Fui ao cinema e saiu isso

Eu nunca vou ao cinema. E recentemente, o desejo, a oportunidade e um bando de malucos me conheceram como roteirista. E eu nunca vou ao cinema. Não tô por dentro de nada, exceto quando me vejo dentro, e não me alimento de cinema exceto do que faz Cinema: basicamente a vida, oras. Pieguice à parte, adiciono: a vontade de contar uma história, ouvir uma narração em cada quina de mundo e o processo de expelir e lapidar uma ideia. De resto, eu tô longe de ser aquela conhecida que se pensa ˜vai saber dizer” quando o assunto é cinema.  Para respostas na ponta da língua, consulte o Dave, por exemplo. Cinefilia (das que forma o expert) não é um dos males que me afligem, sou só aficionada por ideias, tendência crônica a me ver sendo consumida por elas, a quando eu dou por mim… tô em cima da árvore do que só consigo lembrar, se consigo, da semente. Não sei a espécie dessas árvores, devem ser pé de cabeça inquieta.

Nunca ir não quer dizer que eu não vá. Fui ao cinema assistir Django, e contumaz: fui sem saber nada do filme. Gosto de assistir filmes com o mínimo de conhecimento da história possível, o máximo da falta de influência na visão. Fui sem saber de nada, exceto ser Tarantino e os comentários inevitáveis, e deles só tirei que ir era bom investimento, talvez até melhor do que realmente foi, mas não vou desviar. Fui. Ri. Me deliciei com o charme da construção de personagem de Tarantino mais uma vez, entregue magistralmente por Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio. Ri. Ria o tempo todo. Pensei “Samuel L. Jackson, seu puto maravilhoso!”. Previ a próxima cena corretamente, uma brincadeira adquirida por ter nascido filha do meu pai. E estrelei o momento gargalhada solo na sala de cinema. Spoiler. Na cena após a da piroca de Jamie (se eu já vi a piroca posso chamar só pelo primeiro nome, ou não?) a ser… recortada. Quando se corta fora o pênis dum negão é rara a sobrevivência? Como eu não ia rir disso?! Mas também não vou desviar à defesa do meu momento aparentemente retardado. Ou as pessoas não pensaram o mesmo que eu ou não viram a menor graça do senso comum negão-precisa-de-muito-sangue nas partes. Além de supor que os homens do recinto devem ter ficado extremamente solidários e sentido mais compaixão por Django do que por uma criancinha inane e esquálida, e as mulheres podem ter sentido muita pena “daquilo” ser extinguido. E eu disse que não ia desviar. Mas enfim, assisti. E quando um filme acaba no cinema…

As pessoas se levantam. Claramente. Com exceção dos que preferem esperar para caminhar porta afora sem aglomerações, não tão com nem um pingo de vontade de urinar (ou outra opção) ou quem quer assistir aquela cena depois dos créditos que leram no Omelete que dá um gostinho da sequência que aparece só 1/6 do escudo do Capitão América atrás da cabeça de um figurante e que faz qualquer alma fanática sair revigorado e falar mais dessa ceninha no bar do que do filme que acabou de assistir. Pausa para respirar. Mas esse não era o caso. O caso mesmo foi um senhor bem atrás de mim que se levantou bradando inconformado “As pessoas não se interessam em saber as informações! Não querem saber de nada!”. Eu quase não entendo, mas acredito que cheguei à compreensão ao visualizá-lo gesticulando intolerante para as pessoas passando na sua frente e terminando o gesto apontando a telona. Nela: créditos. Eu quis trocar uma prosa com esse senhor de bigode alvo. Antes, pensei em como ele deveria ser chato, pensei pesarosa na mulher ao seu lado, pequenininha e inexpressiva, e como aquela (falta de) expressão era o resultado do que ela tinha que aturar de reclamações de intensidade incoerente e de fácil solução a vida toda. E veio a louca vontade de virar pulando em cima do homem, prender as pernas ao redor de seu tronco igual um inseto mortífero, ou a mulher-gato, miau, e tapar a cara dele toda em uma posição de braços marcial, só para questioná-lo calmamente em uma voz grave e profunda “Qual foi o nome que tu acabou de ler? Qual foi? O que ele fez?! O QUE ELE FEZ?! ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO? OU ELE FOI CINEGRAFISTA? MAQUIAGEM?! O QUE ELE FEEEEEZ?!?!”. Ok, a parte do capslock não deixa dúvidas quanto a utilização também de um tom desesperadamente ensandecido. Não sei, às vezes uma identidade anti-heróica de benfeitoria psicossocial terrorista tenta me domar e dar as caras, mas infelizmente não consegue e fica só estripuliando na imaginação. Me restou a vontade de pegar um papel e anotar pra ele o endereço do IMDB e dizer-lhe: é um sítio na rede mundial de computadores onde você encontrará a informação que precisa. E tudo o que fiz foi expressar para as amigas minha surpresa, e reconhecido deleite, sobre aquela manifestação, uma pena.

