Uma Resenha Muito Pessoal, RHCP 07.11 ou Eu Poderia Ter Mentido

Eu acho esse lance todo de idolatria uma besteira. Não é ridículo que se coloque alguém num pedestal por parte ou conjunto de sua obra, respeito é algo merecido. Quando o pedestal vira uma redoma de santidade absoluta, o intocável que se deseja o toque, que falta emanar raios brilhantes da aura e o dito cujo parece é estar executando milagres, por favor. Não é uma questão de esnobismo, ~recalque~, é uma questão de humanidade. E não tem nada de humano, pelo menos dentro do meu conceito do contrário de ser desumano vide bizarro, o que atitudes fanáticas demonstram. A cena final de “Perfume” é a comparação perfeita pra histeria dos apreciadores radicais de qualquer coisa que seja, inclusive da música. Que nem é mais música, recai no “criador” ou “efetuante”. E não é por achar isso tudo uma babaquice sem noção que eu não tenha ídolos. E eu digo que o John Frusciante é um ser iluminado e eu iria pra qualquer lugar do mundo, com uma mão atrás e nenhuma na frente, pra assistir a um show desse cidadão, caso ele decidisse fazer um. Ainda não é a idolatria que eu tento exemplificar. Eu não abriria caminho cotovelando costela alheia pra chegar mais perto, não faria questão de ter um autógrafo, uma foto, um pedaço do cabelo da criatura, não guardaria o copinho no qual bebeu um chá. Eu não tenho memorizado o dia que nasceu, o que come, com quem casou, se tem filhos ou quantidade da prole, se fala uma segunda língua e cor preferida para dias quentes. Muito menos tenho atração física, energia sexual tilintando pelas cavidades, direcionada à pessoa, que nasceu homem, eu, no caso, mulher heterossexual, por manter uma relação de afeto profundo com o que musicalmente produz. Tudo isto sendo dito, eu vou falar, mais uma vez, do meu (outro) amor mais sincero.

Há uns anos atrás me pus aqui a contar sobre como o Red Hot Chili Peppers se fez notado por mim em táticas de perseguição e fez check-in na minha vida num momento quase completamente solitário. Pra chegar ao final do relato e falar de um purê de batatas com manteiga ou margarina. Minha preferência, por familiaridade, o feito com manteiga, leia-se: John Frusciante. A margarina era o Josh Klinghoffer, guitarrista que o substituiu. Àquela altura da vida, eu não conhecia os álbuns solos do John, exceto o Curtains. Muito menos sabia da colaboração do Josh em álbuns dele, ou o A Sphere in the Heart of Silence assinado pelos dois, ou como guitarrista de turnê com o RHCP. Uma pessoa chegou a comentar nesse post sobre a parceria e o trabalho solo do John, ao que confessei: eu tinha medo de baixar. Tinha medo de detestar. Tudo por ter ouvido, nessas lojas de música que você pega o cd, passa naquele leitor, e como era das boas, não te informava só o valor a pagar, mas te deixava ouvir as tracks, um bando de grito sinistramente tristes e confusos. Uma criação caótica e feia que eu não tava preparada nem por um segundo. Num cd do Frusciante. Isso me entristeceu e construiu uma trava. Até um amigo indicar o Curtains. E ainda assim, não havia passado daí. Se fosse vinil, tinha furado. E nada de eu ir atrás dos outros sei lá quantos álbuns disponíveis na pirataria do uso individual. Aí, já aceitando que se eu quisesse ouvir algo do cara teria que futucar a tal carreira solo, deixei de ser besta e baixei logo a discografia. Nem tenho muito o que dizer, uma paixão atrás da outra. Até minha mãe e uma das irmãs resolveram se apaixonar também, virou trilha sonora da casa, né? Ninguém escapou. Cada álbum foi consumido devagarzinho, passava meses em cada, ao ponto de ficar nessa degustação por mais de um ano. Mas nunca, NUNCA, ouvi o Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt na íntegra, e creio eu, nem todas as faixas intercaladas pelo tempo que fosse.

