Desabilidades Sociais

Um grupo de conhecidos é avistado, a campainha do cumprimento sinaliza o momento. Você se aproxima e emociona a Educação. Vai lá dar dois beijinhos na moça conhecida e… taca a cara contra a dela. Dá-lhe um soco de zigomático. Uma amostra grátis de solidez da mandíbula. Quando você não é bochechudo o suficiente pra amortecer, dói, dói porque eu sei o que é ter um queixo acima da linha de grandeza da normalidade e o que é enfiá-lo na cara dos outros sem querer. Dói. É desconfortável. A pessoa fica surpresa, não dá pra entender o porquê de tanta violência e depois ela fica lá com a mão no rosto como um impulso de esconder o foco de dor, mas assim só o que consegue mesmo é expressá-la e te fazer sentir um lixo de coordenação. Uma sensação maravilhosa de sociabilidade é latente, tamanho o talento observado. Compete com a traição do sistema de drenagem natural de baba na boca, ou então da agressividade dos movimentos bucais, quando você está em plena oratória. O cuspe que escapole num jato e marca a fuça do interlocutor. Você pode até fingir que não percebeu, mas todo mundo sabe que você sabe que cuspiu, e que foi sem querer, mas cuspiu, e atingiu a pessoa desafortunada em estar falando com você. Quem foi cuspido sabe, e sabe muito bem que tem saliva alheia na bochecha, no nariz, e quem sabe até no meio da língua, atrás de um dente e coisa assim. Uma saliva alheia que não foi dada a licença para entrar em contato com o seu ser, ela não deveria estar ali, é uma intrusa. Eu acho é bonitinho a pessoa cuspida que entra na onda de fingir que nada aconteceu pra não deixar desconfortável o cuspidor e disfarça pra limpar a baba. Tem aqueles que inclusive tomam um tempo com a baba lá na cara, tudo para não causar um constrangimento (e também, quem sabe, para não assinar embaixo do “sim, me cuspiram”), e só depois tomam a atitude de se limpar. Muito ótimo para o convívio humano essa doação de si. Mas existem coisas assustadoras.

Quando se está de costas, caminhando, tudo é um imprevisto exceto o que se tem no campo de visão e o destino do trajeto. A vida é assim, feita de auxílio da visão periférica para se reagir, mas quando você está de costas… complica. E aí tu é freado, teu sapato dá uma enlouquecida no pé, teu calcanhar sente ar livre, se for chinelo arrebenta, o susto vem batizado de tontura, o mundo não é mais o mesmo e tu percebe que alguém pisou na parte detrás do teu calçado. Meu amigo, por que tão próximo de mim? Tu queria me cheirar? Como tanta falta de noção de espaço, pressa ou  lerdeza é capaz de ser comportada em um só indivíduo? Tu embananou o caminho alheio pra nada, uma pessoa que saiu de casa só pra comprar o pão pro café da avó e acabou por se esborrachar no chão porque um pé inventou de tentar invadir o sapato de outro. Situação social mais desconfortável sem trocas verbais (a corporal já na ação em si completamente repentina) é difícil encontrar pior por aí.

O nome disso tudo é destrambelho. A pessoa que gesticula tanto que acaba por estaponar quem vem passando, o tropeçante que não satisfeito em perder o equilíbrio se segura em qualquer coisa em seu raio alcançável de deslocamento débil á vitória da gravidade, a toalha da mesa, as caixas de chocolate da prateleira da conveniência, outras pessoas, que com certeza saíram de casa só pra comprar o pão do café da avó… Eu botaria fé se isso impedisse um ladrão a segundos de cometer o delito, mas as peças do mundo não tem a tendência de terem um motivo quando agem sem aviso prévio. O significado não existe para tudo, até porque significado é uma coisa que se inventa, não existe de verdade. O que acaba existindo é alguém com a ideia de compilar cenas das pessoas sendo estúpidas a esse ponto pra fazer os outros rirem da imbecilidade da própria raça. Um joinha para vocês, pioneiros do entretenimento das cassetadas.

Perante algumas cenas do desastre humano boboca, alguns se preocupam com o próximo, chega ao alarme do “perigo de morte”. O destrambelhado manuseando artefatos arriscados, líquidos nocivos, máquinas complexas, não se espera coisa boa, e às vezes nem é para tanto, um garfo sempre pode espetar um olho se a mão que o segura faz parte de uma pessoa que já teve boas dicas da vida de manter distância de objetos pontiagudos. E ainda, uma pessoa altamente dotada de coordenação está vulnerável a ter uma mão que em dado momento adere a um triste movimento, e se o olho se abre no segundo coincidente, se a cara muda de lugar por dois centímetros… Olho murcho. Infecção. Cegueira.

