John Frusciante – WOW #4

“Frusciante” é um nome de origem italiana, “ante” chega de sufixo dando um estado à coisa de estar ou fazer o que o início da palavra sugere, como em “viajante”, um particípio presente. O que o cara faz, ou é, tem algo de frusciare, sussurrar, farfalhar. Coincidência ou não, influência ou não, os nomes desabotoam peitos. Viagem ou não, John Frusciante entrega em som suavemente o que é feito de delicadeza ao mais desesperado, elétrico, intenso ou rompante sentimento. São ondas envolventes até no que há de mais delirante e perturbador. Tudo faz sentido quando é sentido. É simples como parece.

Essa deve ser uma das maiores paixões da minha vida, deve ser uma das coisas que eu sou mais grata por existir, porque na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza, tudo o que ouço molda-se em abraço ou camisa-de-força, toma a forma do que eu preciso sem eu ter a consciência de qual necessidade seria essa. Encaixa, desperta, acalma, apoia, reflete. Faço das minhas palavras perdidas a escultura de som e silêncio que vem acompanhada por esse nome, John Frusciante.

Existem alguns motivos pra esse WOW, além do fato de eu ser apaixonada pela música dessa criatura. Primeiro, esse é um depoimento lindo sobre música, concedido à equipe do documentário The Heart is a Drum Machine (que também vale muito a pena ser assistido, façam a nota mental), e não fala só de música, fala de muito mais, e na minha opinião, esse “mais” diz respeito a todos, vejo como basicamente a relação do indivíduo com o mundo e consigo mesmo. Em segundo lugar, esses 45 minutos de falatório conseguem tocar em pontos os quais foram esclarecedores para mim nos últimos anos da minha vida. E eu não sei nem expressar o tamanho da falta de solidão ao receber certas conclusões já entranhadas em mim pela boca de outra pessoa, ainda mais essa outra pessoa sendo alguém que me causa já tamanha sensação de pertencer a esse mesmo mundo que tanto já senti não ser o lugar que eu deveria estar. É muito do que eu gostaria de falar a tantas pessoas, é muito do que eu falo para minha própria cabeça. Acredito que esses dois pontos bastam, mas adiciono: esse depoimento tem o poder de te deixar suave, mesmo que excesso de análise te perturbe. Tudo faz sentido. Só isso.

Pra facilitar, transcrevi a entrevista completa em português. Segue abaixo:

“Eu acho que a força que nos criou se expressa através da nossa existência. Eu não acredito que uma ideia musical começa no seu cérebro, acredito que comece em um lugar antes disso, um lugar o qual não temos qualquer contato direto. E acredito que tudo o que fazemos, tudo o que criamos, é a natureza se expressando, da mesma forma que uma flor cresce do chão ou uma árvore, é a natureza se expressando. Você pode dizer que uma árvore se expressa pela forma como seus galhos crescem, mas é a força que direciona a natureza. A coisa visível, aparente, aos nossos sentidos. Mas isso não nos mostra a fonte, a razão disso se perpetuar.

Música é uma coisa inefável, que eu não acredito que palavras realmente consigam nos dar um verdadeiro entendimento a respeito. Somos capazes de fazer contato com essa corrente, essa força criativa do universo, uma certa fonte, deus, ou como queira chamar. Somos capazes de nos conectar com essa inteligência, Continuar lendo

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Desabilidades Sociais

Um grupo de conhecidos é avistado, a campainha do cumprimento sinaliza o momento. Você se aproxima e emociona a Educação. Vai lá dar dois beijinhos na moça conhecida e… taca a cara contra a dela. Dá-lhe um soco de zigomático. Uma amostra grátis de solidez da mandíbula. Quando você não é bochechudo o suficiente pra amortecer, dói, dói porque eu sei o que é ter um queixo acima da linha de grandeza da normalidade e o que é enfiá-lo na cara dos outros sem querer. Dói. É desconfortável. A pessoa fica surpresa, não dá pra entender o porquê de tanta violência e depois ela fica lá com a mão no rosto como um impulso de esconder o foco de dor, mas assim só o que consegue mesmo é expressá-la e te fazer sentir um lixo de coordenação. Uma sensação maravilhosa de sociabilidade é latente, tamanho o talento observado. Compete com a traição do sistema de drenagem natural de baba na boca, ou então da agressividade dos movimentos bucais, quando você está em plena oratória. O cuspe que escapole num jato e marca a fuça do interlocutor. Você pode até fingir que não percebeu, mas todo mundo sabe que você sabe que cuspiu, e que foi sem querer, mas cuspiu, e atingiu a pessoa desafortunada em estar falando com você. Quem foi cuspido sabe, e sabe muito bem que tem saliva alheia na bochecha, no nariz, e quem sabe até no meio da língua, atrás de um dente e coisa assim. Uma saliva alheia que não foi dada a licença para entrar em contato com o seu ser, ela não deveria estar ali, é uma intrusa. Eu acho é bonitinho a pessoa cuspida que entra na onda de fingir que nada aconteceu pra não deixar desconfortável o cuspidor e disfarça pra limpar a baba. Tem aqueles que inclusive tomam um tempo com a baba lá na cara, tudo para não causar um constrangimento (e também, quem sabe, para não assinar embaixo do “sim, me cuspiram”), e só depois tomam a atitude de se limpar. Muito ótimo para o convívio humano essa doação de si. Mas existem coisas assustadoras.