Degustando John, eu descobri o Josh. Sem conhecer porra nenhuma, eu já considerava que não seria uma mudança ruim que haveria na banda, uma questão de confiança ali. Depois de conhecer alguma coisa, eu tive certeza que bom sairia. Eu sabia o que esperar. Então não fui abalada de maneira alguma pela falta do fator frusciantesco no I’m With You. Eu já gostava da margarina e o purê acabou ficando gostoso, mesmo que diferente. Inclusive, o álbum da banda do Josh, Dot Hacker, fez a playlist de dias em sequência. E só a título de eu-quero-dizer, a voz do Josh passou pelo meu ouvido e foi direto pro coração. Voz mais gostosa não há, apenas, talvez, equivalente.

Veio o anúncio do Rock in Rio, comprei. Veio o anúncio do show em São Paulo, adquiri. Fui nos dois. Dois shows em quatro dias. Josh, em início de turnê, um tímido que de repente dava um treco de equilibrista corporal em posições esdrúxulas e por isso muito massa de ver, mas com um som baixo, que era engolido, não correspondendo ao movimento das mãos muitas vezes; Kiedis, como eu já esperava por vídeos recentes, parecendo meio retraído, paradão demais comparado aos tais tempos “áureos” (detesto essa expressão, eu tô com o Iron Maiden que tenta te jogar uma real: don’t waste your time always searching for those wasted years (…) and realise you’re living in the golden years), que fazia a macacada toda pulando de um lado pro outro do palco, mas tudo bem. Ainda conseguiram ser ótimos shows. Afinal de contas, eu esperava aquilo (o fator expectativa conta muito), ainda parecia o RHCP, o Flea é um personagem absurdo, e ele e o Chad são figuras de constância e consistência. E o plus do Mauro Refosco naquela batucada sensacional. Contudo, eu sabia, e sei, que teria sido completamente diferente na formação clássica. Principalmente por ter coincidido com os meses de degustação e paixão avassaladora pela música do John solo.

Dois anos se passaram e novo anúncio de show, inesperado pra mim. Circuito Banco do Brasil, festival, blergh. Mas peraí, em BH e RJ… Não é possível que vão passar por aqui e não vão parar em São Paulo praquele showzinho único. Claro que não. Logo anunciaram o show na Arena Anhembi, e óbvio, enviei os números do cartão.

Fui. Sabendo o que esperar, mais um show que eu ia pular Higher Ground inteira até o orgasmo muscular, mas apenas essa pois agora virou uma tradição individual, fazendo o panocópio no ar. E com aquela esperançazinha, ou melhor, desejo, de um setlist o mais distinto possível do que eu já havia assistido. Ou seja, dentre Higher Ground, Californication, Give It Away, Under the Bridge, Otherside, Can’t Stop, By The Way, Scar Tissue… Outras sem ser aquelas outras das outras vezes. Mas se fosse igualzinho, eu ia gostar do mesmo jeito.

Abertura do Yeah Yeah Yeahs. Som estranho. Não chegava. Poderia ser minha posição ali no meio? Só o que faltava… Vinte e duas horas se aproximava. O DJ dançante de gorrinho que eu não sei bem o que faz no palco com o RHCP ultimamente, talvez seja VJ na verdade? Não sei. Só sei que ele apareceu pelo palco e parecia ser quem tava dando play nas músicas após o Yeah Yeah Yeahs. Uma sequência soul, funk, tenho a ligeira impressão que escolha do Flea, também não me pergunte porquê, e também não chegava bem onde eu tava. Aí… Um trompetinho doido começou a soar. Alto. Chegando. Era aquilo, né? Nego ia entrar no palco ao final daquilo. Exato. Pontuais. Entraram e… tumulto. A galera não se controla. Parece que nunca viram gente de cabelo roxo que toca baixo pra cacete e entra no palco dando estrelinha. Início de show sabe como? Jam. Jam, meu amigo. Lindeza! E Can’t Stop. Empurra-empurra. Pessoas doidas, acho que não queriam prestar atenção no som não. Ficar bolado não era opção, tu tá na chuva não é pra ficar seco. Então tu se deixa levar e ri.

