A Descarga Aleatória de cada terceira Quinta

Coloquei o relógio de quinta no pulso. Era, inclusive, quinta-feira. Os ponteiros marcavam sete horas da noite, em ponto. No celular ao lado também, junto com mensagens não visualizadas. Não consigo tolerar meus relógios em horários diferentes. Passo um tempo considerável tentando sincronizá-los quando percebo que algum perdeu o passo. Se existe uma hora certa, que se tenha ela na mão. Um minuto a mais, um minuto a menos, fazem toda a diferença. Vira hora errada, de que serve uma hora errada? Se fosse de algum proveito ouviríamos na rádio “a hora errada é: 18:58”, “repita”, “10:27”. Inútil. Mas às vezes seria mais sincero. Em contrapartida, os númerozinhos de contagem de mensagens não me irritavam. Deixa acumular… Assim me sinto querido. Alguém estará esperando por mim.

Saí com meu relógio pontual. Esse era daqueles de vinte contos, imitação livre. Não ousaria sair com os caros, melhor ficarem na caixa do que caírem num pulso que não o pagou. Andei algumas quadras, em cada esquina um horário diferente na parede. Andei devagar, inspirando o ar que não parecia existir na cidade abafada que é São Paulo. Os prédios e o asfalto respiram mais que a gente aqui.

Avistei um barzinho padoca com pouca gente, mas com gente. E lá me sentei do lado de fora. Pedi uma cerveja. “Copo americano, por favor?”. Uma moça bebericando de uma caldereta semicerrou os olhos pelo meu pedido. Seria ela meu cano de descarga? Um homem a cumprimenta e senta-se ao seu lado. Não. Não seria ela.

Bebi uma, duas, três cervejas. Risadas eclodiam dali, morriam no meu labirinto, todos acompanhados. Meu celular apitou mais uma vez, não chequei. Não seria a primeira vez que não encontraria um amigo desconhecido, não podia ser. De preferência uma mulher, sempre uma mulher, por favor. Quarta cerveja. E ela, tragando com vontade um cigarro antes de conseguir levar o isqueiro à ponta, parou ao lado da minha mesa. Tragou fumaça. Nos olhamos. Feição agradável. Uma brecha. Levantei-me levando o copo e meu cigarro nos dedos. Pedi-lhe o isqueiro.

– É engraçada a linha tênue que transforma os outros em fumantes passivos – comentei, na maior simpatia. Ela riu.

– É verdade… Um toldo configura isso tudo?

– Sim, mas como a camada de ozônio é um teto muito distante a gente pode sair dirigindo daqui.

Ela riu de novo. Engatamos um papo sobre a estupidez das pessoas. Fumamos mais de um cigarro juntos. Lhe ofereci um copo de cerveja, ela aceitou. Bebemos a quinta rindo da supervalorização de certas condutas sociais, como dar bom dia. E como essas mesmas condutas, se ignoradas, causam tanto desconforto e até inimizades. E ninguém se importa com ninguém de verdade, só em receber seu bom dia que nem um desejo verdadeiro é. Ela era Sandra, eu Heron, menti. Duas outras mulheres se aproximam, amigas da minha amiga. Uma me cumprimenta com as sobrancelhas no meio de sua exclamativa de “Pensei que você tinha ido embora! Já fechamos a conta”, a outra só observa prendendo os lábios. Para minha felicidade, elas se vão e minha amiga desconhecida fica.

Era o momento certo? Já havia tomado cervejas suficientes, ela também. Ficou porque quis… Então comecei:

– Sabe, acho que minha vida piorou depois que descobri o sexo.

Sua expressão parte reticente, parte confusa, me fez continuar.

– É… Sabe? Quando você é criança e não se importa que o que você está fazendo pode parecer um convite sexual? E de repente você cresce e tudo pode ser interpretado como um?

Ela riu. Ela me achava engraçado. Mas não havia graça naquilo. Era em realidade muito triste. A angústia roía meu estômago mais que minha gastrite.

– É sério… Por exemplo, semana passada, elogiei a apresentação de uma colega de trabalho. Qual é a primeira coisa que as pessoas concluem, inclusive ela? Que eu quero é comer. E talvez eu comesse! Mas eu nem sei se eu quero, nem passou pela minha cabeça. Mas agora talvez passe.

– A conclusão dos outros te leva a pensar que talvez a sua intenção era na verdade sexual?

– Sim. E não. Entende o problema?

– Não.

– Eu sei que minha intenção não era sexual, mas… Se eu admiro uma mulher por fazer algo e eu não a considero esteticamente repulsiva, então eu poderia muito bem transar com ela, certo?

– Certo…

– Mas por que eu deveria concluir com sexo?

– Porque é seu instinto?

– Só existe esse então? Eu não posso só gostar de estar aqui conversando com você, por exemplo?

– É… Entendi. É foda.