O perigo do destrambelhado solto aí no mundo, que pelo mesmo motivo da queixada na cara para dar um “oi” tende a fazer parte das estatísticas de quem derruba sem querer um portão com o carro (nem tô me usando de exemplo), está esclarecido. Falta de coordenação consegue formar desajustados sociais, e mais: o famoso “erro humano” muitas vezes não passa disso.

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Lundiwrans, o Exorcista do Pânico de Dirigir

Baseado em fatos reais.

Do alto de uma quantidade indecente de prêmios, um instrutor de direção psicoterapeuta fora contratado para lidar com meu levemente acentuado pânico de conduzir automóveis que ignoravam minhas súplicas de andarem direito, claustrofobia de trânsito e pavor de buzinas estressadas. Ideia do meu tio, Pingo, apelido carinhoso concedido por uma velhaca que dava-lhe banhos quando pequerrucho. “Não” era uma resposta equivalente a ter toda minha integridade misturada a um saco de estrume, que consequentemente seria tachado de “contaminado” pelo INMETRO e descartado. Então escolhi aceitar.

A propaganda de Tio Pingo era: 100% de eficácia. Dr. Lundiwrans, o exorcista do pânico de dirigir. De descendência sueco-suíça, graduação harvardiana, escolheu acomodar todo seu brilhantismo em uma cidade do nordeste brasileiro, viver uma vida humilde como dono de uma auto-escola cujo e-mail de contato é do saudoso Bol. Deve ser um daqueles homens de olhos tão azuis que parece cego, e quando conseguir um contato visual me hipnotizará no segundo segundo, pensei.

Fui para minha primeira prática, de cinco das prometidas para exorcizar o diabo da denominada #trafficanxietyattack nos tópicos tendência de uma sociedade cada vez mais à beira de um ataque de nervos, e conheci Lundiwrans. De olhos mais cansados que um jegue, menos azuis que uma barata, corpo esguio de maratonista, feição mais brasileira que um retirante de Portinari. Se o ceticismo já me acompanhava, resolveu me dar a mão. Cordial, Lundiwrans me deu um “Olá, vou apenas falar com seu tio e poderemos começar”. O sotaque nordestino esgueirando-se pelos dentes. Se o ceticismo havia agarrado minha mão, agora me abraçava intrigantemente quase libidinoso.

Ao longe, o observei falar com Tio Pingo, entre sussurros, sobrancelhas arqueadas ali e acolá, bochechas tensas, olhadelas nervosas em minha direção. O cheiro de conspiração infestou minhas narinas. Sorriram amarelo, apertaram as mãos, Lundiwrans voltou-se a caminho do carro, Tio Pingo acenou motivacional e eu fingi burrice. Tinha ciência do risco que minha ansiedade crônica estava correndo, mas antes ela do que eu. Sentei no banco do passageiro e me propus a ver até onde iria aquela farsa.

Em área segura, Lundiwrans pediu para que trocássemos de lugar e começou a falar:

– Vamos primeiro conversar um pouco a respeito disso que você tem. Pânico, né?

– É… O carro me controla mais do que eu ele. Em situação de nervosismo tiro os pés dos pedais, levanto as mãos para os céus, fecho os olhos e rezo pro primeiro santo que me vier à cabeça – fiz questão de amedrontá-lo.

– Hehehe – soltou um risinho nervoso – Só quero lhe pedir uma coisa: mantenha a calma. Senão ficará um pouco complicado para procedermos.

“Mantenha a calma. Senão ficará um pouco complicado para procedermos”. Exatamente o pedido e a observação que uma pessoa com pânico de dirigir precisava ouvir… Surtei. Dentro da minha cabeça faróis estrobóticos relampeavam, todos os carros se agigantavam monstruosamente e gritavam com suas buzinas, pneus cantavam freando alucinados, palavrões cabeludos cortavam o ar, pow póf crash!

Era um charlatão.

Merecendo um Oscar, mantive-me sem expressão ouvindo.

– A gente vamos com calma…

A gente vamos? Em meio aos estilhaços de vidro, no meu palquinho mental surgiu um “HA HA”.

– A gente vamos começar devagar. Saia com o carro.

