Fui ao cinema e saiu isso

Eu nunca vou ao cinema. E recentemente, o desejo, a oportunidade e um bando de malucos me conheceram como roteirista. E eu nunca vou ao cinema. Não tô por dentro de nada, exceto quando me vejo dentro, e não me alimento de cinema exceto do que faz Cinema: basicamente a vida, oras. Pieguice à parte, adiciono: a vontade de contar uma história, ouvir uma narração em cada quina de mundo e o processo de expelir e lapidar uma ideia. De resto, eu tô longe de ser aquela conhecida que se pensa ˜vai saber dizer” quando o assunto é cinema.  Para respostas na ponta da língua, consulte o Dave, por exemplo. Cinefilia (das que forma o expert) não é um dos males que me afligem, sou só aficionada por ideias, tendência crônica a me ver sendo consumida por elas, a quando eu dou por mim… tô em cima da árvore do que só consigo lembrar, se consigo, da semente. Não sei a espécie dessas árvores, devem ser pé de cabeça inquieta.

Nunca ir não quer dizer que eu não vá. Fui ao cinema assistir Django, e contumaz: fui sem saber nada do filme. Gosto de assistir filmes com o mínimo de conhecimento da história possível, o máximo da falta de influência na visão. Fui sem saber de nada, exceto ser Tarantino e os comentários inevitáveis, e deles só tirei que ir era bom investimento, talvez até melhor do que realmente foi, mas não vou desviar. Fui. Ri. Me deliciei com o charme da construção de personagem de Tarantino mais uma vez, entregue magistralmente por Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio. Ri. Ria o tempo todo. Pensei “Samuel L. Jackson, seu puto maravilhoso!”. Previ a próxima cena corretamente, uma brincadeira adquirida por ter nascido filha do meu pai. E estrelei o momento gargalhada solo na sala de cinema. Spoiler. Na cena após a da piroca de Jamie (se eu já vi a piroca posso chamar só pelo primeiro nome, ou não?) a ser… recortada. Quando se corta fora o pênis dum negão é rara a sobrevivência? Como eu não ia rir disso?! Mas também não vou desviar à defesa do meu momento aparentemente retardado. Ou as pessoas não pensaram o mesmo que eu ou não viram a menor graça do senso comum negão-precisa-de-muito-sangue nas partes. Além de supor que os homens do recinto devem ter ficado extremamente solidários e sentido mais compaixão por Django do que por uma criancinha inane e esquálida, e as mulheres podem ter sentido muita pena “daquilo” ser extinguido. E eu disse que não ia desviar. Mas enfim, assisti. E quando um filme acaba no cinema…

As pessoas se levantam. Claramente. Com exceção dos que preferem esperar para caminhar porta afora sem aglomerações, não tão com nem um pingo de vontade de urinar (ou outra opção) ou quem quer assistir aquela cena depois dos créditos que leram no Omelete que dá um gostinho da sequência que aparece só 1/6 do escudo do Capitão América atrás da cabeça de um figurante e que faz qualquer alma fanática sair revigorado e falar mais dessa ceninha no bar do que do filme que acabou de assistir. Pausa para respirar. Mas esse não era o caso. O caso mesmo foi um senhor bem atrás de mim que se levantou bradando inconformado “As pessoas não se interessam em saber as informações! Não querem saber de nada!”. Eu quase não entendo, mas acredito que cheguei à compreensão ao visualizá-lo gesticulando intolerante para as pessoas passando na sua frente e terminando o gesto apontando a telona. Nela: créditos. Eu quis trocar uma prosa com esse senhor de bigode alvo. Antes, pensei em como ele deveria ser chato, pensei pesarosa na mulher ao seu lado, pequenininha e inexpressiva, e como aquela (falta de) expressão era o resultado do que ela tinha que aturar de reclamações de intensidade incoerente e de fácil solução a vida toda. E veio a louca vontade de virar pulando em cima do homem, prender as pernas ao redor de seu tronco igual um inseto mortífero, ou a mulher-gato, miau, e tapar a cara dele toda em uma posição de braços marcial, só para questioná-lo calmamente em uma voz grave e profunda “Qual foi o nome que tu acabou de ler? Qual foi? O que ele fez?! O QUE ELE FEZ?! ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO? OU ELE FOI CINEGRAFISTA? MAQUIAGEM?! O QUE ELE FEEEEEZ?!?!”. Ok, a parte do capslock não deixa dúvidas quanto a utilização também de um tom desesperadamente ensandecido. Não sei, às vezes uma identidade anti-heróica de benfeitoria psicossocial terrorista tenta me domar e dar as caras, mas infelizmente não consegue e fica só estripuliando na imaginação. Me restou a vontade de pegar um papel e anotar pra ele o endereço do IMDB e dizer-lhe: é um sítio na rede mundial de computadores onde você encontrará a informação que precisa. E tudo o que fiz foi expressar para as amigas minha surpresa, e reconhecido deleite, sobre aquela manifestação, uma pena.

