uma explicação plausivelmente científica para tal. No próximo post “A minha teoria que eu gosto de pensar” e “Um paralelo entre a incompreendida TPM e o que os homens acreditam que não dá pra entender”.

Uma historinha introdutória:

Uma vez eu conheci uma mulher que, vestida em um tubinho douradíssimo num final de tarde na praia, conseguiu a proeza de ter a soberba como elemento cegante. Pesquisadora, destemida e com algum trauma de infância (sic), comentava com ironia misteriosa sobre um “mito” chamado TPM, sensual se fez aos homens em demonstrar como não era uma mulher igual as outras, tirando as curvas que seus trinta e poucos anos não deixavam em nada a desejar, ou muito a desejar. Os comentáriozinhos nebulosos e irônicos tratavam ter tido como resultado de uma pesquisa que a tensão pré-menstrual era, basicamente, uma historinha pra boi dormir. Apesar de às vezes parecer que eu faço rodeios e me delongo desnecessariamente pra chegar a um ponto central, eu tenho real apreço ao papo reto, por isso a ela me direcionei amigavelmente, apenas por uma questão de “vamos deixar bem claro?”,  mesmo sem termos sido apresentadas: “tu tá dizendo que TPM não existe?”. Ela, sem conseguir sustentar meu olhar talvez por crer que havia me ofendido com seu posicionamento, me deu um “sim” sem dizer “sim”, mais uma afirmação cheia de nuvens. “Tu não tem TPM, né?”, nem me importei com o ultrapassar limites da não-intimidade. E ignorando a atenção que lhe dava e meu interesse pelo assunto, jogou os cabelos para o lado e confirmou o que eu imaginava, ela não sabia o que era. “Não, nunca tive?”, e voltou-se a olhar para o outro lado. Seu tom interrogatório indicativo de “estou bem aqui no alto, querida” só me fez dar-lhe um soco bem no meio do nariz, na minha imaginação, mas ainda não conseguira me fazer parar a tentativa de diálogo. “Engraçado, eu nem marco o dia que vou menstruar, mas sempre sei que tá chegando quando me dou conta que tô na TPM, sabia? E é batata”. O que ela ia dizer? Os olhos disseram “pobre coitada que se engana” e a boca entortou-se num sorrisinho cínico, antes de voltar a ignorar minha presença. TPM não existe e ponto final com aquela dali, ~pesquisadora~, sabe? “Se eu tivesse na TPM tu que deixava de existir”, balãozinho de pensamento sagitarianamente dramático em cima da minha cabeça.

Ao longo da vida eu precisei lidar com um questionamento e uma afirmação negativa de sumir com a íris revirando os olhos pra dentro da cabeça. “Tu acredita em TPM?” e “Não acredito em TPM”. TPM não é a divindade de Jesus Cristo, meus queridos. TPM não é Deus, não é a fidelidade do seu cônjuge, não é a palavra da sua mãe. TPM não é uma questão de crença. TPM existe. Para algumas felizes criaturas, como nossa colega do primeiro parágrafo, ela se esconde. Contudo, todo mundo já sofreu devido à síndrome, inclusive e principalmente quem não tinha nada a ver com isso.

Uma explicação científica na minha (e na sua) língua:

Vamos entender uma coisa que existe: hormônios. Com os homens o gráfico mostra uma curva que vai subindo, vai subindo, vai subindo, fica lá em cima e depois vai caindo, caindo, caindo, ao longo da vida. Com as mulheres, essa curva sobe e desce num ciclo de aproximadamente 28 em 28 dias, o ciclo menstrual. Assim que a menstruação encerra, a curva começa a subir com o estrogênio, hormônio responsável pela ovulação, toda aquela preparação inicial do organismo feminino pra desenvolver uma vida, e não só: é o que faz uma mulher parecer mulher. (E homens também, veja aqui e aqui). Por volta do décimo quarto dia do ciclo, a produção de estrogênio começa a cair e a de progesterona a subir, e a progesterona termina aqueeeela preparação convidativa do “vem, neném”, o famoso e temido período fértil, óvulo no lugar certo, útero bem vascularizado, e você sendo mulher ou você conhecendo uma mulher já deve ter ouvido falar em “inchar” nessa época, não é à toa.