Eu nunca vou ao cinema, e toda vez que vou fico dividida entre: as pessoas são loucas e eu quero distância delas e as pessoas são loucas e eu quero ficar aqui de camarote testemunhando a maluquice. Agora, eu penso com carinho nesse senhor, porque depois de ler e rir de uma frasezinha cachorra que dizia que no cinema o diretor levava todo o crédito, o produtor levava todo o dinheiro e o roteirista levava apenas na buzanfa, gosto de ter a certeza – de fazer uma “cosquinha” no estômago – de que quando meu nome passar nos créditos, alguém vai ler. Mesmo que não saiba reagir ao ataque da Mulher Revoltites.

P.S.: Acompanhe a produção do longa-metragem a ser rodado em São Luís curtindo “Ei, você conhece Alexander Guaracy?” ou siga no twitter! : )

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Nascida Sob o Signo do Desastre

Dentre as coisas que eu não sei, uma delas é andar sem tropeçar. Outra pode ser passar mais de um mês sem derrubar algum líquido nas minhas próprias calças e ficar naquele look mijona em pleno convívio social. Nasci sob o signo do desastre, ou você pode me chamar apenas de sagitariana. Dizem que isso é uma explicação plausível, creio não ser pra todo mundo, mas pelo menos essa frase me dá uma ruguinha de riso no canto da boca – desastre é dis-astrum, má estrela em latim. Não é de hoje que a culpa fica pros corpos celestes, e não serei eu a ir contra essa sabedoria milenar. A culpa não é minha, algumas coisas não são simples imprudência, falta de coordenação, elas simplesmente curtem acontecer comigo. Há uma força desconhecida, um imã, um magnetismo, que une minha alma à destruição. Contudo, os astros não iam colocar tanto disso no caminho de uma criatura sem lhes dar um contraponto, a sorte. A sorte de acordo com Murphy, pra ser mais exata. Explanarei com quatro exemplos dos últimos míseros seis dias.

Eu faço um café. Quente e ansiando para tomá-lo logo, assopro o conteúdo da caneca. E o que aconteceu logo mesmo foi eu ficar estática, os cílios se chocando no naipe da batida de asas de um beija-flor, como costuma ocorrer nesses momentos de assimilação de acontecimento inesperado, e vem o suspiro de aceitação da derrota que só não leva os ombros ao chão porque não dá pra eles chegarem lá sozinhos. Minha assopradinha fez respingar meio litro de café na minha cara. No meu cálculo inconsciente é óbvio que passei longe do esforço do lobo na casa de tijolos, mas segundo o resultado essa casa era de aço. De tão acostumada com essas surpresinhas, dou de ombros, limpo o rosto e penso “sorte do dia: não me queimei”.

Sabia que tinha um ovo cozido do dia anterior na geladeira pois tinha arrancado uma mordida travessa dele na madrugada. No almoço, umas três horas depois da cara de café, requisitei o ovo em meio ao meu cozidão suculento. Ele chega à mesa, preciso socializá-lo com meus maxixes no prato, levo o garfo em sua direção enquanto a senhora minha genitora me repassa um relato a respeito de milionários que não conseguem encontrar gente pra namorar e tem todo um programa na tv destinado aos pobres… POW! Um barulho aterrorizante de catástrofe preenche meus tímpanos, chega cumprimento a labirintite. De olhos fechados pelo susto, achando que morri mesmo, volto a abri-los arregalados para encontrar os olhos ainda trancados da senhora genitora, cara e cabelos cobertos de farelos de gema. O diabo explodiu. O. Ovo. Explodiu. Explodi um ovo na cara da minha mãe, contaminei a travessa de cozidão com pedaços xexelentos de clara e infestei o apartamento inteiro com odor de peido. Tinha ovo em tudo que é canto a um raio de três metros de ação da bomba. Isso tudo porque esquentaram meio ovo cozido no microondas e não se sabia, nem eu, que esse tipo de coisa acontecia. O que não aconteceu mesmo foi eu me sujar com esse desastre. Eu só queria comer um ovo, mas é claro que não podia ser insento da tranquilidade que apenas comer um ovo parece oferecer.

The Beauty and the Bitch fez sua primeira discotecagem no final de semana que se passou, nome sob o qual eu e uma amiga decidimos colocar um som que não se ouve pelas baladas da ilha e sentimos falta. Deu trabalho, montar set, editar tracks, fazer as transições bonitinhas, aquela ansiedade sobre a recepção, mas era aquilo, era um risco e era uma oportunidade. A festa já com seus devidos méritos e reconhecimento, público cativo, divulgação espontânea. Já lá, no cara a tapa da situação, prometemos que iríamos fazer duas coisas: relaxar e pirar. Querido leitor, lá em cima, em frente aquela mesa cheia de botão, dava pra ver todo mundo e suas auras de expectativa, o peso da responsabilidade de fazer quem não esqueceu de se levar curtir a festa e não decepcionar os amigos realizadores que nos confiaram com tal incubência rondava, mas o lema do momento era aquele então eu pirei. Dancei, pulei, bati cabeça. Não era nem uma dança, era um ritual de exorcismo. Tudo isso no meu quadrado, pois dividia o espaço. Se bem que quase quebrei o nariz algumas vezes contra a testa da minha amiga, mas bobagem, ardia, se ria e se continuava. Continuou, taquei o dedo no botão daquele fumacê etéreo, veio ao mesmo tempo aquele momento empolgação total de uma música, meus movimentos escravos das ondas sonoras me deixei levar, o botão de gelo seco pousava em um amplificador que basicamente: rebolou no ar. Se estatelou em cima de um degrau ao chão de uma altura quebrável avante à eternidade. Em plena arregalação ocular, música não mais atingia meus ouvidos. Respirar? Não sabia mais fazer isso. Acabei com a festa. Quebrei o som. Diabos, quebrei o som de uma balada. Desprovi uma b-a-l-a-d-a de som. O manto da catástrofe despencou sobre mim. A culpa do fracasso toda minha, o desastre conectado unicamente à minha pessoa em pronome possessivo. “Por que vocês voltaram tão cedo?” R: Uma maluca chamada Laila jogou um caixa de som no chão. Acho que essa menina é drogada. Ou fez porque quis, quer se aparecer. Aí… Meus ouvidos voltaram e perceber música, perceber que apesar de testemunhas do desastre as pessoas continuavam dançando… O amplificador era só de retorno pra quem discotecava. Mãos hábeis e cabeças equilibradas resolveram a situação e ligaram a caixa novamente, e ela continuou a funcionar. Como disse: sorte pela ótica de Murphy.