Quando se está de costas, caminhando, tudo é um imprevisto exceto o que se tem no campo de visão e o destino do trajeto. A vida é assim, feita de auxílio da visão periférica para se reagir, mas quando você está de costas… complica. E aí tu é freado, teu sapato dá uma enlouquecida no pé, teu calcanhar sente ar livre, se for chinelo arrebenta, o susto vem batizado de tontura, o mundo não é mais o mesmo e tu percebe que alguém pisou na parte detrás do teu calçado. Meu amigo, por que tão próximo de mim? Tu queria me cheirar? Como tanta falta de noção de espaço, pressa ou  lerdeza é capaz de ser comportada em um só indivíduo? Tu embananou o caminho alheio pra nada, uma pessoa que saiu de casa só pra comprar o pão pro café da avó e acabou por se esborrachar no chão porque um pé inventou de tentar invadir o sapato de outro. Situação social mais desconfortável sem trocas verbais (a corporal já na ação em si completamente repentina) é difícil encontrar pior por aí.

O nome disso tudo é destrambelho. A pessoa que gesticula tanto que acaba por estaponar quem vem passando, o tropeçante que não satisfeito em perder o equilíbrio se segura em qualquer coisa em seu raio alcançável de deslocamento débil á vitória da gravidade, a toalha da mesa, as caixas de chocolate da prateleira da conveniência, outras pessoas, que com certeza saíram de casa só pra comprar o pão do café da avó… Eu botaria fé se isso impedisse um ladrão a segundos de cometer o delito, mas as peças do mundo não tem a tendência de terem um motivo quando agem sem aviso prévio. O significado não existe para tudo, até porque significado é uma coisa que se inventa, não existe de verdade. O que acaba existindo é alguém com a ideia de compilar cenas das pessoas sendo estúpidas a esse ponto pra fazer os outros rirem da imbecilidade da própria raça. Um joinha para vocês, pioneiros do entretenimento das cassetadas.

Perante algumas cenas do desastre humano boboca, alguns se preocupam com o próximo, chega ao alarme do “perigo de morte”. O destrambelhado manuseando artefatos arriscados, líquidos nocivos, máquinas complexas, não se espera coisa boa, e às vezes nem é para tanto, um garfo sempre pode espetar um olho se a mão que o segura faz parte de uma pessoa que já teve boas dicas da vida de manter distância de objetos pontiagudos. E ainda, uma pessoa altamente dotada de coordenação está vulnerável a ter uma mão que em dado momento adere a um triste movimento, e se o olho se abre no segundo coincidente, se a cara muda de lugar por dois centímetros… Olho murcho. Infecção. Cegueira.

O perigo do destrambelhado solto aí no mundo, que pelo mesmo motivo da queixada na cara para dar um “oi” tende a fazer parte das estatísticas de quem derruba sem querer um portão com o carro (nem tô me usando de exemplo), está esclarecido. Falta de coordenação consegue formar desajustados sociais, e mais: o famoso “erro humano” muitas vezes não passa disso.

Rap de Repente que não Rima

É tudo poder da mente inquieta. O estático balé do silêncio. Encerra primeiro ato, pode tossir. O espetáculo continua com mais uma dose de café. Aceleram-se as sinapses, pouca tinta mancha papel. A tela com um mundo inteiro frente a face, inalcançáveis mãos, incertos olhos, nada muda de posição. Aqui dentro tem alguém que pinta e borda, nesse corpo de aluguel, cartão de visita não sustentável, dessa ilha que dizem não se ser. Não sendo, estando, há mais do contável, se é. Sempre se torna o que o tempo mostra padrão. E dirão diferente, dirão que por uma topada a deselegância contamina a tua postura e que por farelo na boca eis guloso, descuidado ou porco. Eu escrevo, mas a falta de preenchimento em letras impera por culpa da cabeça que sente mais do que é capaz de exprimir e pelo backspace. Isso aqui foi tinta manchando papel. E ninguém nunca terá nada a ver com isso, só que tem.