Agora, veja bem, esses dois hormônios são fabricados nos ovários e não agem sozinhos, para tudo isso ocorrer em exemplar sintonia com a natureza é preciso existir um cérebro. Um cérebro que lá no fundilho tenha um troço, ou glângula, do tamanho de uma ervilha chamado hipófise. A hipófise, pra quem não lembra das aulas, é chamada de glândula-mestre do sistema nervoso, porque lá de cima regula a atividade de outras glândulas e diversas funções do organismo, como o crescimento dos ossos, síntese de proteínas, seus rins funcionarem direito, o seu metabolismo basal, te ajuda, homem, a produzir espermatozóides, auxilia na regulagem da contração dos vasos sanguíneos, blá blá blá (insira aqui todo o funcionamento perfeito do seu corpo), e faz o ciclo menstrual acontecer dando uma mãozinha com dois outros hormônios, chamados hormônio folículo-estimulante e hormônio luteinizante, só à título de curiosidade, que atingem um curto pico de concentração pro ovário liberar um óvulo para dentro das trompas.

E essa glângula hipófise, esse carocinho poderoso, está ligado a uma outra doideira do cérebro, ladies and gentlemen, ao hipotálamo. Esse, mais graúdo, assim como uma castanha do pará, regula o que a hipófise faz e faz mais. Dentre controlar a temperatura do seu corpo e seu apetite, ele manda no comportamento sexual (o do organismo, não na sua cantada de pedreiro, OU NÃO) e nas emoções. Vamos ler de novo: emoções. Emoções são neurotransmissores, são hormônios, é química no e do cérebro. E eles são jogados pra lá e pra cá, indicam caminhos aqui, chegam ali. E agora tudo se abre como o universo: não existe uma coisinha sendo feita ali que não influencie outra coisinha sendo feita aqui. Isso tudo sendo dito para chegar a essa óbvia conclusão ululante, mas precisamente necessitada de lembrança. Tudo, tudo, TUDO, se influencia. Dentro do seu corpo acontece o mesmo, e ele tem uma inteligência única.

Voltando às mulheres e seus hormônios e o gráfico flutuante de 28 em 28 dias e sua TPM. Os hormônios na mulher estão em constante impulso de foguete ou em queda livre, certo? E isso não acontece sem ser notado ou sentido. Sem influenciar o resto do organismo. Não é sem qualquer explicação mulher ser vista como “de lua” pros machos que não tem seus hormônios interferindo na produção de serotonina. Nas mulheres, os hormônios femininos interferem. É sabido que a serotonina, o neurotransmissor responsável pelo humor, pelo contentamento, passeia pelo hipotálamo, influencia no sono, no apetite, na vida sexual etecetera, apresenta baixas taxas no momento pré-menstrual em um número grandioso de mulheres. OU SEJA, se esse diabo de serotonina não tá ali em quantidade suficiente, depressão, irritabilidade, tudo isso, fica facinho, facinho facinho. Por isso que você vê muitas fêmeas loucas por doce, chocolate, querendo se esbaldar num pote de sorvete assistindo comédia romântica, porque essas guloseimas estimulam a produção de serotonina. E eu tenho a impressão que comédias românticas também.

Existem outras causas, outros desequilíbrios que fazem cada tipo de TPM, porque além de ser um monstro, ainda tem várias cabeças. Se encontramos excesso de estrogênios ou baixas em progesterona, alguma deficiência num tal de PGE1, retenção de sódio… resulta em alguma coisa, como dores de cabeça, ganho de peso, esquecimento… Vixe.

Então, sim, TPM existe. E não entremos no ponto onde mulheres usam essa belezinha como desculpa por virar o demônio. Mas também saibam diferenciar um demônio de uma pessoa sensível e vulnerável.