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E agora eu detalho o real motivo de começar a escrever sobre essa parada toda. Depois de Can’t Stop, veio Dani California, Otherside. Todas temperadas com doses da sensação cardume sofrendo histeria coletiva. Factory of Faith. Amenizada. Snow. O clima de luzes e telões mais lindíssimo de tão lindo. Timelapse de céu de corgasmo de pôr ou nascer do sol. Compreende? E aí algo passou pela minha cabeça. Essas coisas da cabeça, que tu pensa sem racionalizar. Que tu não consegue dizer como a mensagem é formada, se por imagens ou palavra ou apenas sensação ou tudo isso junto. Mas que na rapidez e na sede de tornar inteligível o pensamento, tu transforma em mensagem. Não parece simples explicar uma previsão, até porque é dita impossível. Desses símbolos que passaram pela minha cabeça, o que eu consegui tirar foi: I Could Have Lied, choro. Concluí o pensamento com: se tocasse I Could Have Lied eu acho que eu choraria. E eu nunca havia pensado que eu gostaria muito de ouvir essa música ao vivo, como já pensei de Venice Queen ou This Velvet Glove. E o tal pensamento foi embora tão rápido quanto veio. Coisa de trinta segundos depois… Josh começa sozinho uma sequência de notas. Na terceira nota, segurei minha cabeça baixa nas mãos e minha exclamação “caralho!” só não foi audível porque não dava pra ser. Uma sensação inacreditável do absurdo se alastrou por todo o meu corpo, minha cabeça parecia sorrir um riso de benfeitoria, junto com toda a carga emocional de repetir a mesma música por vezes seguidas num som comprado exatamente praquilo, num quarto vazio que não era o meu de verdade, sem qualquer contato com o familiar. Quando eu levantei a cabeça, meu rosto era uma careta de choro.

I Could Have Lied amplificada. Chegando. O cardume num chá de estática. Sem coros de vozes, por uma súbita audição seletiva, efeito bolha, ou por verdade, não ouvi sequer uma voz por perto entoando junto. Exceto a minha, embargada, sussurrada, mas ali, cantando pra mim, como tantas outras vezes e como nenhuma outra vez. And I could never change just what I feel, my face will never show what is not real…

Eu não pretendo, por explicar a minha relação com essa banda e sua música, nisso que é mais uma página de diário pessoal aberto, menosprezar o que significa às gritantes excitadas, aos idólatras come-página-de-fofoca, aos empurreiros eufóricos, aos que não tiveram uma experiência “diferente” no desenvolver de seu afeto, ter sido feita de um jeito comum, pela MTV ou por um álbum compartilhado com amigos. Quem faz esse tipo de comparação de valor por experiência, ou por grandiosidade de seu status de fã, só pode ser, exatamente e na mosca, um babaca. (Eu sempre achei estranhíssimo, aliás, esse conceito de fã, me dizer fã, porque acaba por remeter ao pior perfil de admirador, mas é isso que eu sou, fã, certo?). Provavelmente um dos primeiros três exemplos citados ali ou outros fariam uma comparação juvenil dessas. São bem ridículos, mas não é por isso que o valor dado seja catalogado entre mais ou menos, melhor ou pior, as atitudes é que são uma lástima, mesmo. O pensamento é que é, possivelmente, reduzido, não as sensações musicais. Isso, nunca saberemos.

A minha verdade é que não é por ser uma banda foda que gosto muito e concluo uma preferência ou por ouvir desde criancinha ou algo assim. A minha verdade é que quando eu não tinha nada, eu tinha o Blood Sugar Sex Magik. E eu sou uma completa idiota de escrever isso e chorar de novo, e não de tristeza. Mas eu sou esse tipo de imbecil, exatamente esse. “Nada”, felizmente, consistia apenas em não manter contato algum com ninguém. O vácuo inicial de uma fase de habituação a uma vida longe de casa, de tudo que é familiar. O familiar, o esperado, foram conceitos salpicados ao longo desse texto inteiro. Tudo é mais simples de digerir quando se coloca a expectativa correta (ou a falta dela) ou quando se vê em terreno familiar. Quando não se tem os dois, duas coisas podem acontecer: você é tomado pelo receio, em picos o pânico, a ansiedade, ou… você se encontra, você se liberta. Comigo aconteceu a segunda opção. Em nenhum momento foi dor, o meu “nada”, pode ter sido parto, pode ter sido expurgo, pode ter sido ardido, mas doloroso não foi. E eu não seria quem eu sou hoje se não tivesse, aos 17 anos, vivido isso. E não teria sido a mesma coisa, e talvez fosse extremamente doído e habitado por maus pensamentos, se eu não tivesse a companhia da música. Nesse caso, cds do Red Hot Chili Peppers em um aparelho de som feitos meus na primeira oportunidade de compras, em plena Era das Mp3s e seus players e laptops e afins, e nenhum deles eu tinha a favor da mobilidade e diversidade. Não foi preciso. No replay eu me fiz.

