Cadeiras, mesas e copos

Humanos são como cadeiras, mesas e copos. A diferença é que cadeiras, mesas e copos não são acometidas da dúvida de serem o que são. Humanos são humanos, mas não tem utilidade certa como cadeiras, mesas e copos. Esse é o desafio da vida. Achar a utilidade humana, ou melhor, achar a sua utilidade. Você só é rei do próprio mundo, que você cria e orna. Ser escritor é ser vaidoso, por querer mostrar ao mundo o seu próprio. Se você cria, e se você só serve e se encaixa pra isso, os outros é que lhe estipularão um preço, que o pagarão, e lhe consumirão. Ser escritor é depender demais, é ser o útil para quem conseguir ver… E eu não sei se alguém vê.

A utilidade humana, tão dependente de cada corpo e mente, não pode ser só útil, senão todos apenas serviríamos. Ser garçom traz alegrias, você alegra alguém lhe servindo mais um copo, mais um prato, mais um sorriso caso seja aquele solitário que faz o social por ser bicho da sociedade e não por estar socializando. Ser secretário lhe dá alegrias por conseguir facilitar a vida de outrem. Ser pedreiro lhe faz feliz por colocar em prática um projeto, uma linha de ações pré-determinadas, e se não fosse por você, não teria como subir aquele arranha-céus onde pessoas projetarão novos talvez.

Eu sinceramente não sei se quero ser simplesmente útil, como cadeiras, mesas e copos. E que me desculpem as cadeiras, mesas e copos, mesmo vocês sendo lindos mesmo quando são feios, a utilidade de vocês não muda. E imagino que fiquem felizes quando ao invés de lhe usarem pra tomar, colocam uma flor, e quando ao invés de lhe sentarem a bunda, colocam uma pilha de livros, e no lugar de cotovelos e pratos e computadores, se deitam em ti. Mas, cadeiras, mesas e copos, vocês existem porque alguém os criou. Assim como nós. Mas vocês já nascem sabendo o que são. Ao contrário de nós. Eu queria me sentir bem em apenas servir, em seguir ordens, em agir e só. Mas eu não combino muito bem com ordem, e ações por técnicas, muito menos tenho tanta coordenação motora, até queria. Se eu fosse garçonete, todas as bandejas causariam um estrondo no chão, como pedreira meus prédios nem ergueriam, e pra secretária não me dou muito bem atendendo telefonemas e organizando timetables.

E eu acho tudo lindo, só não é a minha linda utilidade. Um dia, eu quero me chamar de cadeira como a cadeira se chama, e de mesa como a mesa se vê, e de copo como o copo é. Por enquanto, eu só posso me chamar de humano.

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