O Vírus

Mastigo esse pedaço de pão e parece gaze de ferida. Não parece que meus dentes funcionam, não parece que triturei a massa, que se transformou num bolo alimentar. Engulo e é áspero, não remete a nada comestível. É assim sempre que como sem apetite, e eu não tenho apetite desde ontem, ou antes de ontem. Meus maus hábitos me alimentam de fumaça. E quando eu como, passo mal. É o que meu corpo precisa, mas aparentemente nem ele aceita, ou é aquelas da revolta por ter sido esquecido por tantas horas. Me concentrei demais na cabeça, indo da ideia que temos de que merecemos ser felizes à realidade de que não conseguimos ser, e todos os porquês. O sentimento de querer dar o mundo e não ter um mundo pra dar. O amor da sua vida bateu à sua porta, e você não estava em casa. Vinte e quatro horas se passaram, e você não deu um passo sequer em direção a um objetivo. A caixa de chocolates é aberta e por algum infortúnio do destino esqueceram o único exemplar do seu favorito, a caixa então está vazia.

Os dias, meses e anos se passam, eu já não sou uma menina, eu já tenho medo de me olhar no espelho e encontrar rugas no meu rosto e, ainda, espero o dia que as coisas façam mais sentido. A vida não é justa. O tempo te dá a ilusão que sim e logo te toma de volta, de novo e de novo. A vida faz pés do mesmo número de calçado se cruzarem, de pernas que não conseguem caminhar ao mesmo passo. Quando eu era menina ou não tanto assim, eu diminuía o passo pra acompanhar, engolia o impulso de correr. Doía. Doía por muito tempo não poder rasgar o vento com o nariz. E agora, o que dói é não conseguir caminhar. E eu que sempre achei que sofreria das mesmas coisas, de novo e de novo, agora me vejo a odiar minha incapacidade de ser o que acabava machucando. Aquela ideia de que se merece ser feliz persistente, a força em falta. Tudo o que eu nunca pude arde em não conseguir ser exatamente o que eu não deveria ter feito antes.

A gente tem uns demônios na vida, mais conhecidos como meras pessoas carregando suas próprias cruzes, desequilibradas, vão levando qualquer um pelo caminho, a gente tenta ajudar a carregar porque somos bonzinhos e entendemos, nossa empatia é um absurdo, mas acabamos carregando um peso que não deveríamos e também açoitados como Cristo. Perdemos umas crenças, sujamos nossa perfeita índole, ligamos o foda-se um pouco, aprendemos que ser egoísta tem seu valor, ficamos um pouco frios, cínicos, acabamos fazendo mal a quem menos merece, personagem esse que um dia fomos. A gente se odeia por isso. A gente se odeia por ter sido vulnerável a se infectar. A gente se odeia por ser humano e como humanos sermos fracos, nos vemos como fracasso. Convivemos com o vírus, conseguimos acreditar ainda até, o “não desiste das pessoas” ecoa e nos movimenta, mas já sabemos tanto da natureza humana que o tédio bate na cara e a insegurança lateja se não conseguem penetrar nossa carcaça anestesiada e fazer-nos sentir com uma dose de adrenalina cavalar. Temos coragem, só não temos mais pés, precisamos que nos empurrem. Temos coragem, mas não chegamos inteiros e esperamos que nos curem. Temos coragem, mas chegamos prontos pra uma etiqueta no pé. Precisamos de calor, precisamos que estejam prontos para nós, que não precisemos nos esforçar muito ao encaixe porque estamos quebrados em diversas partes e pedaços, qualquer movimento é excruciante. Deitados, inertes, sentimos a frieza dar forma a uma aura de calor intenso ao redor do corpo, é o calor do corpo de sempre, ocos e abaixo de zero estamos sós, não adiantou ter coragem, não encontramos cura e só sabemos que estamos vivos porque a barriga ronca.

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