Quem me conhece bem ou quem leu a historinha de Lundiwrans por aqui deve saber da minha doença de inaptidão na direção. Falta de segurança que praticamente me convence que o carro tem vida própria e eu nada posso controlá-lo. O absurdo do pânico ao meio social do tráfego. Chame como quiser, mas a verdade é que eu tenho total noção do quanto sou desastrada e também tenho total noção de que pra isso não existe solução. Não sei porque seria diferente ao dirigir, e infelizmente a técnica de Lundiwrans é tão irreal quanto a cura do meu destrambelho, então agora tenho um automóvel de câmbio automático sob meu domínio (ou era pra ter). Coisa simples, dois pedais, um de freio e o outro de aceleração, mas no começo não foi tão simples assim. O pânico e a tremedeira complicavam a condução de mesmo um carro de brinquedo, se não fosse ter tido amigos copilotos, a necessidade, o exercício e o ipod tocando no som do carro, não teria chegado à tranquilidade que me encontro hoje em dia e me afastado de ser protagonista de manchetes estabanadas daquelas “Motorista invade lotérica e fere 2”, mas derrubar o portão do prédio sim. Com apenas dois pedais, há algumas horas atrás, consegui a proeza de confundi-los e emendar meu carrinho como um touro feroz no pano rubro contra o portão que se contorceu e desabou num estrondo. A sorte não vai ser a conta, a vergonha, levar o porteiro Seu João Batista a um semi infarto, o ter de aturar os trabalhadores do outro lado da rua gritando “ÊÊÊ BARBEEEEEEEEIRAAAA!”, é só que não meti o carro em uma lotérica. Uma loja de calçados, um restaurante, outro carro ou pessoas que poderiam estar no lugar errado na hora errada. Pois poderiam.

Acho que tenho que andar pelo mundo toda adesivada de Mantenha a Distância.

Lundiwrans, o Exorcista do Pânico de Dirigir

Baseado em fatos reais.

Do alto de uma quantidade indecente de prêmios, um instrutor de direção psicoterapeuta fora contratado para lidar com meu levemente acentuado pânico de conduzir automóveis que ignoravam minhas súplicas de andarem direito, claustrofobia de trânsito e pavor de buzinas estressadas. Ideia do meu tio, Pingo, apelido carinhoso concedido por uma velhaca que dava-lhe banhos quando pequerrucho. “Não” era uma resposta equivalente a ter toda minha integridade misturada a um saco de estrume, que consequentemente seria tachado de “contaminado” pelo INMETRO e descartado. Então escolhi aceitar.

A propaganda de Tio Pingo era: 100% de eficácia. Dr. Lundiwrans, o exorcista do pânico de dirigir. De descendência sueco-suíça, graduação harvardiana, escolheu acomodar todo seu brilhantismo em uma cidade do nordeste brasileiro, viver uma vida humilde como dono de uma auto-escola cujo e-mail de contato é do saudoso Bol. Deve ser um daqueles homens de olhos tão azuis que parece cego, e quando conseguir um contato visual me hipnotizará no segundo segundo, pensei.

Fui para minha primeira prática, de cinco das prometidas para exorcizar o diabo da denominada #trafficanxietyattack nos tópicos tendência de uma sociedade cada vez mais à beira de um ataque de nervos, e conheci Lundiwrans. De olhos mais cansados que um jegue, menos azuis que uma barata, corpo esguio de maratonista, feição mais brasileira que um retirante de Portinari. Se o ceticismo já me acompanhava, resolveu me dar a mão. Cordial, Lundiwrans me deu um “Olá, vou apenas falar com seu tio e poderemos começar”. O sotaque nordestino esgueirando-se pelos dentes. Se o ceticismo havia agarrado minha mão, agora me abraçava intrigantemente quase libidinoso.

Ao longe, o observei falar com Tio Pingo, entre sussurros, sobrancelhas arqueadas ali e acolá, bochechas tensas, olhadelas nervosas em minha direção. O cheiro de conspiração infestou minhas narinas. Sorriram amarelo, apertaram as mãos, Lundiwrans voltou-se a caminho do carro, Tio Pingo acenou motivacional e eu fingi burrice. Tinha ciência do risco que minha ansiedade crônica estava correndo, mas antes ela do que eu. Sentei no banco do passageiro e me propus a ver até onde iria aquela farsa.

