Uma Criança Danada

Dói, dilacera, troca os órgãos de lugar, o coração vira intestino. Inacreditável, completamente inacreditável o que um segundo tem a capacidade de fazer: vida, um segundo, morte.

É sempre vista como uma visita que se delicia com a crueldade do de repente ou com o requinte do sadismo vagaroso. Mas ela não é uma visita. Ela nunca é uma visita. Tá ali deitada na minha cama lendo uma revistinha da turma da Mônica e gargalhando, tá sentada aí à tua esquerda no chão rodando um cubo de Rubrik, tá dentro do carro com o cinto bem apertado no banco de trás, tá “de macaquinho” nas costas da tua mãe enquanto ela cozinha cantarolando, tá cutucando teu ombro ou costelas de maneira irritante em diversos momentos do ano. E cada um tem a sua Morte, entende?

Ela é uma das duas presenças permanentes nas nossas vidas, e ela vive brincando, e brinca pesado. Pra isso que se tem a babá da Morte, a outra presença permanente. E a babá trabalha, trabalha duro, e muito pouco se dá os créditos e valor pro tanto que ela tem que aturar dessa criança danada, e olha, é coisa que nem no circo se vê de tanta habilidade, e coisa que a nossa psicologia não explica. A única coisa que se sabe é que essa criança passa dos limites na traquinagem inescrupulosa. Não culpe a babá, eu já disse: a Morte brinca pesado, PESADO. Ela é aquele tipo de criança taxada como sem solução, encapetada, que vive correndo esbaforida, que só mexe onde não deve, que adora estripulia. Pode parecer que ela tenha prazer em machucar, desnortear, cheia de intenções maléficas, mas não. A verdade é que ela só acha tudo muito engraçado e se diverte ingenuamente testando tudo ao redor. Por isso dizem que não é bom brincar com a Morte, não é bom se deixar levar pelas súplicas, pelas insistências incansáveis de fedelha mimada, porque ela não tem o menor senso, doidinha, a bichinha. Ela adora brincar com as palavras e sussurrar em ouvidos, adora lugares cheios de movimento e coisas que se deslocam com velocidade, adora novas ideias mirabolantes. Mas, se o tempo voar, ela pode chegar ao dia que se torna mais obediente, mais tranquila, como se cansasse, fazendo a babá uma entidade obsoleta. E quando isso acontece, ela beija carinhosamente tua pele bagunçada feito lençol de cama de noite mal dormida, pela primeira e última vez. E a babá deixa, com uma lágrima de emoção pela raridade da cena, pela sensação de excelência de seu serviço.

O papel da Morte é nos lembrar que tudo pode dar errado de repente. É ela que nos faz querer momentos de felicidade sem fôlego, estar com os amigos em um quarto escuro tocando no íntimo dos sonhos individuais em assunto, mergulhar nas sensações da mixagem sonora de uma faixa tal, encontrar uma parceria pra dividir e consumir juntos pensamentos e corpo, se divertir jogando bola ou peteca e querer se sentir vencendo, vencer, ou talvez ser vencido por um impulso de alma livre. É a Morte que nos lembra de olhar com mais atenção o céu, o voo de uma ave, o cachorro preguiçoso no tapete, uma plantinha mais frenética que as outras pelo vento, as pessoas cada qual na sua maneira, cada qual com seus acessórios, passando… É ela, a Morte, que faz a gente dar um beijo inesperado cheio de lábios na avó, que nos faz usar o nariz pra se preencher inteiro da essência da pele de alguém, que nos faz gostar da dorzinha nos músculos da face de tanto dar gargalhada.

Hoje, eu celebro a vida em toda coisa que tem vida, e tudo que tem vida tem uma Morte e uma babá. Entre nós, humanos, somos 7 bilhões, com 7 bilhões de Mortes e 7 bilhões de babás. Nos influenciamos, nossas babás trocam dicas e nossas Mortes de vez em quando brincam juntas.

Hoje, eu celebro a minha vida, eu celebro a sua, eu celebro a vida dos que conheci e um dia a tiveram na mão, celebro que tenhamos nos conhecido e tenhamos trocado boas energias só sorrindo um para o outro, celebro a vida de quem não conheci também, mas tenha te dado carinho e tenha contribuído pra beleza que tu tens no peito, a beleza que tu trazes pra minha vida, pra vida de quem te rodeia.

Hoje, a celebração é pra existência da Morte, com sua babá, que vive na nossa cola e que é só uma criança danada, mas que nos faz perceber e ater uma sabedoria que só uma criança consegue: o genuíno, o que realmente importa, a sabedoria do desfruto da felicidade no pouco, a transcendência dos segundos, a vida pulsando no vazio.

Só a Morte é capaz de proporcionar isso, então Feliz dia das Mortes. E muito, muito obrigada, babá(s).