“A gente vamos começar devagar. Saia com o carro”. Ao “HA HA” se uniram mais dois, “HA HA HA HA”. Era uma piada… “Pessoa com pânico, mantenha a calma, a gente vamos começar devagar, saia com o carro”. O que eu podia fazer além de iniciar o carango e botar o bicho pra frente? Tava todo pintado de auto-escola mesmo… Imbecil aquele que achasse que estava lidando com uma pessoa alfabetizada na direção. Fui. Continuar lendo

Aos McDonaldzeiros Xiitas

Alô você, que tem seu hamburqui preferido do McDonald’s. Fãs do Quarteirão são fieis no prazer, fãs do Cheddar são xiitas. Você que se familiariza no causo, venha comigo.

Estou lhe levando para aquela situação onde você é empurrado na parede com novidades mcdonaldais. Sanduíches da copa, sanduíches do Shrek, sanduíches das olímpiadas, sanduíches do Ursinho Pooh, da Vovó Mafalda, da Bruxa Onilda, que seja. Lá estão eles, deliciosamente SE QUERENDO bem na sua cara, fotografados em seu melhor ângulo, agigantados no banner no número da sua fome. Pra piorar a situação, a tal novidade é o bambambam daqueles papos de obeso que você tem com seus amigos. Todo mundo já experimentou, menos você.

E aí? Você até protelou o tal dia de experimentar a deliçoca, se mantendo radical na fidelidade ao seu Cheddinha. Mas está na hora de se deixar provar novos horizontes. E lá vai você, está chegando sua vez de pedir, você balança a cabeça para afujentar a dúvida eterna e deixa sua língua funcionar sozinha, e você diz: me vê a promoção do “Super Pooh Onilda Grill”. E está feito. There’s no turning back, mafriend.

Você se dirige a uma mesa com sua bandeja ornamentada por uma caixinha diferente, jamais vista antes, principalmente na SUA bandeja. Já sentado, você revela o conteúdo da caixa, arranca e passa pra segunda nas papilas gustativas comendo umas batatinhas, só pra esquentar, e finalmente pega o tal sanduíche e morde. Mastiga. Mastiga. Mastiga. Engole. E toda aquela aura que você temia vai caindo sobre você. E você morde de novo, e mastiga, mastiga, mastiga, sente, tenta o desfruto, engole. E é isso.

Das cinco etapas do luto, você passa pelas três primeiras rapidamente, nessas duas mordidas. Choque, negação, raiva. E aí vem a depressão… Cadê o seu Cheddar? O seu adorado Cheddar? Por que você virou as costas pra ele dessa forma? Como você foi capaz de traí-lo assim? Como você fere a si próprio com tais requintes de crueldade?

Aí você levanta o cenho e observa pessoas felizes ao seu redor, rostos muito felizes, como quem está no paraíso e recebe beijos doces de anjos, e percebe o que todos tem em mãos. É claro, Cheddar para todos os lados. E a cada pedaço que tiram do sanduíche é um soco na sua cara burra. Como você é estúpido. E você volta ao terceiro estágio, a raiva. E morde o seu Big Pooh Whatevs estraçalhando-o. E o mastiga quase chorando. E fica nessa de ir e vir da raiva à depressão, como quem dança dois passinhos pra trás, dois passinhos pra frente.

E nunca, nunca você chega na quinta fase do luto: a aceitação. É impossível aceitar que você trocou o seu maravilhoso, idolatrado, suculento, cremosinho Cheddar, por aquela porcaria de novidade que só presta pra badalar o display e nada mais.

Você promete a si mesmo que nunca mais irá se deixar levar pela propaganda implícita e superestimada do “experimentar o novo”, e que não ligará se te chamarem de irredutível, radical e com paladar restrito. Passa o resto da noite sentindo que não se alimentou, e enche a cara como se fosse preencher seu vazio Cheddariano. E espera, do fundo do peito, que o McDonald’s não invente nenhuma coisa nova por muito tempo, porque você não tem total certeza se conseguirá cumprir o prometido. Até porque, ano de copa já te faz desperdiçar muitas oportunidades de se Cheddeliciar, e uma vez a cada quatro anos já é demais.

Eu sei que você me quer.

Curiosidades: O Cheddar McMelt é um sanduíche DO BRASIL, só tem no menu brasileiro do McDonald’s. E agora virou motivo de orgulho da nação para você que me lê, eu sei. Mais informações sobre os produtos especiais de cada país é só clicar aqui. Outro link, com fotos (o que é uma boa né galerosa Wikipedia), clique aqui, e se prepare pra nem acreditar.

ps: Ah, ficou todo fomentado? Imagine eu.