Em área segura, Lundiwrans pediu para que trocássemos de lugar e começou a falar:

– Vamos primeiro conversar um pouco a respeito disso que você tem. Pânico, né?

– É… O carro me controla mais do que eu ele. Em situação de nervosismo tiro os pés dos pedais, levanto as mãos para os céus, fecho os olhos e rezo pro primeiro santo que me vier à cabeça – fiz questão de amedrontá-lo.

– Hehehe – soltou um risinho nervoso – Só quero lhe pedir uma coisa: mantenha a calma. Senão ficará um pouco complicado para procedermos.

“Mantenha a calma. Senão ficará um pouco complicado para procedermos”. Exatamente o pedido e a observação que uma pessoa com pânico de dirigir precisava ouvir… Surtei. Dentro da minha cabeça faróis estrobóticos relampeavam, todos os carros se agigantavam monstruosamente e gritavam com suas buzinas, pneus cantavam freando alucinados, palavrões cabeludos cortavam o ar, pow póf crash!

Era um charlatão.

Merecendo um Oscar, mantive-me sem expressão ouvindo.

– A gente vamos com calma…

A gente vamos? Em meio aos estilhaços de vidro, no meu palquinho mental surgiu um “HA HA”.

– A gente vamos começar devagar. Saia com o carro.

“A gente vamos começar devagar. Saia com o carro”. Ao “HA HA” se uniram mais dois, “HA HA HA HA”. Era uma piada… “Pessoa com pânico, mantenha a calma, a gente vamos começar devagar, saia com o carro”. O que eu podia fazer além de iniciar o carango e botar o bicho pra frente? Tava todo pintado de auto-escola mesmo… Imbecil aquele que achasse que estava lidando com uma pessoa alfabetizada na direção. Fui. Continuar lendo

Coisas que só sua mãe e um atacado fazem por você

Aventura do dia: colocar em prática a economia domiciliar com a senhora minha genitora.

Fomos a um atacado. Foi nossa primeira vez. E sabe, Washington, a primeira vez nunca se esquece mesmo.

Primeiramente, mamãe no volante, né por nada não, porque eu não posso falar de ninguém e seu volante, já que nem triscar em um eu trisco, mas… Mamãe no volante, gente. Todo mundo dentro do automóvel fica na dancinha pescoçal egípcia de palhaço de circo cujo ato final é sempre aquele globo da morte idiota. Cabecinha pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Além de ela nunca saber por onde ir e como se chega e como se portar no trânsito, a desculpa é única: “mas eu nem entendo o porquê disto”. É… Mamãe no volante. Experiência única.

Após eu indicar a entrada do estabelecimento por ver uma placa gigante escrito ENTRADA, estacionamos e pegamos um carrinho, que não é bem um inho e dá muita vontade de sentar lá dentro como o bebê que um dia você foi e só precisava observar as gôndolas repletas de cores e formatos e pedir pra alguém te empurrar mais uma vez nessa viagem fantástica que sempre foi ir ao supermercado. Não é mais.

Começamos do começo da esquerda. Embalagens gigantes pra tudo que é lado. Pacotões e pacotões. E fizemos nosso trajeto. Quem dera fosse só aquela coisa de olhar, pegar, levar. Não, foi aquela coisa mesmo de estudar os preços pelas quantidades e marcas e coisa e tal, eu tendo que ser os olhos da dona senhora que me pariu, já que a teimosia de não procurar usar óculos necessários e a lerdeza para com um ambiente novo se fazem presentes. Não achamos um macarrão decente, não achamos manteiga, não achamos um tipo de feijão desses que só tua mãe curte, não achei meu shampoo e sabonete preferidos, e na hora que chegamos às coisas geladas, quase três horas depois de termos chegado, a análise da carne resultou em compra de carne nenhuma. De acordo com essa mulher linda que me pariu, não dava para analisar o bovino.

Com dois carrinhos transbordando de economias, exaustas, sedentas, loucas pra pegar nosso ar livre com nicotina, após três horas e tanto estávamos no caixa. Eu já tinha mencionado a observação: aqui não tem sacola, eles são green. Como a gente vai fazer pra levar essas coisas pra cima no nosso apartamento? Se comprou umas saculinhas sustentáveis e minha mãe decretou a decisão de forma dramática, vocês não tão entendendo. Lá foi ela, toda cheia de tremeliques e foi pegando sacola atrás de sacola, contando uma por uma em uma voz bufante e me mandou pro meu rumo de ensacoleira. E lá fui eu pro fim do caixa pra ensacolar as compras. Não pude. O carrinho tem que passar pela saída com os produtos à mostra para uma confiscada. Quando perguntamos o motivo para o garoto confiscador, não entendi meia palavra que aquela boca cheia de dentes se pôs a proferir. Reperguntei. Ora, é só porque pode ter passado a quantidade errada. Como, gente? É normal tu comprar duas garrafinhas de vinagre e nego tacar a mão no 8? Imaginei uma richa entre o colega confisqueitor cheio de dentes com o caixa sorridente, feição de menino angélico evangélico, dono de uma tatuagem de uma seta, esse troço bem aí que é o teu cursor do mouse mesmo, no antebraço, apontando pro nada. Depois só achei tudo muito chato mesmo e queria ir embora correndo se possível.