***

=to be continued=

Fugi do meu dentista porque não conseguia sorrir

Às vezes é necessário uma dose de Woody Allen, uma xícara grande de capuccino e toda sua companhia à sós pra te tirar do inferno. Essa era a meta quando peguei o carro, além do desejo por um jantar salada. Fui onde sabia que tomaria o capuccino perfeito, a salada ficaria nas possibilidades opostas da surpresa.

Lugar vazio, muito prazer. Me dirigi para a área dos doentes mentais fumantes, a única com vivalma, mas ninguém conhecido, vi por alto, ainda bem. Um moço ali acompanhado de seu smart phone, uma senhora ali com um rapaz, e… me enganei, um perfil reconhecível. Passei direto e me sentei de costas. A figura conhecida tomando forma na cabeça: meu dentista. Por todos os Santos do Mau-Humor, eu não conseguia nem sorrir, a opção de fingir não ter percebido a presença me pareceu a única, ainda mais agora que eu já havia sentado, e de costas, no melhor impulso antissocial não ensinado pelos senhores meus genitores.

Pedi o capuccino. Abri o cardápio em busca da salada, achei, pedi. Capuccino chegou, cremoso de transformar o esôfago. Peguei a carteira de cigarro. Remexi na bolsa. Isqueiro. Isqueiro? Cadê? Puta merda, esqueci no carro. Mas eu não podia levantar, seria arriscado demais para a educação ir até o carro, então decidi ir só até o balcão em pedido de socorro. Levantei-me e segui o rumo da venta, sem inspirar qualquer suspeita de perceber arredores. Consegui o isqueiro e voltei, fechando a porta com as minhas costas para a situação social sem assunto. Sentei de volta. Ufa. E me entendi muito bem com a nicotina, a cafeína e a loucura woodyallenesca. Menos com o vento. Ali, dizendo com todas as letras que vinha, bagunçava tudo, e ia embora, mas que voltava. E sempre voltava.

A situação social de ignorar presença não me fazia esquecê-la, mesmo quando toda a certeza de melhor escolha era inquestionável. “Fugi do meu dentista porque não conseguia sorrir” aparecia num letreiro luminoso a cada piscar de olhos, aquilo tudo era muito ridículo, e fazia um sentido tão doentio que beirava o reconfortante. Microfones logotipados de emissoras de TV eram enfiados no meu nariz. “Por que você não falou com o seu dentista? Ele lhe fez alguma coisa? É algum receio crônico da utilização da broca? Você acha que se ele lhe visse ele ia querer futucar os seus dentes?”. E tudo o que eu consegui responder aos microfones foi: Eu até utilizaria bem a oportunidade de mostrar-lhe meus dentes para a crítica, ele veria como andam bem cuidados, exceto por esse cilindro que carrego no dedo. Mas o problema é que não consigo mostrar os dentes. E se optar pelo sorriso sem eles, ainda estaria lhe dando uma careta, e seria capaz de ele sair correndo de assombro. E então eu ri, ri feito um alien, momento propício pro garçom chegar com a minha salada. E que salada! Exclamei: vixe, mas é pra trinta, né? Com o que ele me responde: “mas é só folha! Num dá nada!”. Vou dizer o quê? Que dá? Dá nadinha não. Folha it is. E foram. Um monte pro chão.

O vento, que como disse, vinha, bagunçava tudo, e voltava, voltava. E vinha e voltava. E vinha… e ficou nessa. Ai meu deus, como eu vou conseguir comer isso? Duas mãos era o que eu tinha, um garfo, uma faca e um pegador, administrei todos como peso de papel, e ainda assim… plano falível. Alface voava. Melhor eu ir lá pra dentro comer isso. Não posso! Como que eu vou passar por lá sem falar com meu dentista? Seria muito mau educado da minha parte! Croutons viraram pesos de folha também. E os pedacinhos de frango. E eu segui ali, numa técnica que só o improviso pode explicar, mas folhas voavam. “Mas que jantar, hein?”. Susto. Minha boca cheia de folha. As mãos ocupadas na travessa daquele matagal alimentício. Viro e dou de cara com o sorriso mais amigável da esfera planetária, e o mais invejavelmente branco também. Meu dentista. Engulo fazendo força pra conseguir responder. E tudo o que sai da minha boca é o desespero: né! Jantar revoltoso! Tô tendo que segurar tudo pra não voar!

