Rap de Repente que não Rima

É tudo poder da mente inquieta. O estático balé do silêncio. Encerra primeiro ato, pode tossir. O espetáculo continua com mais uma dose de café. Aceleram-se as sinapses, pouca tinta mancha papel. A tela com um mundo inteiro frente a face, inalcançáveis mãos, incertos olhos, nada muda de posição. Aqui dentro tem alguém que pinta e borda, nesse corpo de aluguel, cartão de visita não sustentável, dessa ilha que dizem não se ser. Não sendo, estando, há mais do contável, se é. Sempre se torna o que o tempo mostra padrão. E dirão diferente, dirão que por uma topada a deselegância contamina a tua postura e que por farelo na boca eis guloso, descuidado ou porco. Eu escrevo, mas a falta de preenchimento em letras impera por culpa da cabeça que sente mais do que é capaz de exprimir e pelo backspace. Isso aqui foi tinta manchando papel. E ninguém nunca terá nada a ver com isso, só que tem.

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Dançando com os demônios

Caminho em coreografia espontânea, puxada de um lado pro outro por agentes duplos. A figura angelical à esquerda, o lembrete da malícia do mundo à direita. Hemisférios de pensamentos. Uma lente dos olhos nus, outra de coração. A alma consagrada pelo que treme em beleza e revolta. Criar, destruir, recriar. Destruíram. Recria-se. Recria-se tão esplendorosamente em cólera, remete à dúvida da embriaguez da tolerância, da compaixão, da compreensão. Tão catastroficamente indefesa, desprotegida, corajosa, nobre, que sem cuidados descobre-se então uma descuidada, ingênua. Em humildade, a maior das soberbas de ainda acreditar, sentir certeza, majestade e estuprar os olhos de cegueira branca, de brilho, de química de jasmim. Dançando com os demônios por ser a brincadeira da provação, por ser um cara a tapa que não se abre mão, por ser essa única ausência de autoproteção, injusta, impulsiva de quem, ainda, quando encontra par de pés faz o viver dois. Não adianta decidir pela visão brutal e segura quando se nasceu pra ser comida de fantasma. O desafio é a fuga, ela, que só se encontra em raiva, trevas e destruição. Recria-te.

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Cansaço dos grilos da noite

O cansaço de ser útero e verem placenta. O cansaço de ser exceção do erro, exceção do certo. Cansaço. Cansaço de terem mãos mas nunca braços. Terem coração mas nunca ação. De serem fogo e nunca água. Cansaço. O cansaço de ser cérebro e pulso sem gaiola, sem chave, sem portão. O cansaço de ser aspirador de pó, abajur de leitura, escada de três degraus. De serem poeira, vírgulas soltas e baixos. O cansaço de ser e não poder ser o porquê. O cansaço da certeza deixada no canto do mundo para apodrecer porque o mundo nada vê, só roda sem sentir. Roda sem sentir. O cansaço de sentir. Meu último grito, minha última revolta. Na noite tudo silencia.

Fado da Farda do Fardo

Estamos amaldiçoados a sermos vividos e esquecidos. Estamos amaldiçoados a esquecer. Abençoados a esquecer.

Uma melodia surge na última camada cerebral, o fado do fardo. Como todo fado, cheio de pesar; o peso do fardo, da farda sazonal. Com as fardas vão-se alguns planos, projetos. Os objetivos são daqueles da pele, os sonhos são daqueles da alma. Não se vão, nunca irão. Nos pertencem, são nossos, só nossos, e os personagens aceleram numa metamorfose de alta velocidade distinguível apenas quando passam.

Fadistas fadados às fardas dos fardos.

A dolência do esquecimento arde enquanto interessante a memória, quando não, “ainda bem”. Aceitar o “ainda bem” dos outros enquanto nossa figura torna-se desfocada ao borrão de uma única cor dessas de parede sem cor catalogada na ponta da língua – nem amarela, nem laranja, nem marrom, talvez um bege, que serve pra qualquer tom entre elas que não se saiba, nem se tente, classificar – é ______ (foda?). Nos tornamos de uma coloração indiferente, como se tornaram a nós. Somos da cor do burro quando foge, ou pior.

Vou invadir sua vida talvez de amarelo solar, vou perpassar tons salpicados de magenta e vermelho, me transformarei em lilás, irei até o azul celeste, o verde musgo, o cinza caótico, o preto escuridão e, um dia, virarei um tom inclassificável pelo tanto faz. Minhas cores vão pintar a sua farda, de obra de arte abstrata às ordinárias manchas.

No fado desse fardo se entoa o escuro, o musgo, o caos. As manchas da farda que se torna trapo. No guarda-roupa os restos de pano, que um dia foram fardas, em cabides, os trapos enfileirados como alta-costura esquecida. A nova farda que surge já chega fadada ao mesmo fim manchado de fardo.

Mas aí, eu penso, ainda bem que fatum originou tanto o fado quanto as fadas. Fica por nossa conta escolher a roupagem do destino. Fadista fadada às fadas, o prazer é nosso, espero.