Carrinhos out, nos dirigimos ao carro. Senhorinha genitora, llllllllloura (língua a apontar o nariz) e fumante, me vem com a ideia errada de vamos fumar um cigarro. Que isso, mamãe? Quero meu quarto, minha cama, meu celular carregado, minha vida de volta, não vou ficar observando estes belos carrinhos com seus devidos mil produtos como se fosse bonito de ver e não uma tortura chinesa. Do alto de sua calma, ela me disse que não era nada disso que eu estava pensando. Afinal, ela podia muito bem fumar e ir se apressando a colocar as coisas na mala.  Assim sim. Comecei a ensacolar primeiramente. Claro que enchi três sacolas e a bonita só encheu uma, porque diz-se que dá pra ser produtivo com um Free longo no dedo… Tá certo. Dentro do carro, respirei. Hora errada pra respirar, Lailinha, você não sabia que ainda não tinha acabado.

Saímos. Pra onde? Ninguém sabe. Fomos seguindo os carros, esse foi o meu conselho. Segue a galerae, mamãe. Ela seguiu, repetindo sem descanso “To perdida! To perdida!”. E foi começando a seguir os outros que iam aparecendo no meio do caminho porque de repente a fileira de carros anterior ia cada um pra um canto. Nos embrenhamos nas ruas do Bequimão igual o tatu que certa vez vi fugindo dum pedreiro. Eu tava no Rio de Janeiro certos momentos. Sério mesmo. O tanto de barzinho de esquina e não esquina ali por dentro foi uma surpresa. Além de vários Nathiely Presentes e Churrasquinhos do Julio. E, bom, nos perdemos né. Era um labirinto e estávamos nele há mais de vinte minutos. Tivemos que pedir auxílio a um transeunte de uma rua escura com matagais pra chegarmos enfim à avenida e paisagem familiar. Mea culpa. Mamãe bem que não queria seguir os outros carros e só virar a esquerda, e era esse mesmo o caminho.

Enfim, é isso. Sua mãe faz muito por você. No início de tudo, ela te pariu, depois ela te leva pra programinhas super legais como esse, afinal de contas, quem feriu os mamilos dela por uns meses foi você, mesmo que seu papai possa ter feito igual um dia, foi VOCÊ. Aí ela te enlouquece, vocês se perdem e depois ficam dando risada dessas besteiras todas no conforto da sua casinha, avisando logo pras outras duas criaturas da família que da próxima vez elas que vão, claro.

De 32 a 28

Veja bem, se eu estivesse a falar de balinhas, de grãos de feijão, de carros em sua garagem que seja, de 32 a 28 não seria lá grande diferença. Mas, quando falamos de dentes, dentes presos e enraizados em suas bocas e gengivas e OSSOS MANDIBULARES, perpassando, ultrapassando e participando de toda uma população de nervos, bom, aí sim.

Estava muito bem acostumada com meus trinta e dois dentinhos desde meus áureos quinze anos de idade. Lembro do incômodo de dois deles nascendo em meio a brisa parisiense, ou seja, eu só sentia 20% da dor real, mas lembro. Aparentemente criei o juízo todo de uma vez (arrham), quando percebi já tinha os quatro sisos. Os superiores nunca foram muita diversão, porém, os inferiores… Ah… Esses sim. Meus sisos inferiores eram verdadeiros companheiros do nada pra fazer. Eu sempre metia minha língua e skateava pelas mini ramps que eles faziam. Eram um declive, um tobogã, um escorregador. Agora minha língua doi ao tentar esticá-la, e não existe mais nada pra tocar ali no limite da boca, que virou terra erma. Na verdade, minha língua antes media um metro, agora mede meio centímetro. E sinto sua falta.

Não existem grandes e MOTIVANTES motivos pra se falar em cirurgia de extração de siso, só o fato de eu ter passado pela mesma nesta última terça-feira e tirado os quatro duma vez, que apesar de supervalorizado no quesito coragem, não entendo o porquê. A recuperação de um, de dois, de três ou de quatro, definitivamente deve ser a mesma chatice. Essa vivência de uma semana inteira como se todos os dias fossem apenas um de muitas e muitas horas, onde não se tem horário pra dormir ou acordar e na verdade isso é a única coisa que se faz ao longo de nascentes e poentes do sol precariamente percebidos, e ainda se fica à procura de sopinhas com gostos diferentes pra uma diversão alimentícia e plastificação da sensação de satisfação… Bom, não tem como ser prazeroso. Ainda me prometeram a perda de uns quilinhos por essa dieta de papinha, o que ainda não vi acontecer, só o contrário.