– Viu? Sexo estraga tudo.

Despencamos no barulho dos arredores, do nosso tabaco sendo queimado, do nosso pulmão preenchendo-se de fumaça.

E veio o que eu mais queria.

– Você tem razão…

– No quê?

– Eu estava aqui conversando com você achando que seu interesse em mim, no final das contas, era sexual.

– Não me leve à mal… Você é uma mulher atraente!

– Sei, sei… Mas eu não deveria levar qualquer atitude como algo a desfalcar ou fortalecer meu status de desejável. É me limitar, limitar os outros.

– E todos somos limitados e descritos e vistos por sexo. Somos escravos disso. Entende?

– É… É triste.

– Exatamente. Triste.

– Minha iniciação sexual sempre me deixou confusa…

Ela hesitou por um momento, arrastando um dos pés no cimento da calçada.

– Porque meu primeiro beijo foi em uma amiga. Brincávamos juntas, entende?

– Sei…

– Nos tocávamos. Mas era brincadeira. Eu nem posso dizer que sentia alguma coisa mesmo, eu era uma criança. Só mimetizávamos o que víamos chamar de relacionamento, era atuação. Ela parecia gostar, eu nunca soube de verdade, perdemos o contato, vergonha talvez, quando crescemos e entendemos o que era aquilo que fazíamos. Eu esperei em alguns momentos que me descobrisse lésbica, me senti forçando que me aceitasse quando não tinha o que aceitar, fiz terapia até…

– E você é hétero?

– Sim, um tanto completamente.

Rimos da ênfase.

– Você só ficou confusa porque sentiu que precisava rotular a sua sexualidade. E porque deu muito valor ao início da coisa, existe essa supervalorização de inícios… Em tudo, assim vejo. “O primeiro”.

– É… E depois de um tempo descobri que era normal, muitas pessoas tem experiências… homossexuais, digamos assim, quando novas.

– Sim, eu sei. E até descobrirmos isso, ficamos nos achando estranhos, com algum problema. Eu lhe entendo… Comigo foi um tio.

Ela tentou controlar os olhos que queriam arregalar pelo tanto que comprimiu os lábios.

– Família grande, o tio mais novo, – continuei – eu tinha catorze, ele vinte. Não foi uma história de abuso nem nada disso. Brincávamos, como você e sua amiga, nos testávamos. Ele se afastou, parou de falar comigo, acho que se sentiu culpado, ou teve medo. Só fui entender depois de muito tempo. Depois que se matou.

Sandra tinha os lábios tão apertados um ao outro que sua boca desaparecera. Curiosidade e lástima perpassavam o topo das maçãs das bochechas dando-lhe outros olhos. Não ousou questionar, não esperei que o fizesse.

– Eu o amava muito. Ele era meu exemplo em tudo na infância e na pré-adolescência. Corria como um raio, era impossível alcançá-lo. Dava uma canseira danada no Spielberg, meu cachorro. Me ensinou a jogar xadrez, me deixava ganhar às vezes…  – vaguei em memórias, fiz um momento de silêncio e continuei – A família o achava um perturbado, ninguém se assustou quando aconteceu o que aconteceu, ele se matar e tudo…

– Mas… – Sandra ponderou – Você nunca se sentiu… Nunca achou que fosse…

– Gay?

– É.

– Sim… Como eu disse à você, eu entendo. Me tornei muito reservado quando ele começou a me evitar. E logo foi embora da casa da minha avó… Ela era a única que o defendia, sofreu muito. Morreu dormindo, agarrada em uma camiseta antiga dele. Ele se enforcou quando eu tinha dezoito anos. Eu já compreendia melhor as coisas. Meu maior problema foi a culpa… Sim, fiquei um tempo demonizando minha sexualidade. Evitava qualquer um, homens, mulheres. Não me deixava sequer pensar a respeito. Me afundei nos estudos, me concentrei em fugir de tudo que era familiar e ao mesmo tempo doloroso. Me evitei até quando não pude mais.

O cigarro preso nos dedos de Sandra resumia-se a uma curva de cinzas. Bastou meu olhar para que despencasse. Lhe ofereci outro, ela sorriu envergonhada, sua postura antes ereta, agora encurvada e encolhida. Minha dor em seus ombros. Tentei amenizar o peso da minha história.

– Mas hoje em dia tá tudo bem! Desculpe lhe incomodar com isso tudo…

– Não, não… Imagina! Continue…

– Pois é… Me evitei até quanto não pude mais. Carlinhos na faculdade. Quando finalmente pude fugir daquilo tudo, vim cursar a faculdade na capital. Conheci o Carlinhos, o cara era brilhante. E gay. Eu não sabia. Ficamos muito próximos, amigos, até que ele deu o primeiro passo. Eu me deixei. Precisava me descobrir afinal. Não senti nada. Fui sincero com ele, ele nunca mais falou comigo. Perdi o amigo, mas ele foi minha motivação pra me sentir confortável em me deixar conhecer. Tentei ficar com outros caras, viajava para outras cidades às vezes pra isso. Não foi muito além, acabei me sentindo dando murro em ponta de faca. Eu não era gay. E eu achava isso incrível. Concluí que era assexuado. Só fui descobrir que não era quando conheci a Rita.