Eu nunca vou ao cinema, e toda vez que vou fico dividida entre: as pessoas são loucas e eu quero distância delas e as pessoas são loucas e eu quero ficar aqui de camarote testemunhando a maluquice. Agora, eu penso com carinho nesse senhor, porque depois de ler e rir de uma frasezinha cachorra que dizia que no cinema o diretor levava todo o crédito, o produtor levava todo o dinheiro e o roteirista levava apenas na buzanfa, gosto de ter a certeza – de fazer uma “cosquinha” no estômago – de que quando meu nome passar nos créditos, alguém vai ler. Mesmo que não saiba reagir ao ataque da Mulher Revoltites.

P.S.: Acompanhe a produção do longa-metragem a ser rodado em São Luís curtindo “Ei, você conhece Alexander Guaracy?” ou siga no twitter! : )

Coloca essa porra na boca e engole! – Arrilias e Revoltas I

Sabe aquela velha chata que sempre repete suas observações e não parece perceber isto? Eu serei esta velhaca irritante bem aí quanto à cenas de refeição de filmes. Eu sempre vou exclamar que eles não tão comendo, “tá vendo?”.

Tenho uma arrilia imensa dos pratos servidos e não comidos. É algo que sempre procurei entender: Por que diabos os atores, que por sua vez são ATORES, que estão a retratar a vida como ela é e tem seres humanos como seus personagens, apenas ciscam com o garfo no prato? Consegui reunir dez possíveis motivos, alguns mais técnicos e reais, outros aparentemente viajantes porém nada duvidáveis:

1. Muitos takes, muitas garfadas somadas que levariam os atores a sair da dieta.

2. Muitos takes, comida fria, frescurite.

3. Comida de mentira.

4. Dificulta edição, facilita erro de continuação.

5. Perda de tempo de diálogo porque é feio falar de boca cheia.

6. Dificuldade em entender fala por causa da boca cheia.

7. Dentes sujos.

8. Sendo lanches como sanduíches, economia em gasto com vários exemplares idênticos e um guloso contratado tirando pedaços de acordo com take (ver item 1 e 4).

9. Necessidade de ensaio do ato de comer, tornando-o descartável.

10. Gastronomia que não agrada ator.

Agora comento.

Pularei itens 1, 2 e 10, não são nada além das mordomias e particularidades dos tais artistas.

Item 3, comida de mentira. Desde que o Discovery Kids me mostrou como eram feitas as fotos para displays (entre outras peças publicitárias) de hambúrgueres, eu jamais esqueci todo o processo. Continuar lendo

A Princesa, o sapo e as polêmicas

Pra quem não sabe, a Disney recentemente lançou uma nova animação com princesa.  Naquele estilinho de desenho das antigas, 2D, nada querendo ser gente não. Por outro lado, eles passam o desenho inteiro querendo ser gente…

A história do sapo que é príncipe mas só volta a forma real se receber uma bitoca, todo mundo sabe. A fama do conto é atribuída aos Irmãos Grimm, mas em sua versão não existe bitoca e sim uma jogada de sapo contra a parede (!). Encontra-se outras tantas versões, mas a moral continua a mesma. Apesar da base do filme ser o conto em sua versão mais famosa (com bitoca), fizeram uma historinha diferente, é claro.