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Dançando com os demônios

Caminho em coreografia espontânea, puxada de um lado pro outro por agentes duplos. A figura angelical à esquerda, o lembrete da malícia do mundo à direita. Hemisférios de pensamentos. Uma lente dos olhos nus, outra de coração. A alma consagrada pelo que treme em beleza e revolta. Criar, destruir, recriar. Destruíram. Recria-se. Recria-se tão esplendorosamente em cólera, remete à dúvida da embriaguez da tolerância, da compaixão, da compreensão. Tão catastroficamente indefesa, desprotegida, corajosa, nobre, que sem cuidados descobre-se então uma descuidada, ingênua. Em humildade, a maior das soberbas de ainda acreditar, sentir certeza, majestade e estuprar os olhos de cegueira branca, de brilho, de química de jasmim. Dançando com os demônios por ser a brincadeira da provação, por ser um cara a tapa que não se abre mão, por ser essa única ausência de autoproteção, injusta, impulsiva de quem, ainda, quando encontra par de pés faz o viver dois. Não adianta decidir pela visão brutal e segura quando se nasceu pra ser comida de fantasma. O desafio é a fuga, ela, que só se encontra em raiva, trevas e destruição. Recria-te.

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Cansaço dos grilos da noite

O cansaço de ser útero e verem placenta. O cansaço de ser exceção do erro, exceção do certo. Cansaço. Cansaço de terem mãos mas nunca braços. Terem coração mas nunca ação. De serem fogo e nunca água. Cansaço. O cansaço de ser cérebro e pulso sem gaiola, sem chave, sem portão. O cansaço de ser aspirador de pó, abajur de leitura, escada de três degraus. De serem poeira, vírgulas soltas e baixos. O cansaço de ser e não poder ser o porquê. O cansaço da certeza deixada no canto do mundo para apodrecer porque o mundo nada vê, só roda sem sentir. Roda sem sentir. O cansaço de sentir. Meu último grito, minha última revolta. Na noite tudo silencia.

Fado da Farda do Fardo

Estamos amaldiçoados a sermos vividos e esquecidos. Estamos amaldiçoados a esquecer. Abençoados a esquecer.

Uma melodia surge na última camada cerebral, o fado do fardo. Como todo fado, cheio de pesar; o peso do fardo, da farda sazonal. Com as fardas vão-se alguns planos, projetos. Os objetivos são daqueles da pele, os sonhos são daqueles da alma. Não se vão, nunca irão. Nos pertencem, são nossos, só nossos, e os personagens aceleram numa metamorfose de alta velocidade distinguível apenas quando passam.

Fadistas fadados às fardas dos fardos.

A dolência do esquecimento arde enquanto interessante a memória, quando não, “ainda bem”. Aceitar o “ainda bem” dos outros enquanto nossa figura torna-se desfocada ao borrão de uma única cor dessas de parede sem cor catalogada na ponta da língua – nem amarela, nem laranja, nem marrom, talvez um bege, que serve pra qualquer tom entre elas que não se saiba, nem se tente, classificar – é ______ (foda?). Nos tornamos de uma coloração indiferente, como se tornaram a nós. Somos da cor do burro quando foge, ou pior.

Vou invadir sua vida talvez de amarelo solar, vou perpassar tons salpicados de magenta e vermelho, me transformarei em lilás, irei até o azul celeste, o verde musgo, o cinza caótico, o preto escuridão e, um dia, virarei um tom inclassificável pelo tanto faz. Minhas cores vão pintar a sua farda, de obra de arte abstrata às ordinárias manchas.

No fado desse fardo se entoa o escuro, o musgo, o caos. As manchas da farda que se torna trapo. No guarda-roupa os restos de pano, que um dia foram fardas, em cabides, os trapos enfileirados como alta-costura esquecida. A nova farda que surge já chega fadada ao mesmo fim manchado de fardo.

Mas aí, eu penso, ainda bem que fatum originou tanto o fado quanto as fadas. Fica por nossa conta escolher a roupagem do destino. Fadista fadada às fadas, o prazer é nosso, espero.

Escarafunchar-se pra ser, de novo pra sempre

Escarafunchar. Cavucar. Cavar. Futucar. Cutucar. Arranhar. Arrancar. Rasgar. Descascar. Furar. O quanto for necessário pra ver, achar, entender; o quanto for necessário pra suprir esse vício de sentido.