– Não sentiu nada nada nada por nenhum cara?

– Não… Estranho, né?

– É… Quero dizer, não sei. Eu jurei que você devia ser gay. Ou bi…

– Eu também.

Nesse momento gargalhamos juntos, aquela risada que soa como a que sucede o choro. Tímida e que traduz um “olha que loucura!”.

– Isso de precisar definir minha sexualidade, e todo o drama da minha iniciação sexual, por assim dizer, foi sufocante. Criei uma barreira. Acreditei ser o que não era. Tenho um certo orgulho de ter passado por isso tudo e me considerar uma pessoa bem esclarecida hoje em dia, devo admitir. Sem grandes traumas.

Sandra me presenteou um sorriso de admiração pelo segundo que nossos olhos se encontraram, mas logo abaixou a cabeça. Comentou que já estava tarde e precisava ir. Nos despedimos em mais um aperto de mãos, não trocamos contato, não queríamos, fiquei até aliviado de não precisar mentir novamente. Ela era como eu.

Voltei para casa respirando melhor, como se o ar da cidade tivesse sido filtrado pela minha noite. Tirei o relógio do pulso e o coloquei em cima da mesa, eram exatamente 01:37, e a sensação de cumprir com intuitos na minha espreguiçada, espalhando-se pelas minhas costas cheias de nós de stress. Toda terceira quinta-feira do mês eu saía e escolhia um lugar propício para conversar com algum estranho amigo. Um cano de descarga aleatório. Algumas vezes dava mais certo que outras, mas sempre, de alguma forma, dava certo. As pessoas são solitárias, as pessoas não confessam, não se mostram. Um pouco de álcool e ouvidos de um desconhecido realizam esse milagre. Ser verdadeiro, honesto, nos seus maiores podres, nas suas mais dolorosas experiências, é coisa que você tem que pagar alguém para poder ser, um psicólogo. Ninguém está preparado para saber a verdade de ninguém, a verdade é suja, amoral, feia, e sempre será lembrada. Você sempre será aquele com aquela história cabeluda em tudo o que você fizer, é um preço que a vida social, o seu nome respeitável, não suportam. Assim como eu, Sandra, se é que seu nome era mesmo esse, não quis que estendêssemos nossa amizade, já sabíamos pontos fracos suficientes um do outro, nos machucaríamos no andar da carruagem, nos sentiríamos vulneráveis, expostos demais. E não conseguimos manter qualquer relação em que não somos dominantes e impecáveis. Se não agora, depois.

Tirei o celular do bolso e chequei as mensagens. Era o WhatsApp, quinze mensagens não lidas. Uma de Rita, me desejando boa noite. As outras eram da minha mãe que havia acabado de ganhar um celular novo da minha irmã. Catorze mensagens de teste, “oi meu.filho”, “voc esta ai”, “?”, um emoji de carinha feliz e um monte de animais aleatórios. E pronto, noite perfeita. Ri daquela mulher que me colocou no mundo e que nunca entenderia meu mundo, pois por muito lhe amar, jamais compartilharia minhas verdades. Que ela ficasse com meus prêmios profissionais e alguns netos. Dormi feliz.

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Guardanapo novo

Tudo que é novo, nem que seja um guardanapo, é cuidado de forma diferente.

É muito mais empolgante limpar a boca em um papel limpo do que um já sujo, porque lidando com um usado tem todo aquele trabalho de ser cuidadoso pra acabar não se sujando mais, usando aquela pontinha restante ou então origamizando-o como lhe convém. Eu dobro meus guardanapos em triângulos para continuar usando, mas confesso que se tiver uma renca de novos limpinhos ao alcance da minha mão, eu pego outro. Com os blogs foi mais ou menos assim, exceto pelo último que tive.

Aquele lá eu usei, abusei, usei de novo, dei pausas cavalas, postava algo aleatório, esquecia que existia, abandonei. Brinquei com o html como caça-palavras, remontei, virou cruzadinha, ajeitei outro, e foi ficando sem graça esse arranca-rabo constante de dois em dois meses depois de apenas uma dupla de posts. Não ficava mais satisfeita com aquele canto lá o suficiente pra me motivar a escrever como costumava. Era complicação e desorganização demais. Após quatro anos, o guardanapo já tava imundo, aos pedaços, murcho e seco, como era de se esperar (principalmente usando um servidor arqueozóico). A praticidade uma hora grita.

E cá estou, limpando minha boca suja num guardanapo novo.