Pois sim, a cirurgia em si é até divertida. Você tá lá com a boca aberta, lhe dão umas picadas na gengiva e daí pro fim rola uma pressão e uns barulhos de coisa quebrando. Basicamente. Fiquei impressionada com a rapidez do meu cirurgião, aliás. O primeiro dente, após a aplicada da anestesia, ele tirou inteiro em uns dez segundos e ainda acho que to aumentando! No kidding. Os superiores foram totalmente easy peasy lemon squeezy. Os inferiores, os danados, minhas lindas rampinhas linguais, foram teimosos. Tiveram que quebrá-los em alguns pedaços pra assegurar a extração por completo, e ainda assim, coisa de poucos minutos. Portanto, quem tiver precisando é só falar comigo que passo o contato do cirurgião, que além de EXÍMIO, fala contigo durante todo o processo, narrando cada coisinha, acalmando qualquer cidadão. Só que, eu não sou lá muito fria pra essas coisas. Ele tava lá lutando com meu último e mais complicado dente, e eu me segurando pra não me acabar de rir. “Você tá dez, viu? Grande parte da rapidez e tranquilidade da cirurgia é tudo devido a você, dez mesmo, viu? Parabéns…”.  Isto repetido por incontáveis vezes, com algumas mudanças no discurso ali e acolá, e não duvido que ele realmente ache isto, mas eu sou uma idiota. E eu provavelmente estava high on anesthesia. E enquanto tinha uma poça de sangue na minha boca, e ele manuseava os utensílios de extração em diversas estratégias que eu não conseguia sentir ou ver, o que eu mais queria era definitivamente rachar o bicon.

Entendam o que eu pensei (se for possível): Meu deus, mas esse “dotô” é fissurado na troca de experiências. Tá tudo bem aí? Aham. Tranquilo? Algum incômodo? Qualquer coisa é só falar viu? Estamos aqui pra lhe dar todo o conforto e tranquilidade possível, você não vai sentir dor alguma, nenhum tipo de desconforto… Aham. Olha, tá de parabéns, viu? Grande parte do sucesso dessa cirurgia é por sua causa. Aham. Muito bom mesmo. Tá dez. Gente, eu lá na minha cabeça, este moço tem uma necessidade do feedback, do incentivo do paciente, né? Será que ele não morre é de medo de repentinamente o paciente der um troço? Perder o controle? Sei lá, fazer a louca do siso? Aí eu fiquei imaginando que na verdade ele tinha problemas de ansiedade, nervosismo, e falava tanto com o paciente mais pra se deixar relaxado do que outra coisa. Mas aí também o vi numa salinha de um curso sobre relacionamento paciente-cirurgião, e vi várias abordagens escritas num quadrinho branco com alguns símbolos matemáticos só pra dar mais valor ao conteúdo repassado e aparentar uma obviedade.

Olha, eu não fui pouco longe não.

Enfim. Tenho mais alguns dias de papinha todo dia e constante desejo por algo sólido pra morder, de abstinência de cigarro que piora com o não fazer nada porque é isso que fumante faz quando nada faz: FUMA, de não poder dar um rolê na rua, de não poder nem ir na pedicure e de também não poder lavar o cabelo com shampoo. E pra variar mais a vida existe a prisão de ventre, a agonia de não conseguir fazer o que eu posso fazer simplesmente pela agonia a respeito do limite de opções (!), a tensão pré menstrual presente, a imunidade baixa. E não me venham falar de passar o dia inteiro se embriagando de sorvete e como isso é lindo e delicioso, PELO AMOR DE DEUS. Já disse e repito quantas vezes forem necessárias: isso não é consolo nem aqui, nem na Conchichina. Ainda mais quando eu ainda estou desejosa por um Cheddar McMelt. Passar bem você que pode, enquanto me debruço num litro de iogurte.

Uma das partes boas. Ah, vá... É divertido.

Escrito dia 03/09/10.

Ps: Amanhã eu tiro os pontos já \o/ espero.

Overdose de Pais Gays

No meu cotidiano televisivo desta semana que se passou, sofri uma perseguição. A temática de pais gays me encontrou vezes por demais em seriados de comédia.

Assistindo Two and a Half Man, episódio “Yay, No Polyps” (2010), Charlie é obrigado a passar um tempo com os pais da noiva, apesar de primeiramente lutar contra o encontro ao ponto de se submeter a uma colonoscopia.

Os pais de Chelsea apresentam todos os preconceitos que todo americano típico é caricaturamente tachado de ter: negros, mexicanos, polacos, gays, whatevs. Seu pai com maior ênfase na homofobia, tenta tirar de Charlie se o motivo de ser um solteirão eterno até os quarenta era por ser um canalha ou na verdade um grande maricon. No final das contas, em um bar com o genro e Alan em um momento boys only, observa minuciosamente um casal de homossexuais (homens), começando do “não-sei-aonde isso não é permitido!” ao ponto de acabar se embriagando na alegria gay alheia e soltando as informações de seu íntimo colega afro-americano da marinha que tanto sentia saudades. Volta pra casa de Charlie, abre o jogo para mulher e filha e corre para sua felicidade.

Dois dias depois, em Seinfeld, “The Cheever Letters” (1992), após o episódio do incêndio do chalé xodó do pai da noiva de George (quantos do do do da), chega a hora de contar para ele. Deprimido com a destruição de seu maior tesouro, se isola, saindo do quarto só quando deixam em sua casa a única coisa que restou do fogo: uma caixa com cartas. Mas não é ele quem as recebe, e sim Susan, sua filha. As cartas são de John Cheever, dizendo basicamente: querido, a noite passada foi incrível, receio que meu orgasmo tenha me aleijado, amo você, adorei o chalé.