Por detrás da pele, os músculos; dos músculos, os ossos. Por detrás do gesto, a intenção; da intenção uma razão, um sentimento. Por detrás de um sorriso, uma felicidade, uma cortesia, uma mentira; da felicidade, uma beleza ou uma maldade; da cortesia, a educação; da mentira, uma insegurança, uma fraqueza ou um receio. Por detrás do aperto de mão de terno, um acordo; do acordo, um interesse. Por detrás do “bom dia” pálido, talvez a sonolência, talvez uma vontade que vire palavra mágica e assim o dia se torne. Por detrás do “eu te amo”, um “não te amo”, “não sei o que é amor”, “deve ser a coisa certa a dizer”, “você me faz bem”, “eu te admiro”, quem sabe. Por detrás da ideia, um impulso, uma incubação, um objetivo, uma vontade. Por detrás do laço, embrulho; do embrulho, caixa; da caixa, presente. Por detrás do hoje, ontem. Por detrás de amanhã, hoje. Por detrás da tinta nova, tinta velha, reboco, emboço, chapisco, argamassa, concreto, tijolo, vigas.

In this act of excavating, it’s the process itself which is expressive, more than the final result. It’s a process of trying to reflect upon our own layers”.

(“Nesse ato de escavar, é o processo em si que é expressivo, mais que o resultado final. É um processo de tentar refletir a respeito de nossas próprias camadas”).

E às vezes, pra achar, ver, entender, se precisa explodir:

E quando se tem a capacidade de captura de um slow motion, quando a observação é aguçada e a visão é um pente fino, por detrás de tudo ainda tem o farelo mineral; os pontos de encontro das teias, a trama engatando no urdume, as sinapses. E a poeira, e o átomo, o invisível e provavelmente o indizível. Daí volta tudo de novo a ser bom dia,  eu te amo, sorriso e parede.

***

I believe that, as social animals, we are all composed and shaped by a variety of different influences which are layered onto us. We are formed by these social and historical layers which are provided by the environment and context we grow up and live in. This same environment can also be seen as being composed by a vast amount of layers which have shaped it into what it is today. In a very symbolical way, I believe that by removing some of these layers and leaving other, deeper and therefore older, layers, we can expose some of the things which have been forgotten or discarded along the way. Some of these might be truly important or valuable, or even just interesting or whatever. These lost memories compose who we are today”.

(“Acredito que, como animais sociais, somos todos compostos e formados por uma variedade de diferentes influências que se sobrepoem sobre nós. Somos formados por essas camadas sociais e históricas que são fornecidas pelo ambiente e contexto que crescemos e vivemos. Esse mesmo ambiente também pode ser visto como tendo sido composto por uma vasta quantidade de camadas que o moldaram como é hoje. De forma bem simbólica, eu acredito que removendo algumas dessas camadas e deixando outras, mais profundas e logo mais antigas, se pode expor algumas das coisas que foram esquecidas ou descartadas pelo caminho. Algumas delas podem ser verdadeiramente importantes e valorosas, ou mesmo apenas interessantes ou sei lá. Essas memórias perdidas constituem quem somos hoje”).

Alexandre Farto a.k.a. Vhils é um artista português nascido em 1987. Entrevista (em inglês) pra Fat Cap aqui.

***

Escarafunchar: esgaravatar; tirar ou remover com as unhas; procurar, examinar ou investigar com insistência, com paciência; remexer em, ger. à procura de alguma coisa.

Trilogia dos Espelhos: conexão e solidão (parte II e III)

PARTE I AQUI – GRÃO SEM SACO

II – PUPILA-PUPILA

É um ato de estupro. Quem tenta meter as pupilas nas tuas nem sempre vai receber as portas pupilísticas abertas, nem sempre vai conseguir que se abram. Se alguém lhe empurrar suas próprias pupilas e forem indesejadas, você desvia. E nem precisa deixar de olhar nos olhos pra isso.

Repare, olhar nos olhos não é o mesmo de pupila-pupila. Quando conversamos com alguém cara a cara, não nos concentramos nessas bolinhas pretas a maior parte do tempo. Nossas pupilas focam diversas áreas que perpassam, por milesiminhos, nas pupilas do outro. Olhamos nos olhos, mas o olhar é disperso, não se propõe fixo. É uma lente aberta, o periférico se mantém perceptibilíssimo. Quando ocorre o pupila-pupila, não existe coisa mais fixa no planeta, nem menos questionável. Chega a ser desconfortável, é íntimo demais.

Vai ver é por isso o nome pupila, menininha do latim, e daí a alcunha de Menina dos Olhos. É a menina, frágil, inofensiva, pura, genuína, que denota tanto um poder bélico de sedução, jovem, viva, desejável, quanto um valor de tesouro que se faz curador. Muito íntimas essas pupilas, almas, vaginas.

Pessoas de olhar fixo, pupila-pupila em demasia, tem um trejeito psicopata, te deixam sem jeito. São olhos tão fixos que se tem a impressão de vidrados-porém-perdidos. Em ocasiões, suas pupilas estão abertas pras do outro, mas você desvia pela intensidade do gesto, timidez. E veja bem, não é necessário muito tempo nessa troca pra se perceber em meio a um estupro concedido.