 

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Chili Peppers e saída do Frusciante

Algumas pessoas não entendem o que é reverenciar uma banda. Reverência, s.f. Respeito profundo, acatamento, consideração. Reverência de veneração. Reverência de saudação respeitosa mesmo, de abaixar a cabeça, de reconhecer a grandeza daquilo. E reverência de agradecimento, agradecimento sincero por todos os momentos e sensações que aquele grupinho de pessoas o fez ter. Poucas pessoas entendem, sim.

Todo mundo tem uma banda que curte, que considera as músicas lindas, que acha aquele troço todo um negócio excelente. Ok, o que estou tentando dizer vai além.

Quando eu me apaixonei pelo Red Hot Chili Peppers foi uma experiência incrível. Arrisco dizer, sem ver risco algum, que é a melhor história de amor que alguém pode ter. Contarei…

Fazia intercâmbio na Inglaterra na época, mas estava em Freiburg na Alemanha a convite de um colega que virou um amigo. Isso já pagaria a viagem inteira de certo. Porém, uma sequência de perseguições me trouxe o que eu chamo e faço de porto seguro. Foi entrar no primeiro pub e tomar uma weizenbier que começou a tocar uma música dos Chili Peppers. Comentamos sobre a banda rapidamente, talvez até pra se ter mais papo e quebração de gelo mesmo ou foi simplesmente natural e aquela coisa de destino pararmos para falar a respeito. Seguiu-se assim:

Leandro: Essa música é do Red Hot, né?
Laila: Nem sei, acho que é.
Le: É… É deles sim.
La: O californication foi grande parte da minha pré-adolescência, desde então nunca mais escutei.
Le: O californication é um ótimo cd… Excelente.
La: Apesar de não conhecer tanta coisa assim, taí uma banda que eu acho legal, porque eles tem uma presença foda, única.
Le: Verdade. E não existem bandas parecidas.
La: É… Realmente, não existe.

De uma outra vez, em outro bar, afinal de contas eu estava na Alemanha (não que meu programa não seja simplesmente esse em qualquer lugar do mundo), tocou Red Hot Chili Peppers de novo, outra música. Certo dia acordo e ligo a tv na MTV alemã e lá está, clipe deles num programa que passava um kit de quatro videoclipes da mesma banda em sequência, peguei no primeiro. Resolvi ir ver se era capaz de se comer um filé decente em terras germânicas, e quando quase regurgitava rodeada de alemães lambendo os beiços com um bife duro e insípido, toca uma música dos Chili Peppers no restaurante. “Red Hot Chili Peppers DE NOVO!”, e ninguém entendeu, é claro, além do fato de eu ter exclamado de surpresa em português. Comecei a achar aquilo tudo muito engraçado.

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Foi ela

Desde pequena eu sempre fui tratada como igual. Não consigo lembrar de nenhuma vez que minha mãe se virou e disse que eu não entendia nada porque era muito nova ou muito imatura. Não consigo lembrar de nenhuma vez que ela deu as costas ou virou o rosto quando eu tinha algo pra dizer. Pelo contrário, minhas lembranças são claras de mim, pequenininha, discutindo sobre filmes que tínhamos acabado de assistir, comentando dos paradidáticos que eu tinha que ler, conversando sobre coisas da vida. A análise e o pensar, além de genética, veio de exercício, porque eu nunca fui considerada uma criança que não entendia de nada. Eu sempre tive ela pra me ouvir.

Apesar disso, eu pude ser criança. Até porque ela o é até hoje, completando 52 anos. Se minha infância foi,  e minha vida é, cheia de mágica e sonhos, foi ela quem inseriu. Se quero que o espírito jovem em mim perdure até o fim da vida, é porque minha influência é ela. Se a beleza da simplicidade das coisas me toca, não foi outra pessoa que me ensinou isso se não ela.

Fazer o seu melhor, mesmo que o mundo não o faça, foi um princípio que eu roubei dela. Compreender que cada um tem seu jeito e o respeito é essencial, foi o que eu vi ela fazendo e defendendo, por isso faço e defendo a mesma ideia. Sobre mentira, vingança ou falsidade? Nunca precisei levar nenhum sermão, só sei que a responsável por isso é ela.

Se eu sou rebelde por pensar diferente e defender meus pontos de vista, mais uma vez: culpa dela. Se eu sempre deixei minha imaginação e criatividade aflorar, se eu sempre preferi as artes às exatas, se eu sempre quis ter a minha liberdade de expressão, se eu sou apaixonada pela expressão em todas suas formas, é tudo, tudo, tudo culpa dela.

Minha ligação imortal com a música? Foi ela. Minha sensibilidade para os detalhes? Foi ela. Minha teimosia em argumentar? Foi ela.

A culpa é dela, toda dela, por ter me deixado livre pra simplesmente ser.

“É sempre culpa da mãe!”. No meu caso é mesmo, e eu agradeço por isso.

Mamãe já polemizando de anjo com cara de capeta.