Um fio que tem força, sem esforço, contra a gravidade

É rua. Calçada. Parede suja. Fiapos de mato e esgoto. O ar de mil escapamentos de carro por minuto. Num banco, um palhaço está sentado como se esperasse moedas num chapéu invisível à sua frente. Como uma figura artística, uma performance urbana, uma mensagem humana por vias de fantasia.

Mais aceitável que um homem de terno chorando, essa figura da cara branca e cabelo azul, cores do macacão de seda em contraposição entre os lados esquerdo e direito. No rosto, um olho tem a cruz, abaixo do outro uma lágrima, a boca pintada de vermelho bem além-boca. O palhaço não ri, não se mexe. Uma estátua com pupilas de Monalisa, ele observa todos que passam, à pés, nos carros, com um olhar triste de apatia, caído de monótono. Uma mão repousa no respectivo joelho, a outra de luva segura um fio de nylon contra a gravidade. O fio leva a um balão, bem cheio, bem recente, vermelho, e em formato de coração. O coração vagueia ali no alto calmamente, aparentando esconder um segredo seminal. O palhaço não parece perceber o balão, o balão não parece perceber a lágrima preta na bochecha, a lágrima não parece perceber ser ridículo aparecer em um palhaço. E essa é minha imagem do amor.

Há anos esse palhaço aparece na minha cabeça, sentado nesse cenário urbano, e me instiga a torná-lo real. Em uma fotografia, em um documentário, em uma cena, em um vídeo musical, em um desenho. Mas nunca fiz. Há anos esse palhaço aparece na minha cabeça e tudo que faço é encontrar seus olhos. A gente se encara por um momento e fico grata pelo reflexo. A moeda pro chapéu que não existe é o espelho. Depois de enxergado e fazer enxergar, ele muda o foco esperando outro responder.

A história se repete. Às vezes me questiono porque o palhaço não escolhe apagar a lágrima, ou furar o balão, ou tirar a fantasia. A história seria outra. Mal me pergunto e já sei a resposta. Algumas coisas são como são. É como se existisse um equilíbrio além da nossa compreensão. Não importa o quanto gostaríamos de mudá-las, elas são o que são. Da magia à dor.

Ali, escondido, depois dos créditos, eu gosto de inserir uma cena extra de vez em quando. Do outro lado da rua, em outra parede suja, em outra calçada erosiva, um outro palhaço coloca uma cadeira e senta-se. A única diferença entre ele e o primeiro é a posição dos elementos. As cores são as mesmas, lados contrários. A lágrima na outra bochecha. O coração na outra mão. E de frente um pro outro eles são iguais.

E eu, sentada pensando isso aqui, vejo uma mão nua no meu próprio joelho e a outra de luva segurando um fio, que tem força, sem esforço, contra a gravidade.

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