Tutorial para mensagens encriptadas sobre seus sentimentos

Tutorial de como fazer alguém receber uma mensagem encriptada sobre como você é segura(o) e está muito bem obrigada(o) ou está abalada(o) sem parecer desesperada(o) ou qualquer outro sentimento em busca de expressão misteriosa em prol da segurança das diversas interpretações cabíveis.

Se você brigou com o seu ficandinho a.k.a. ex-futuro-esposo-que-você-conheceu-sábado-passado, quer arrancar o olho daquela vagabunda que olhou pro seu bofe, acha justo dar um troco aos comentários maldosos que rolam de você por aí, entre outros exemplos como traição múltipla por suas amigas terem te deixado sozinha na noite passada ou esclarecer que você esqueceu foi num segundo aquele cara a quem dizia “eu te amo” por um belo dum tempo, aqui está sua salvação para ser ouvida sem precisar sujar as mãos:

  1. Entre no seu Orkut, Messenger, Facebook, Twitter ou uoreva, e coloque uma mensagem misteriosa e imparcial como: “Não acredito em vingança, a vida dá o troco”; “Antes de me criticar, tente me superar”; “A pior traição é a indiferença”; “A liberdade é linda”; ou quem sabe um “O que é meu está protegido pelas barbas de Merlin em uma trança de pentagramas” caso queira uma investida no medo por seu lado bruxo.
  2. A mensagem pode e deve ser reforçada por você no Orkut. Entre em comunidades que denotam indiferença emocional, a triste beleza da solidão, ódio às vagabundas, o livre-arbítrio e que você nada deve a ninguém, reafirmação do seu caráter e personalidade únicos (apesar da comunidade ter alguns milhares de membros). É claro que você escolherá cada opção de acordo com o momento pelo que está a passar.
  3. Não custa nada também colocar fotos no seu álbum que expressam o mesmo conceito. Por exemplo, se você é um cara que sentiu a masculinidade extinguir por terem terminado contigo, dê um upload de fotos com companhias femininas em festas e bebedeiras, mais interessante ainda se não forem amigas reconhecidas suas, mais ainda se forem aquelas que sua namorada tinha certeza que eram afim de você. Se caso você for uma pessoa abalada porque ninguém te ama e ninguém te quer, abuse de fotos de pedaços da sua cara com legendas intimistas, uma dica é usar frases de autores conhecidos e louvados, ou trechos de música, mas não se esqueça de só usar o que está em voga. Esse toque cai bem em qualquer outro espaço que se possa deixar visível uma mensagem.

E PRONTO! Sua mensagem encriptada está feita. Não espere uma reação em todos os casos, mas garanto-lhe que elas serão entregues, caso você seja de algum interesse, mesmo que cômico, para alguém.

E esse foi o Arrilias e Revoltas II, só pra constar.

Foto não meramente ilustrativa

Beijos pra quem é gente boa.

ps: O Orkut dá pau pra buscas com resultados (quase) infinitos e demonstra isso sempre com um mero of over 1000.

Gozando das gozadas I

Vocalista do Gorillaz pode ser processado por fumar no palco

Assim como a Lei Antifumo em vigor em algumas capitais brasileiras, no Reino Unido é proibido o consumo de tabaco em ambientes fechados à exceção de espetáculos onde o fumo seja considerado essencial para a integridade da obra.

Realmente, esse cara é um grande sacana. Abuso de poder! Só porque tava em cima do palco quis matar o público de fissura sem poder fumar um cigarrinho! Que grande tirador de onda… As pessoas pegam uma corda louca. De tudo!

(…)à exceção de espetáculos onde o fumo seja considerado essencial para a integridade da obra.

Ora, mas quem conhece o espetáculo da cerveja do final de semana e é fumante há de convir comigo que um cigarrinho para acompanhá-la é essencial para a integridade da obra. Mas não to vendo ninguém respeitar essa arte… Não tem um lugarzinho especial para nós artistas do tabaco, nosso lugar é na sarjeta. Licença poética na bebedeira já, poxa! Que incompreendidos somos.

E se fã de Cazuza fosse, diria: “faz parte do meu show…” Mas como não sou, não vou dizer mais nada.

Apenas: Um cigarro fumado do palco vai matar todo mundo e vai incentivar uma rebelião dos fumantes! Somos todos uns animais viciados! Que coisa gozada…