A protagonista é Tiana, uma mulher trabalhadora e empenhada em realizar o sonho que seu pai, sempre caloroso e inspirador, a influenciou a ter enquanto foi vivo: montar um restaurante. Apesar da ambição, a família era muito feliz em sua humildade, pois acreditavam ter o essencial e o mais importante. E é óbvio que vocês sabem o que eles pregam como o mais importante. Preciso falar?

Inicialmente, dizem que o nome da personagem não era Tiana, e sim Maddy, o que desencadeou uma confusão. Pra que se entenda o tal reboliço, Tiana é a primeira princesa negra da Disney. Sendo assim, olhos de águia e espreita de urubu estavam com tudo em cima pra acharem qualquer “politicamente incorreto”. Diz-se que o nome Maddy remetia demais ao termo “Mammy”, como eram chamadas as escravas negras no sul dos Estados Unidos, logo, protestos retumbaram por acreditarem que estavam presenciando uma referência pejorativa. O que piorava na visão dos outros quando viam o papel social da protagonista: empregada de uma família rica e branca, com direito a menina mimada e tudo. Isso lembrou muitos da escravidão. Claramente, a Disney mudou tudinho. Tiana não trabalha pra família da mimada, e sim sua mãe, como costureira, e das melhores. E logo trataram de fazer Tiana amiga de Charlotte, a menina branca e rica. Fizeram questão de deixar tudo isso bem claro, no início do filme, quando mostram as duas meninas ainda crianças.

Como a Disney tem esse papel de mostrar a beleza da vida, as únicas dosezinhas de realidade de uma Nova Orleans do início do século XX deve ser mostrar negros vivendo em bairros mais humildes e o implícito de que havia uma grande diferença social quando Tiana sonha acordada com um restaurante onde todos os tipos de gente poderiam frequentar. Sinceramente, acho uma grande babaquice se importarem tanto se Tiana é Tiana ou é Maddy, se é filha da costureira ou uma nova gata borralheira (agradeço não ter sido só pra não ficar muito igual Cinderella). Crianças pouco se importariam com isso, e além do mais, estariam captando noções de mundo mais verossímeis com a realidade da época. Mas não valia de nada a Disney ter que defender isso em público, não é do feitio deles, e nem teria porquê tanto esforço pra colocar razão em cabeça de jegue (me desculpem os pobres jegues injustiçados por essa expressão). Apesar de ser a tal fábrica de sonhos, a Disney não pode mudar o mundo ou a mentalidade nojenta que aparenta só crescer nessa quase esfera maluca.

Isso não foi tudo. Ainda tiveram mais umas duas polêmicas “relevantes”: em uma imagem promocional, mostram o tal príncipe, Naveen, com uma cor de pele bem mais clara que a princesa da história. Aí tu pensa comigo (por favor): grandes merda. Pois é, mas deu o que comentar. “Já bastava pra eles ter uma princesa negra, né? Um príncipe negro já seria demais… Isso é medo da falta de aceitação, isso é racismo, isso é isso e isso é aquilo outro”. Percebi que no desenho o príncipe continua com um tom de pele mais claro, mas não tão contrastante com o de Tiana como aparentava nas primeiras imagens lançadas. Parece que desde o início o príncipe era pra ser mulato, mas na visão dos tendenciosos a arranjarem motivos pra falar mal não viram mulato algum, nenhuma morenice, ou isto simplesmente não importava, o que os satisfaria era haver a mesma “negritude”, como se na rua se visse brancos todos da mesma tonalidade, amarelos todos amareladinhos… Enfim, e daí se o príncipe fosse um albino? Não houve toda uma pressão pra tirar qualquer remetimento ao preconceito racial? Agora, o preconceito inter-racial pode? O.K. Vai entender…