Quando ele chega em cena, atordoado e descabelado, pega a caixa das mãos da filha e responde à surpresa de todos com um “Ele foi a pessoa mais maravilhosa que eu já conheci, e o amo profundamente, de uma forma que vocês jamais compreenderão!”.

Dois dias se passam do episódio de Seinfeld, e em Family Guy, “Quagmire’s Dad” (2010), Quagmire apresenta seu pai, heroi da marinha a Peter e Joe, que logo percebem o excesso de viadagem em sua personalidade. Por exemplo, se apresentar ao som de “These Boots Are Made for Walkin” fazendo uma dancinha escada abaixo. Peter entra em um dilema, pois a certeza da homossexualidade do pai de Quagmire é incontestável, porém o amigo não parece perceber, ou melhor, ignora todas as dicas. Acaba spillin’ the beans para Quagmire que se recusa a acreditar, mas logo é bombardeado pelos comentários ambíguos e outros nem tão ambíguos assim dos colegas de marinha do papai. Confrontado, o pai promete ao filho que não é gay, apenas é uma mulher no corpo de um homem. Faz cirurgia de mudança de sexo, faz o filho entrar em deep misery e confusion enquanto ele finalmente é feliz, faz os Griffin decidirem por nenhuma comida com bolas ou cilindros, faz sexo com Brian, o cachorro mais pra humano, que por sua vez ao descobrir que Ida antes era Dan vomita por alguns minutos e ainda recebe algumas muitas porradas de Quagmire, enfim, todos os nonsensismos que se vê no desenho. Por fim, filho aceita pai.

Diversos pontos coincidentes como pai de noivas, marinha e todos os três pais gays deixarem bem claro que a felicidade deles era exatamente em se deixarem ser gays, ou mulher, no caso de Dan que sempre foi uma por dentro.

Acho que você, me lendo até aqui, pode estar pensando que vou analisar a realidade social e os impactos disto há dezoito anos atrás em comparação com agora, ou que vou fundamentar e comentar a utilização do marinheiro-é-sempre-viado, ou então vou chegar naquele ponto que todo fanzoquinho de Seinfeld apela em atingir: “todos os seriados de comédia sugam de Seinfeld blá blá blá nhem nhem”. Não, não tô nem aí pra isso. Meu ponto é: se esta perseguição é um sinal, pelo amor de deus, que este pai gay de algum conhecido se mostre logo que eu tô ficando nervosa!

Casa de Doidas Varridas e Escorridas

Primeiramente, as personagens, além de mim: Mamãe (52) e minhas duas irmãs (29 e 33).

O resumo do último dia emoldura esse título com perfeição.

Estou no banheiro, só de toca no cabelo me preparando pra entrar no chuveiro, quando viro e dou de cara com uma caixinha da Apple flutuante na porta, a exatamente seis centímetros da minha fuça. Como a pessoa que é pega nua e desprevenida com um troço desfocado na ponta do nariz vai entender do que a cena se trata? Quase caí pra trás. Quando pude olhar melhor o que era, perceber que minha irmã do meio estava escondida atrás da parede só com a mão erguida pra dentro do banheiro, e enquanto me desengonçava procurando algo pra me cobrir e depois de exclamar o susto, perguntei em tom de papo fiado: “Um iPhone é?”. A resposta só em uma voz quase tristonha: “Era o jeito…”. E foi-se como apareceu.

ERA O JEITO. Como assim, minha gente? “Preciso da internet…” Ah sim, e não tem internet em outros celulares… Por incrível que pareça não era desculpa ou gracinha. Ela realmente achava que “era o jeito”. Esse é o mundo cruel da minha irmã do meio, onde o jeito é comprar um iPhone.

Já minha mãe, me abre a porta do meu quarto me contando animadona de uma novidade quentíssima que eu já sabia: “Lalá, tu tá sabendo que vai ter Scorpions em São Luís do Maranhão?!”. Olhos arregalados e cara púrpura de tão vermelha. “Por que tu não me contou?!”. Gente, daí pra frente foi um festival de loucura. Mamãe não é fã de Scorpions, nunca foi, nunca nem teve uma época da vida que pode falar “Ah, quando eu ficava escutando Scorpions na casa do meu colega Fariseu…”. Ela de repente não me vem com uma ideia de que o Scorpions vem pra São Luís só por causa dela? E 24 de setembro é escorpião em vênus, e o novo CD deles foi lançado no dia do aniversário dela, e o nome da turnê é sting and black out – que ela ficou repetindo igual um índio doido em ritual com direito a coreografia – e que escorpiões nas eras posteriores chegavam a medir 1,70m, e que eles se guiam pelas estrelas, e mais uma rabanada de história, ciência, astrologia, conclusões duvidosas e um grito de: “EU SOU A RAINHA ESCORPIÃO!”.