Pupila-pupila procuramos em tantas situações… Ao falar sério com alguém, chateados, inconformados, e pelo outro estar sob pressão, não recebemos tanto suas pupilas nas nossas. Queremos que nos prometam algo na base do pupila-pupila. Quando nos interessamos por alguém, em um simples acasalamento, aquela olhadela que quer dizer abertura, e quando se concentra mais tempo nisso e vira a tal da sedução, um convite. Naquele momento de compreensão de cúmplices, algo que os terceiros ou quartos não precisam saber, do porquê se está com os olhos sorridentes ou olhos de reprovação. Sabe quando cicrano-não-tão-bem-vindo-assim chega e senta na sua mesa de bar e você e seu amigo trocam “aquele” olhar? Pupila-pupila de cúmplice. Tem o pupila-pupila de ameaça e desafio, de sangue fervendo, do impulso de bicho. No famoso pupila-pupila da paixão dá pra ver o pula-pula do peito em um estupro mútuo. E a do amor? A sincronia suave, o trem passando nos trilhos de túnel pupiloso a outro sem barulho algum, sem chiado, flutuando, deixando uma brisa fresca que acaricia as sobrancelhas…

Não é à toa que vamos ter uma maior sensação de confiança quando o pupila-pupila acontece. Pra alguém te deixar entrar enquanto tu permite a introdução das pupilas alheias também é um tratado, um contrato assinado. E é claro que alguns pupilapupileiam sem pupilapupilarem, fazem o vidrado-porém-perdido ao invés da abertura do fixo. Que perigo, e que feio. E talvez um pupila-pupila irônico.

Você percebe o pupila-pupila e você pode compreender o seu significado tirando pela moldura, a sobrancelha, o franzir que faz a pele, uma inflada de narina, um lábio enviesado, um braço próximo do corpo… Mas aí já é “outro” assunto.

III – ESPELHO

Nos encontramos nos nossos reflexos, nas nossas projeções, nas nossas dores e nos nossos sonhos. Mas até nos encontrarmos, não somos ninguém. Somos o vazio. Somos até uma fome que não se sabia que existia. Bastou sabermos da nossa existência que todos os poros roncam por nós, resmungam a nossa falta.

Em todos os sentidos que isso lhe fizer. É mais que trifacetado, pode utilizar o “multi” nesse quase mute de tão nebuloso nas conotações.

O espelho que somos pros outros é algo a ser descoberto. Sabe aquela situação é-confessando-que-se-percebe-o-quanto-se-é-normal? “Eu falo sozinha. Em inglês. Com sotaque escocês”. Você não é a única, menina doida. Com ou sem vírgula. Totalmente não-doida. Você é um espelho, nada, só, até que olhem pra você. “I’m like a mirror, I’m nothing ‘til you look at me”. Vão se encontrar em você, e não só nas coincidências, no “em comum”, vão se encontrar em você porque você vai ser pra alguém uma parte, que assim que te conhecerem, vão sentir que faltava e não sabiam, ou vão perceber em ti algo que estiveram esperando conscientemente. E quando se olharem no espelho, não vão ser mais o que eram, vão ser mais, vão carregar alguma coisa tua no próprio reflexo, em si. E isso não está sob seu controle, lembra? Só te olham se quiserem olhar. E além, vão fazer do seu reflexo o que quiserem, verão em você o que acharem que estão vendo, você pode concordar ou não. Quando você discorda… Você tem certeza que te olharam errado, que foram superficiais, e às vezes realmente o foram. “The face in the mirror is not me”. Você nunca vai ser o que você aparenta, mas sempre o que você aparenta vai ser um pouco do que você é.

Os grãos, quando se dão conta que estão em sacos com outros grãos, percebem o espelho. Quando outro grão se transforma em cristal, o reflexo é inevitável. Quando são intensos no reflexo, pupilapupilamente pulam do trampolim e mergulham. Quando voltam à superfície já não conseguem respirar como antes, repentinamente se tornaram pertencentes àquela água (grãos-sereios) e se veem sós de novo, com tanto ar irrespirável do tanto, tanto ar pra compartilhar e poucas narinas demais. Podem submergir logo em seguida, podem ter que nadar cachorrinho por um tempo, podem ter que tirar o corpo todo da água, subir de volta a escada e ficar esperando lá de cima do trampolim a melhor hora pra queda-livre de novo.

Grãos, que podem ser cristais, que estão divididos em vários sacos ao mesmo tempo, que são adeptos do salto de trampolim, que se tornam grãos-sereios, que tem narinas, meninas dos olhos e falta de ar com tanto ar, que tem sentimentos de solidão, que tem sentimentos de conexão, que o cristal que um outro grão se transforma os reflete, como um espelho… É, esse vendaval analógico foi pra tentar organizar pensamentos, descomplicar, desembaraçar os fios no meu miojo acinzentado, e consegui, até certo ponto. Só espero não ter transformado o seu nissin num nojo de organização. Tomara que não.