Muito bem, Laila. Muito bem. Pra quê confessar o drama? Pra deixar a pessoa sem ter o que dizer. “Ah…”. Pois é. Tudo bem?? Tudo bem. Tudo bem também. E aí?? Beleza! Silêncio. Não houve cumprimento físico, eu não podia levantar, perderia meu jantar, eu não poderia tirar as mãos de cima da salada, perderia meu jantar! E então ficamos ali nos encarando por dois segundos, eu encurvada e encaretada, ele desconfortável pela minha existência patética. “Manda um beijo pra tua mãe!”. Joinha. Eu consegui mandar um joinha. Uma folha voou. E eu mandei um: joinha. Uma folha voou pra eu mandar um: joinha. E meu dentista foi embora. Olhei pra alface no chão e pensei: alguns são sacrificados em prol das piores ações.

O que me tirou do inferno não foi o café, nem o livro, mas o meu dentista e um diabo de salada voadora. No carro, voltando pra casa, concluí por mais uma vez na vida: o inferno deixa de existir a partir do momento que você ri da própria cara. E eu não fiz outra coisa.

Da série: cartas ao meu melhor amigo

Eu tentei contar o tempo. Com certeza mais de dois meses, três meses? Quatro? Cinco? Eu não consegui dizer, nem lembrar. Eu consigo lembrar de ontem, mas a emoção de ontem já distante, apesar de reconhecer como eu. Não reconheço o meu hoje, mas sinto, como se uma alma perdida tivesse tomado a cabeça e empurrado a água dos olhos afora. Uma entidade necessária? Sensação dejavuniana ou parecido, não de visão, ou audição, ou outro sentido dentre os cinco, nem o sexto, mas de memória. Cabeça mesmo. Sentindo dentro da pele uma alma que conheço sim, e devo conhecer muito, porque a dor dela é a minha. Uma inquietação de ferida que treme os dedos, que não compreende onde está, deslocada por permanecer em um corpo que não é mais seu. Trancafiada, quase nunca manifesta-se, e hoje a pele, as glândulas ou hormônios não souberam negar a passagem. A memória conseguiu passar com seu excesso de peso, o pagamento em espécie de martírio, hoje eu vejo tudo, com o embaçado de quem não tranquilamente aceita e cerra os olhos com força pra expulsar a lágrima. Hoje ela fica no olho e seca, já em ciclo. Quando derrama, não é por pálpebras, é transbordar. Transbordou. O nariz, as bochechas, a língua de café, contorcionistas a olho nu da angústia que só não é por se saber o motivo. O passado, a bibliografia consultada, virou hoje tema. Nada será resolvido, só sentido. Quando se cansar de gritar, volta à sua jaula de fera cruel e deixa livre o espaço da minha nova alma existir. Às vezes é suficiente as letras juntas assim, como querem sair. E não se sentir só. Aqui consigo os dois. Obrigada.

A cor do respeito

“Filho de uma puta, corno safado! Nos explora nessas horas extras pra quê? Pra encher o cu de brilhantes dessas vadias que quanto mais cifrões se mostra, mais elas ficam molhadas! Velho desgraçado pau mole!”, Horácio tomou fôlego, e continuou sua revolta sibilar, a face se despedia do sangue concentrado e uma das espessas sobrancelhas arqueava em suspeita, “sabe o que eu acho? Que ele anda roubando todas as ideias daquele grupinho de estagiários que se danou a passear por aí pra bancar o descolado. Sabe o que eu to falando, né? O famoso benchmarking de potencial. E os coitados ficam lá, chupando o saco enrugado do velho, tentando impressionar…”. Calado como fiquei, os passos caros ecoaram pelo saguão daquele prédio que não tardei a nunca mais querer retornar, e saímos rua afora.