I Could Have Lied, chegando como chegou, pegou uma parcela de mim e jogou no lixo, e trouxe outra e colocou no lugar, a (re)lembrança, a coisa mais importante a se relembrar e se reconectar, quem você é. Redenção. E o setlist seguiu… Cheio de jams, pra minha alegria. Eu poderia ver um show do RHCP só de jams, numa boa. Os momentos de maior nitidez pra se perceber que se tratava de uma banda diferente da que vi nas outras duas vezes. E como aquilo tava lindo! A intimidade era diferente, a sintonia logo muito mais poderosa. Josh nasceu. Anthony voltou a passar felicidade em estar ali, domínio do palco, da comunicação. Flea, Chad e esses outros dois se uniam no centro do palco e dançavam ao improviso, tribal, visceral, religioso. I Like Dirt. Adventures. E If You Have to Ask. Mais uma música daquele setlist do meu processo de libertação do quarto vazio, que eu sei cantar inteira, e cantei, só porque era muito divertido ficar com o encarte na fuça do alto de alguns graus de astigmatismo não detectados por um profissional, mas com certeza já ali, tentando decorar o montante de frases hip-hopísticas do Anthony Kiedis. E fazendo o gritinho agudo “if you have to aaask”, e dançando amalucada entre as quatro paredes. Ah, que setlist perfeito… Higher Ground logo em seguida. E os pulos reservados só pra ela. Com a camiseta que assisti os outros shows rodando no ar, que eu tive que parar de rodar por motivos de bater na cara das pessoas ao redor, mas tudo bem. Parei de pular quando atingi o tal orgasmo muscular, voltei a pular, e só parei de novo pela famosa dor de viado, de desviado, ou desviada, aquela na costela, que se tem quando se é guri afoito do corre-corre e eu não tinha há anos e anos. Nunca gostei tanto dessa dorzinha. Foi cômico.

Começaram Dosed e não dava pra acreditar de novo. E só começaram, só uma brincadeirinha. Emendaram Under the Bridge. Ethiopia. Californication e By the way, como esperado. Quase o fim. O intervalo pré-bis. Retorno com Chad e Mauro, um solo de cuíca, a brasileirada logo acende. O resto da banda reaparece, Flea andando ao contrário, isso quer dizer, de cabeça pra baixo, de bananeira, pela extensão toda do palco. É um doido maravilhoso. Um salve caloroso ao Mauro, brasileiro, percussionista da Forro in the Dark, também membro da Atoms for Peace, que gravou quase todas as faixas nesse último álbum e se juntou ao grupo pra essa turnê. Eu esperava só Give it Away, que sempre fecha os shows, e um Scar Tissuezinho, Monarchy of Roses ou Did I Let You Know? Around the World. AAAAAAAAAAAA. E depois ainda Meet me at the Corner, das mais lindonas do I’m With You, com aquela partezinha cantada sozinha pela voz mais delícia. E aí sim. “Let’s dance one more time…”. Give it Away.

Além das minhas expectativas. O desejo de setlist o mais distinto do que já havia assistido atendido. Me refamiliarizou com ideias reconfortantes de ser e sentir. Foi lindo. Obrigada.

Uma vez disse, e repito: a energia convertida em som entregue por esse grupo é meu porto-seguro. É o que segura a minha mão e me entrega a mim mesma. O meu porto-seguro se transforma em mim. Eu sou eu.

7 Meses e Algumas Horas de Paixão

Não faz nem 1 ano que eu me apaixonei pelo Avenged Sevenfold, são exatos sete meses e algumas horas. Foi como qualquer outra paixão de primeira, assustador e surpreendente. E não vejo como ou porquê ser apaixonado por algo por mais ou menos tempo muda alguma coisa, principalmente quando o assunto é música. Sentir um som que te percorre as mais labirínticas entranhas é avassalador, te encontra, fala por ti e te modifica de alguma forma, não tem como apagar nem diminuir, e só um cérebro pouco desenvolvido pra ter rancor dos criadores e menosprezar o que antes foi feito no número perfeito pra tua alma vestir por terem mudado algo no som.

Falo isso por ver tanta gente revoltada com a mudança do som dos caras, revoltados ao ponto de serem “A7X for life” e de repente “A7X agora é baladinha de merda”, o que não é o mesmo do simples “preferir antes”. Não vou me estender, não tem muito o que comentar sobre isso, só acho babaca ser fã alucinado de uma coisa e de repente defecar em cima. Ainda mais relacionado a algo que não perdeu a sua essência. Não compreendo o amor desligado da admiração pela essência.