O agente desencadeador do turbilhão foi música. “The Mirror” (letra e áudio) e “Like a Mirror” (letra e áudio). Tudo isso porque deixei duas músicas entrarem, porque toda a beleza da solidão de “The Mirror” me foi/é uma mão no ombro e um soco de vida bem no meio do peito, e o sorrateiro de “Like a Mirror” é como o mundo inteiro à espreita, esperando a aceitação de um convite. As duas frases com “mirror” quiseram apertar as mãos dentro da minha cabeça, as mensagens que vi nas letras se entrelaçaram e, pelo visto, acionaram algo próximo a uma dúzia de furacõezinhos. Música consegue fazer cada coisa… Graças aos grãos-cristais que refletem, se projetam e se comunicam através dela. Feliz dia (ontem) do músico : )

Trilogia dos Espelhos: conexão e solidão (parte I)

Num desencadeamento de turbilhão mental muito feroz, se passa dias com a cabeça tão veloz e acesa que só dá pra recorrer à melhor forma de organizar a avalanche de raciocínio: escrevendo.

 I – GRÃO SEM SACO

Ela questiona os arredores como quem quer motivos pra todas as manchas da parede. “De onde surgiu o assobio ‘fiu-fiu’ e por que ele denomina elogio estético? E por que a etiqueta de ‘vulgar tolerável’? E por que vulgar? E por que tolerável? Vulgar pra quem? Tolerável pra quem?”. Uma pergunta inicial gera mais filhotes que moscas na cabeça inquieta dessa criatura. Ele, ele ri. Acha graça. A outra acha tudo uma idiodoidice, que diferença vai fazer saber de onde surgiu o “fiu-fiu”? E tem o terceiro que começa a se questionar também porque alguém, Ela, jogou a interrogação pra cima pra quem quisesse tentar alcançar.

Ela sou eu. Mas também pode ser você. Ou quem sabe você não seja Ele ou A outra ou o Terceiro? Ou uma misturinha deles? Talvez não, mas, com certeza, você é algum personagem lendo isso aqui, com seus outros iguais em reação na mesma escarcela em prol da organização, ou melhor, no saco da farinha que você é grão igual aquele outro e aquele outro ali e mais alguns muitos. E isso não é ruim, não tô supondo que você não seja único de valor, nem nada disso. (Por que a beleza sempre se demonstra como equivalente do único?). Você deve reagir a respeito de algo igualzinho outras milhares de pessoas, e isso é bonito, sabe? Caso contrário, como você se acharia no mundo? Ou você gosta de se sentir perdido? Se sentir perdido e deslocado te dá um prazer masoquista disso significar ser diferente dos outros e logo ter mais valor? Pois esse prazerzinho estranho dá em quase todo mundo. Nem nisso você está sozinho e é o único. Ah, o prazer de se sentir só porque ninguém consegue te entender… A lâmina fria que tanto fere quanto causa arrepios de desfruto mas seria antiético, imoral, amoral, errado, contraditório – insira aqui palavras que não se pode ser pelo bem da coerência – admitir.

Não é necessário se admitir a plenos pulmões pra todos os ouvidos disponíveis a completude de nuances da nossa natureza, mas tô num saco de grãos onde se acredita ser válido pensar a respeito. Algumas nuances são pra ser encaradas apenas como nuances, não como determinantes. Nunca deixe de se conectar com alguém com um vazio porque por trás daquele vazio há um prazerzinho singular de se ter o vazio. O vazio nos traz muitas respostas, muitas borbulhas que fazem pléc no ar quando se dissipam as bolhas, estalos que nos fazem ir atrás do que preenche o vazio ou de ao menos desejar o preenchimento. Ter o vazio é a fome. E a fome nos dá o singular prazerzinho da antecipação da gostosura. Eu gosto de ter fome, porque eu gosto de comer. E quem não prefere comer com fome ao invés de comer por comer? O prazer da fome é inconsciente, assim como o prazer de se sentir só e incompreendido, deslocado e perdido. É o prazerzinho da antecipação, da ansiedade, a adrenalina velada, do que vai acontecer quando passar, quando se achar, quando alguém perceber que o teu vazio é bonito, porque é. Porque te faz crescer, porque te faz desfrutar do cheio como ninguém (ou todos iguais a ti). O prazer do incompreendido solitário, do ser diferente por isso (sendo que não se é) é só porque quem sempre vive cheio não deve pensar muito em nada. A angústia da reflexão tem uma das belezas mais sutis e cegantes da natureza humana.