Desde a minha promoção, Horácio fora o único da velha guarda a me convidar para almoçar. Nos sentávamos em algum restaurante nas proximidades e ele fazia questão de que eu comesse o mesmo que ele “pra ser mais rápido na cozinha, entende?” ou porque “é o melhor prato da casa, se pedir outra coisa é burrice!”, assim como eu pre-ci-sa-va experimentar “e eu até te daria uma prova do meu, mas aí tu ia querer comer todo o resto! há-há!”. E eu o deixava fazer como queria. Se já me sentia obrigado a conviver e lhe dar ouvidos para não me trazer problemas, que eu ao menos tirasse algum prazer em vê-lo inventar novas desculpas para mascarar o fato de que lhe aborreceria enormemente perceber que o prato que havia escolhido era mais apetitoso que o dele. Horácio era assim.

Quando sentamos à mesa do Le Pendant naquele começo de tarde de segunda-feira, Horácio precipitou-se a gesticular para o garçom conhecido e a abrir bem a boca, acompanhada dos olhos, em todas as sílabas de “dois camarões provence”, objetivando a leitura labial como se não estivesse quase berrando o pedido. Se Horácio não fosse assim, teria demorado menos para que eu quisesse deixar aquela vida.

“Mas olha, eu respeito o velho. Um cara no ramo há décadas e nunca saiu do topo. Nunca precisou se desfazer das extravagâncias, como aquele helicóptero que todo mundo torceu o nariz quando ele comprou pra ficar aí de ponte aérea pra casa…”.

Aqui, quando ele me falava cara a cara, eu já não tinha como optar pelo silêncio, soltei um “É…”, e Horácio deu-se por satisfeito, emendando mais colocações. Só que não ouvi. Meus ouvidos se prenderam no “eu respeito o velho” e uma gama de significados se desdobrou como um origami em retrocesso. Respeito. Um conceito que antes sempre estivera no automático da compreensão, desabrochou visivelmente todas as suas faces.

O respeito que se dá é o respeito que se quer. Não no simples aspecto de reciprocidade social, mas no de sentir e ver o “respeito”. A educação tem o seu respeito de não ultrapassar os limites do outro, o que seria o não faltar com o respeito, apenas uma norma, e também uma estratégia, de convívio. O respeito de reconhecer alguém como bom no que faz, e ainda: no que é melhor do que você. E quando entramos por aí… Quanta frustração. A competitividade que se não é levada para desenvolver-se de maneira saudável, impregna a inveja, e quando esta inveja é percebida, o invejado preenche-se de vaidade. Vaidade que supre o ego e repentinamente o motivo de estar vivo é revelado, a vida tem recheio.

O respeito a alguém pelo status que se tem, porque muitos lhe babam o ovo, ou como Horácio diria: chupam-lhe o saco. As palavras elogiosas de interesse, o nervosismo no trato com alguém poderoso, a admiração pela beleza genética ou árdua em disciplina de exercícios, os olhos felizes em ver o que o outro possui, uma bolsa, um colar, o helicóptero. Os prostrados pelos prêmios recebidos, pela opinião pública. A opinião pública sobre quem ninguém vê cometer falhas, ouve lançar comentários politicamente incorretos, sabe que pagou uma puta, e não quer dizer que não o faça. O respeito de tantos me pareceu a coisa mais ridícula do mundo. Um respeito que eu simplesmente não tinha, e portanto percebi: não queria.

“… mas é assim mesmo, né?”. Horácio finalmente terminara seu discurso, e isso foi tudo o que ouvi. Sem saber, eu podia concordar: era assim mesmo. Tudo “é assim mesmo”, né? Então concordei com a cabeça. Aquele assentir triplicado e lento, de quem com certeza não só ouviu perfeitamente como quem sente igualmente, sem tirar nem pôr, o mesmo. E graças a Deus os camarões chegaram e Horácio encheu a boca de comida, deixando meus ouvidos vazios para o jazz ironicamente tranquilo do Le Pendant. Na minha cabeça, o verão tempestuoso de Vivaldi.