O que muda nessa história é que a princesa que não é princesa e só está fantasiada como princesa pra uma festa, beija o sapo por ele lhe oferecer uma recompensa. É claro que Tiana pensa no dinheiro para finalmente ter o seu próprio negócio, o tão sonhado restaurante. E bem aqui, os loucos que querem ver mazela até na graça de um beija-flor sugando néctar, poderiam dizer: “Tinham que colocar a negra pobre se prostituindo…”. Sabe como é, a interpretação maléfica das pessoas não tem limites. Eu não duvido. Continuando… O que acontece é que ao invés do sapo voltar a ser príncipe, a mulher fantasiada de princesa vira sapo também. Daí vem a outra polêmica: o nome do desenho era pra ser “The Frog Princess” (A Princesa Sapo), como o nome do conto “The Frog Prince” (O Príncipe Sapo). Dessa vez quem reclamou foram os doídos pela realeza francesa (!). Podem acreditar. Alegando que o título era um insulto à França. Assim que eu fiquei sabendo a respeito do desenho, de se tratar da primeira princesa negra da Disney e vi o título, suspeitei que teria alguma polêmica por alguém concluir uma comparação entre negros e sapos, ou no mínimo acharem nada bonito um título desses, ainda mais retratando uma princesa afro-americana. Mas foi pior do que eu imaginava. Insulto à França! Vê se pode…

Coitada da Disney, quis colocar uma princesa negra na parada, quis fazer condizente historicamente, pode ter quisto mostrar que é normal o amor entre pessoas de etnias diferentes, deve ter feito tudo na melhor das intenções… Mas eta porra!

Guerra do Arco-Íris

Eu fui uma criança que assistia as mesmas coisas repetidas vezes. E eu nem tinha tantos VHS assim. Era basicamente Muppets, uns desenhos do Pato Donald e Willow que faziam minha diversão aos quatro, cinco anos de idade. E ah sim, um outro que só fui lembrar recentemente.

Tive um lapso de cenas de tinta sendo arremessadas a torto e a direito. E parou. Não conseguia mais lembrar de nada, nem entendia o porquê dessa memória maluca no momento que ela me acometeu. Só sabia que eu tinha um carinho jumento e inexplicável por esse troço. Fiquei na fissura.

Google. Mas o que diabos jogar no google? Não sabia nem do que se tratava essa memória travessa. Matutei, matutei, larguei de mão. Depois de uns dias de novo… Fissura gigantesca. Matutei, matutei, entrei num mato sem cachorro. Até que de repente, em outro dia, percebi que se tratava de um filme e lembrei que tinha alguma coisa a ver com reinos no meio. Saí perguntando pras pessoas se cores e reinos juntos lhe remetiam alguma coisa e NADA.  Google. Achei um troço francês e chutei essa doidice toda prum canto no inferno.

Até que, antes de ontem, a memória sacana me vem de novo a cabeça. Isso tudo porque avistei um espécime de criança com cara de adulto daqueles que dá medo, aí me lembrei de Willow, que me trouxe a tinta de volta no pensamento. Nem percebi o torvelinho de ligações, muito menos achei estranho quando automaticamente saí comentando com mamãe. “Lembra de um filme que eu assistia que tinha três reinos: um azul, um amarelo e um vermelho; e eles entravam em guerra e se atiravam tinta?” A resposta era óbvia. NÃO. Mais uma vez. Nem a senhora minha mãe, sendo minha mãe, lembrava do filme. E também não sei como eu, uns quinze anos depois, consegui cuspir essa lembrança.

Google. Achei! Logo num Yahoo Questions só pra me tirar daquele buraco solitário do “só eu vivi e lembro disso?!”. Rainbow War, Guerra do Arco-Íris. Quase saí nas cambalhotas que eu nunca consegui dar na vida. E pasmei quando constatei que o tal filme era um curta de apenas quase vinte minutos. Mas agora a fissura era outra: assistir. Google.

Acabei achando o link do vídeo em um site/blog que eu já conhecia. Quando aquele negócio começou a carregar e a musiquinha saiu pela caixinha… Confesso que eu quase chorei. A adrenalina retumbava dentro de mim.

Não vou comentar nada do filme agora, vou deixar isso para um próximo post talvez. Por enquanto, deixo com vocês:

http://www.clipser.com/watch_video/1161228

Curta de 1985, Canadá. Feito para a Expo 86, candidato ao Oscar.

Se depender de mim, meus filhos vão assistir isso também.

ps: Algo que não entendi. Mostrei o filme pra mamãe e ainda assim ela não lembrou. Quem será que inseriu essa fita aqui em casa? Hmmm. Próxima fissura detected. Pena que pra isso não dá pra jogar no google.