(E somos criaturas tão estranhas que existem exemplares de nós que falseiam e dramatizam o só pra receber uma fácil mão estendida. Não se deixe levar por quem se faz de coitado o tempo todo. A carência dessa pessoa nunca será sanada por você, não importa o que você faça. Ela vai te consumir, consumir por inteiro, suas vontades não existirão mais, você se tornará um servo, um pescoço veiudo de estimação à disposição. Essa carência só poderá ser sanada por ela mesma, os outros podem auxiliar, mas é só um auxílio, não a solução. Alguns espécimes de nós se viciam no vazio porque o vazio é fácil, se sentir só é fácil, reclamar então…).

Você reconhece um outro grão que pertence ao seu saco e somos divididos em sacos pra facilitar as coisas, os rótulos servem pra isso, os próprios adjetivos servem pra isso. Porém, na verdade, somos como a areia duma praia, de longe aparentamos grãos idênticos, de perto*:

O que te faz único é o que conseguem ver quando querem ver, quando chegam perto o suficiente pra ver, mesmo de longe. Porque seu namorado pode ser um arquiteto, vestir camisetas divertidas, tocar bateria, ser na dele, ter de refeição predileta o Big Mac e ser viciado em cinema alemão, e a cada característica que eu fui listando, o grupo a que ele pertence foi diminuindo em quantidade, mas ainda assim, com essas características ele se mantém parte de um grupo. E o que difere? Dentro dos arquitetos, a inspiração dele são ondas e tentáculos de polvos e tudo que é marinho e quando ele tá desenvolvendo uma ideia, os pés dele não param quietos, como se estivesse a todo vapor num pedal duplo de bateria, que ele toca como um diabólico totem, erguendo as sobrancelhas e inflando as narinas, e costuma dizer “se eu não fosse baterista, eu seria pugilista, porque eu preciso bater em alguma coisa”. Mas ele é na dele, não mexe com ninguém, e é sempre muito calmo, exceto quando surta infantilmente de empolgação balançando os braços igual um robô insano, e reproduz em um alemão caricato e como um grito de guerra “Als das Kind Kind war, ging es mit hängenden Armen!” (Quando a criança era criança, andava balançando os braços), de um poema narrado em Asas do Desejo. Não é o fato de ele usar camisetas divertidas que significa que ele tenha inteligência pro humor, você sabe disso, ele é meio lerdo e não consegue entender as piadas que contam até que pare um pouco pra pensar. E para pra pensar com uma expressão de quem compreendeu tudo, mas ele dá aquela coçadinha na mão como se estivesse amaciando a têmpora, no estilo estímulo físico pras engrenagens mentais rodarem. Ah, e ele é vegetariano, mas todo sábado come McDonald’s porque “minhocas tem é que morrer por estragarem as minhas plantas gostosas”. Você acha graça tanto da incoerência quanto da desculpa cômica.

Ele não seria único pra você se sua percepção não quisesse que ele fosse, se de repente o que o rodeia alegoricamente e o que o preenche não sussurrasse seu nome. Feromônios, química, admiração, instigação curiosa, identificação, encaixe, sei lá. Você só é único pra alguém se o alguém assim lhe fizer. E, certamente, você quer pessoas por perto que possa enxergar além dos olhos.

Contente-se com sua circunstância de grão como os outros. Delicie-se e viva quando se transformar num cristal pra alguém que também cintila pra você. É como quando suas duas pupilas encontram diretamente outras duas pupilas em êxtase, até que isso aconteça vocês só se olham… Mas aí, vocês vem a se enxergar, talvez, e o brilho nos olhos é meramente inevitável.

Mas o vazio não acaba aí, a vida só se torna mais… confortável. E bonita.

Somos, em essência, grãos sem saco, na solidão. E somos grãos sem saco, em perspectiva e objetivo, de sermos únicos. E, ser único não deixa de ser solitário. Entende?

“Loneliness is the human condition. Cultivate it. The way it tunnels into you allows your soul room to grow. Never expect to outgrow loneliness. Never hope to find people who will understand you, someone to fill that space. An intelligent, sensitive person is the exception, the very great exception. If you expect to find people who will understand you, you will grow murderous with disappointment. The best you’ll ever do is to understand yourself, know what it is that you want (…)”.  Janet Fitch, “White Oleander”**

Simplesmente não ligue pra solidão, se beneficie dela, e pode ter certeza que a vida dá um jeito de revelar os cristais.

*Microfotografias de grãos de areia. Fonte: sandgrains.com/index.html

**Nunca li, não sei nada a respeito, mas essa citação apareceu coincidentemente na minha fuça navegando à deriva pedindo pra ser encaixada na mensagem final.