Os camarões pareciam pedregulhos, o arroz areia, as notas do piano me faziam de boneco de vodu. Todos os meus sentidos traídos pelo meu cérebro. Onde eu fui me meter? Comigo era assim. Eu sabia muito bem que estava indo contra o fluxo da minha natureza quando aceitei aquele emprego, sabia com que tipo de pessoa teria que lidar, o que eu precisaria fazer para sobreviver e crescer dentro do negócio. E eu só tinha passado de isca para peixe pequeno naquela odiosa cadeia alimentar. “Está decidido”, pensei. Vou largar tudo isso de mão. Peço minhas contas hoje. Melhor, vou me fazer ser despedido. Aí consigo um bom dinheiro pra me sustentar por um tempo. Não vou morrer amargurado, vou voltar à escultura. Sim, o barro, o desbastador, as unhas sujas por dias. Reencontrar os velhos amigos, conhecer gente que eu possa respeitar por ser gente, como eu.

Ninguém me respeitava porque eu estava no lugar errado. Era só isso. Eu não respeitava ninguém além do obrigado, porque eu estava no lugar errado. Minha vida estava descolorida. Uma urgência me subiu pelo ventre, eu precisava respeitar! Há quanto tempo não falava com alguém que me despertasse o real sentimento de respeito? Aquele de admiração por um belo espécime de humanidade? Havia me tornado um peão do tabuleiro da vida alheia, da opinião dos meus familiares e da necessidade de conseguir pagar todas as parcelas de um carro luxuoso para provar a felicidade. Não mais. Eu ia engolir aqueles pedregulhos pela última vez.

Quando cheguei de volta ao escritório, despistei Horácio com a desculpa de “banheiro” e me dirigi à sala do velho. Não me despediria dele, não teria seus olhos indagativos sobre meu estado mental. Tudo ao meu respeito naquele trajeto ao salão triangular  exalava confiança. Senti ser observado com atenção por duas ou mais mulheres. Estufei o peito mais ainda. Coloquei as duas mãos em cima da mesa da secretária e pedi para falar com Ele. Ela me olhou com curiosidade, uma curiosidade sensual, eu achei. Um outro peixe pequeno estava sentado no aguardo. Ainda a me observar, ela discou dois dígitos, leu meu nome no crachá e avisou o velho de minha presença. Nem me espantei quando ela levou o telefone de volta ao gancho e me disse que eu podia entrar. É como dizem, quando você toma o caminho certo, as barreiras caem sozinhas. Me dirigi à porta e minhas costas foram fuziladas pelo homem que provavelmente aguardava ser chamado há horas.

1 minuto se passou e eu saí. Meu peito mais estufado que nunca. A vida colorida. Recebi um aumento e toda minha urgência por respeito fora esquecida. Até ontem, quando recebi outro aumento.

Lágrimas são vírgulas

Levo os olhos às mãos para que encontrem a escuridão das palmas. Mantenho-os abertos, tontos, no desfocado nada, a luz presente na fresta da ponte do nariz, bem-vinda só para que o escuro não deixe de ser na falta do contrário. A visão é um embaçado de oco negro e luz distante, a cabeça doi.

Cada poro, cada pelo, inquieta-se no desconforto insone. E toda a tristeza que rebate nas colunas dos ossos é desapontamento. O mundo é feio hoje. A conhecida dicotomia da noite ressurge. Um momento, algumas horas, intensas em faltar a coluna vertebral cunhada de otimismo, motivação ou alguma dessas outras coisas que se tem pro viver ser de algum proveito. Essa não sou eu, mas é sim.

Há muito não me questiono sobre a verdade a mostrar, mas aprendi a calar. Desde que veio a calhar descobrir a gruta sem ecos do sentir. De seguir com as costas cravejadas de metal sem resposta à pergunta do porquê, nunca expelidos, criando crosta de proteção a qualquer olhar afiado. Apesar do anfiguri pra quem não tenha coração ou experiência capaz de captar, da sonolência de quem nunca chegou tão longe sem entender, da péssima interpretação de quem aqui lê em necromania, a inexistência do receio traz deleite, todas as faces da verdade estão disponíveis, e todas tem sua serenidade.