A música do Avenged Sevenfold representa tão bem a minha necessidade de externar a minha agressividade mesclada com uma beleza sonora tão impactante, que nem sei dizer, é simplesmente minha tempestade junto com minha calmaria. É forte e grande assim.

Pra melhorar tudo, a banda tem um carisma de acessibilidade e transparência tão expressivo por como se comunicam com o público através de atualizações em vídeos e texto, que não tem como não se identificar e não vê-los como só um grupo de amigos fazendo um som porque gostam daquilo. Nada mais humano, próximo e real.  O que se potencializou com a morte do The Rev e a conduta da banda ao lidar com isso. Mesmo no palco, não se vê nada teatral como um Gene Simmons demoníaco ou um Angus Young duck-walking-lips-deforming, não existe um elemento superior de icone nos integrantes, não existe algo absurdamente característico a não ser pra quem goste e perceba, até porque eles não são necessariamente elétricos, extravagantes ou excêntricos assim. Avenged Sevenfold pra mim é algo tão carne e osso e ao mesmo tempo tão lindo que se faz uma mistura engraçada.

Pra mim, o Avenged Sevenfold é um dos exemplos atuais que o rock e o heavy metal não estão enterrados e fadados ao esquecimento, e quem quiser me falar que não haverá outro AC/DC, outro Led Zeppelin ou outro Metallica etc etc,  hold! Eu tenho algo a dizer em um futuro post. Por enquanto, fiquem com um pouquinho de Avenged Sevenfold:

Chili Peppers e saída do Frusciante

Algumas pessoas não entendem o que é reverenciar uma banda. Reverência, s.f. Respeito profundo, acatamento, consideração. Reverência de veneração. Reverência de saudação respeitosa mesmo, de abaixar a cabeça, de reconhecer a grandeza daquilo. E reverência de agradecimento, agradecimento sincero por todos os momentos e sensações que aquele grupinho de pessoas o fez ter. Poucas pessoas entendem, sim.

Todo mundo tem uma banda que curte, que considera as músicas lindas, que acha aquele troço todo um negócio excelente. Ok, o que estou tentando dizer vai além.

Quando eu me apaixonei pelo Red Hot Chili Peppers foi uma experiência incrível. Arrisco dizer, sem ver risco algum, que é a melhor história de amor que alguém pode ter. Contarei…

Fazia intercâmbio na Inglaterra na época, mas estava em Freiburg na Alemanha a convite de um colega que virou um amigo. Isso já pagaria a viagem inteira de certo. Porém, uma sequência de perseguições me trouxe o que eu chamo e faço de porto seguro. Foi entrar no primeiro pub e tomar uma weizenbier que começou a tocar uma música dos Chili Peppers. Comentamos sobre a banda rapidamente, talvez até pra se ter mais papo e quebração de gelo mesmo ou foi simplesmente natural e aquela coisa de destino pararmos para falar a respeito. Seguiu-se assim:

Leandro: Essa música é do Red Hot, né?
Laila: Nem sei, acho que é.
Le: É… É deles sim.
La: O californication foi grande parte da minha pré-adolescência, desde então nunca mais escutei.
Le: O californication é um ótimo cd… Excelente.
La: Apesar de não conhecer tanta coisa assim, taí uma banda que eu acho legal, porque eles tem uma presença foda, única.
Le: Verdade. E não existem bandas parecidas.
La: É… Realmente, não existe.

De uma outra vez, em outro bar, afinal de contas eu estava na Alemanha (não que meu programa não seja simplesmente esse em qualquer lugar do mundo), tocou Red Hot Chili Peppers de novo, outra música. Certo dia acordo e ligo a tv na MTV alemã e lá está, clipe deles num programa que passava um kit de quatro videoclipes da mesma banda em sequência, peguei no primeiro. Resolvi ir ver se era capaz de se comer um filé decente em terras germânicas, e quando quase regurgitava rodeada de alemães lambendo os beiços com um bife duro e insípido, toca uma música dos Chili Peppers no restaurante. “Red Hot Chili Peppers DE NOVO!”, e ninguém entendeu, é claro, além do fato de eu ter exclamado de surpresa em português. Comecei a achar aquilo tudo muito engraçado.

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