Uma Criança Danada

Dói, dilacera, troca os órgãos de lugar, o coração vira intestino. Inacreditável, completamente inacreditável o que um segundo tem a capacidade de fazer: vida, um segundo, morte.

É sempre vista como uma visita que se delicia com a crueldade do de repente ou com o requinte do sadismo vagaroso. Mas ela não é uma visita. Ela nunca é uma visita. Tá ali deitada na minha cama lendo uma revistinha da turma da Mônica e gargalhando, tá sentada aí à tua esquerda no chão rodando um cubo de Rubrik, tá dentro do carro com o cinto bem apertado no banco de trás, tá “de macaquinho” nas costas da tua mãe enquanto ela cozinha cantarolando, tá cutucando teu ombro ou costelas de maneira irritante em diversos momentos do ano. E cada um tem a sua Morte, entende?

Ela é uma das duas presenças permanentes nas nossas vidas, e ela vive brincando, e brinca pesado. Pra isso que se tem a babá da Morte, a outra presença permanente. E a babá trabalha, trabalha duro, e muito pouco se dá os créditos e valor pro tanto que ela tem que aturar dessa criança danada, e olha, é coisa que nem no circo se vê de tanta habilidade, e coisa que a nossa psicologia não explica. A única coisa que se sabe é que essa criança passa dos limites na traquinagem inescrupulosa. Não culpe a babá, eu já disse: a Morte brinca pesado, PESADO. Ela é aquele tipo de criança taxada como sem solução, encapetada, que vive correndo esbaforida, que só mexe onde não deve, que adora estripulia. Pode parecer que ela tenha prazer em machucar, desnortear, cheia de intenções maléficas, mas não. A verdade é que ela só acha tudo muito engraçado e se diverte ingenuamente testando tudo ao redor. Por isso dizem que não é bom brincar com a Morte, não é bom se deixar levar pelas súplicas, pelas insistências incansáveis de fedelha mimada, porque ela não tem o menor senso, doidinha, a bichinha. Ela adora brincar com as palavras e sussurrar em ouvidos, adora lugares cheios de movimento e coisas que se deslocam com velocidade, adora novas ideias mirabolantes. Mas, se o tempo voar, ela pode chegar ao dia que se torna mais obediente, mais tranquila, como se cansasse, fazendo a babá uma entidade obsoleta. E quando isso acontece, ela beija carinhosamente tua pele bagunçada feito lençol de cama de noite mal dormida, pela primeira e última vez. E a babá deixa, com uma lágrima de emoção pela raridade da cena, pela sensação de excelência de seu serviço.

O papel da Morte é nos lembrar que tudo pode dar errado de repente. É ela que nos faz querer momentos de felicidade sem fôlego, estar com os amigos em um quarto escuro tocando no íntimo dos sonhos individuais em assunto, mergulhar nas sensações da mixagem sonora de uma faixa tal, encontrar uma parceria pra dividir e consumir juntos pensamentos e corpo, se divertir jogando bola ou peteca e querer se sentir vencendo, vencer, ou talvez ser vencido por um impulso de alma livre. É a Morte que nos lembra de olhar com mais atenção o céu, o voo de uma ave, o cachorro preguiçoso no tapete, uma plantinha mais frenética que as outras pelo vento, as pessoas cada qual na sua maneira, cada qual com seus acessórios, passando… É ela, a Morte, que faz a gente dar um beijo inesperado cheio de lábios na avó, que nos faz usar o nariz pra se preencher inteiro da essência da pele de alguém, que nos faz gostar da dorzinha nos músculos da face de tanto dar gargalhada.

Hoje, eu celebro a vida em toda coisa que tem vida, e tudo que tem vida tem uma Morte e uma babá. Entre nós, humanos, somos 7 bilhões, com 7 bilhões de Mortes e 7 bilhões de babás. Nos influenciamos, nossas babás trocam dicas e nossas Mortes de vez em quando brincam juntas.

Hoje, eu celebro a minha vida, eu celebro a sua, eu celebro a vida dos que conheci e um dia a tiveram na mão, celebro que tenhamos nos conhecido e tenhamos trocado boas energias só sorrindo um para o outro, celebro a vida de quem não conheci também, mas tenha te dado carinho e tenha contribuído pra beleza que tu tens no peito, a beleza que tu trazes pra minha vida, pra vida de quem te rodeia.

Hoje, a celebração é pra existência da Morte, com sua babá, que vive na nossa cola e que é só uma criança danada, mas que nos faz perceber e ater uma sabedoria que só uma criança consegue: o genuíno, o que realmente importa, a sabedoria do desfruto da felicidade no pouco, a transcendência dos segundos, a vida pulsando no vazio.

Só a Morte é capaz de proporcionar isso, então Feliz dia das Mortes. E muito, muito obrigada, babá(s).