Ela deve ter entrado e saído do meu quarto pra falar desse grande presente PRA ELA (e os ramos mais longínquos e finos do tronco) umas cinco vezes. Em uma delas eu a coloquei pra ouvir algumas músicas, e ela ficou dançando aqui atrás de mim de frente pro computador Rock You Like a Hurricane. E também falando inglês. Quando viu no site oficial da banda São Luís nas datas de turnê, abriu a porta com as bochechas mais rosadas e os olhos mais saltados, dizendo: IT’S REAAAAL… IT’S FOR REAAAAAL. E começou algum outro discurso, com uns “I’m fully thrilled” intercalado entre punhados de frases.

Ela tá mais empolgada que qualquer pessoa que eu conheço, por motivos místicos que só ela compreende em totalidade. Vai ao show, capaz de ser a primeira da fila e já mandou uma apresentação do PowerPoint pro meu email sobre tudo isso. Ainda não vi, mas deixe-me adivinhar: uma embaralhada de mapa astral, com trocadilhos e explicações de metáforas, tudo envolvendo a banda, o show, a cidade, ela e mais qualquer outra coisa que passe por aquela cabeça maluca e genial.

Noite, tarde da noite, estou comendo com ela na mesinha da cozinha um macarrão horrível que eu fiz quando quase me engasgo: minha irmã mais velha foi buscar um copo de água com o cabelo laranja. LARANJA. Minha reação foi pura e totalmente: “QUEDIABÉISSO!”.

Pra vocês entenderem melhor ainda a ESPOCÂNCIA da visão da coisa: ela usava um vestido branco com laranja e unhas laranja neon. E aquele cabelo laranja cagado de quem é ruiva e tenta voltar a ser loira.

Ontem a criatura tava com seu já acostumado por todos vermelho escuro e hoje ela me aparece no meio da madrugada com um laranja cor de salmão com a raiz loira quase branca?! É pra me meter o susto. Ela mesma se intitulou de Chucky. Na verdade, aparentemente, ela intitula todo mundo que tenha cabelos no ombro de tonalidade cobre, loiro escuro, acaju e afins de Chucky. Sempre fez essa gracinha, agora ela é mais Chucky que o próprio.

São vinte pras seis, e todo mundo acordado, menos a dona do iPhone. E esse foi mais um dia na casa das doidas varridas, e escorridas.

Sair do armário não pode mais

Leiam por favor: Ricky Martin se diz orgulhoso em assumir sua homossexualidade

A comoção foi geral, no twitter, nos corredores da faculdade, dentro de casa, no meio do trânsito! Foi um negócio louco, nas mesas de bar no final de semana vão continuar comentando sobre este fato incrível. Oh.

Sinceramente, para os que dizem que já sabiam e para os que ficaram surpresos, tenho a mesma coisa a dizer: grandes coisa.

Primeiro, quanta FRESCURA pra um cara assumir ser gay. Deve ter lutado a vida inteira contra sua natureza. Acho um tanto ridículo essa revelação de forma tão romântica, como que para melhor aceitação dos outros ao invés de si mesmo.

Não cabe mais nesse mundo as pessoas ficarem nessa de orgulho gay ou orgulho racial. Enquanto existirem essas expressões e atitudes, é que nunca vai se ter essa igualdade que procuram tanto. Não existem motivos para se ter orgulho de opção sexual ou cor de pele, pra mim essas diferenças fazem parte da sociedade e não muda o aspecto humano ou de cidadão de ninguém. Talvez isso ainda ocorra porque o resto do mundo não tenha a mesma visão que eu tenho, mas putz, vamo parando já senão isso não muda. Tá na hora de se exaltar as diferenças e peculiaridades humanas em uma passeata e bandeira só, enquanto se insistir em defender suas individualidades que nada tem a ver com a vida dos outros ou engrandecer aspectos de suas características étnicas só vai aumentar o atrito social. Não digo que uma pessoa que sofre descriminação não deva agir e se manter passivo a isso, não. Existem formas legais de se proceder quanto a isto, e é claro que eu sei que muitas das vezes os processos encalham e morrem na praia, mas a solução nunca será vestir a sua camisa de arco-íris ou estampada com um 100% negro a fim de se defender contra o mundo! Às vezes uma bela resposta do alto de sua elegância e inteligência dá mais resultados. O mundo só muda quando as atitudes mudam, e não vai ser na base da provocação ou salientação das diferenças naturais que esse mundão tem pra dar e vender. Já foi essa época, já teve o seu papel, agora é partir pra outra.

Em relação ao Ricky Martin, no caso, tinha medo de se assumir e perder sua carreira baseada em mulheres histéricas com seu rebolado. Se mulheres fossem afastadas de seu estrelato, viriam os homens. Ia ter platéia e demanda do mesmo jeito. Mas que eu me lembre bem, Ricky Martin já não era mais ninguém na noite há muito tempo. E só agora, gay suspeito adotando duas crianças e gay assumido de forma tão emotiva, voltou à mídia.

Sair do armário não dá mais, não pode mais. Tem é que se jogar pra fora do armário e se aceitar como se é. Um dos grandes problemas é exatamente esse, a pessoa se deixar levar a ter preconceitos consigo mesma. O instinto maior do Homem é o de sobrevivência, mas ninguém quer só sobreviver. Na real, todo mundo só quer ser feliz sendo o que é. Pois vá, Ricky Martin, vá ser feliz, vá! E já chega da supervalorização do fato de você curtir homens. Porque né… grandes merda. Não faz diferença, só para os interessados.