Não consigo, nem posso viver sem essas letras. Não consigo, nem posso viver sem essas pobres anáforas, essas pesadas inscrições da sombra, meu vermífugo, meu exorcismo epicurista ou quase. Não consigo, nem posso deixar de dar vida ao travesti de olhos cansados que é a revolta bebendo calmamente um café ruim antes do sol nascer.

Lágrimas são vírgulas.

John Frusciante – WOW #4

“Frusciante” é um nome de origem italiana, “ante” chega de sufixo dando um estado à coisa de estar ou fazer o que o início da palavra sugere, como em “viajante”, um particípio presente. O que o cara faz, ou é, tem algo de frusciare, sussurrar, farfalhar. Coincidência ou não, influência ou não, os nomes desabotoam peitos. Viagem ou não, John Frusciante entrega em som suavemente o que é feito de delicadeza ao mais desesperado, elétrico, intenso ou rompante sentimento. São ondas envolventes até no que há de mais delirante e perturbador. Tudo faz sentido quando é sentido. É simples como parece.

Essa deve ser uma das maiores paixões da minha vida, deve ser uma das coisas que eu sou mais grata por existir, porque na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza, tudo o que ouço molda-se em abraço ou camisa-de-força, toma a forma do que eu preciso sem eu ter a consciência de qual necessidade seria essa. Encaixa, desperta, acalma, apoia, reflete. Faço das minhas palavras perdidas a escultura de som e silêncio que vem acompanhada por esse nome, John Frusciante.

Existem alguns motivos pra esse WOW, além do fato de eu ser apaixonada pela música dessa criatura. Primeiro, esse é um depoimento lindo sobre música, concedido à equipe do documentário The Heart is a Drum Machine (que também vale muito a pena ser assistido, façam a nota mental), e não fala só de música, fala de muito mais, e na minha opinião, esse “mais” diz respeito a todos, vejo como basicamente a relação do indivíduo com o mundo e consigo mesmo. Em segundo lugar, esses 45 minutos de falatório conseguem tocar em pontos os quais foram esclarecedores para mim nos últimos anos da minha vida. E eu não sei nem expressar o tamanho da falta de solidão ao receber certas conclusões já entranhadas em mim pela boca de outra pessoa, ainda mais essa outra pessoa sendo alguém que me causa já tamanha sensação de pertencer a esse mesmo mundo que tanto já senti não ser o lugar que eu deveria estar. É muito do que eu gostaria de falar a tantas pessoas, é muito do que eu falo para minha própria cabeça. Acredito que esses dois pontos bastam, mas adiciono: esse depoimento tem o poder de te deixar suave, mesmo que excesso de análise te perturbe. Tudo faz sentido. Só isso.

Pra facilitar, transcrevi a entrevista completa em português. Segue abaixo:

“Eu acho que a força que nos criou se expressa através da nossa existência. Eu não acredito que uma ideia musical começa no seu cérebro, acredito que comece em um lugar antes disso, um lugar o qual não temos qualquer contato direto. E acredito que tudo o que fazemos, tudo o que criamos, é a natureza se expressando, da mesma forma que uma flor cresce do chão ou uma árvore, é a natureza se expressando. Você pode dizer que uma árvore se expressa pela forma como seus galhos crescem, mas é a força que direciona a natureza. A coisa visível, aparente, aos nossos sentidos. Mas isso não nos mostra a fonte, a razão disso se perpetuar.

Música é uma coisa inefável, que eu não acredito que palavras realmente consigam nos dar um verdadeiro entendimento a respeito. Somos capazes de fazer contato com essa corrente, essa força criativa do universo, uma certa fonte, deus, ou como queira chamar. Somos capazes de nos conectar com essa inteligência, Continuar lendo