Hoje, o amor é uma rebeldia

Uma coisa é certa: o amor virou rebeldia.

Uns meses atrás travei um embate com meu padrinho num daqueles momentos raros que ele levanta o dedo em riste e diz que vai falar algo muito importante, “escuta, é sério isso… escuta!”, e acaba que é sério mesmo. Ele disse: “amar é uma escolha”. Essas palavras imprimiram uma chicotada na minha cara e lembro que exprimi uma testa franzida de menosprezo debochado. As palavras de alguém que o tempo tornara cínico o suficiente pra preferir uma vida sem essa espécie de enxaqueca, ou talvez alguém que não sabia o que era amor de fato. Rebati logo: e não é algo que apenas se sente e não se pode controlar? “Não”, sem qualquer freio de reflexão.

E essa escolha, não acaba fazendo o sentimento falso? “Não”. Eu não entendi aquilo. “Tu só envelheceu e deixou a graça de amar ficar velha junto contigo”. Eu não entendi mesmo aquilo. Como que eu poderia simplesmente escolher ou não amar. Como que se pode meramente ignorar ou cortar uma sensação boa que vai crescendo motivada por uma pessoa, o encantamento. Como que se escolhe “ah, essa pessoa aí eu vou amar”. Como, basicamente, COMO DIABOS alguém não se permite porque vai acabar tendo que lidar com umas coisas meio chatas ou mesmo péssimas em algumas alturas do campeonato.

Mas a verdade, meu ou minha camarada, é que o amor é uma habilidade. E se você não a tem naturalmente desprendida, você pode, inclusive, escolher ter. Uma aptidão que você escolhe sim, colocar em prática ou não. E quando você tem o amor-dom, que é o cerne do amor materno, é aí que tu tá lascado mesmo e precisa dominar uma técnica forte para torná-lo praticável.

Vamos esquecer aqui todos os conceitos de carência, insegurança e acasalamento. Vamos esquecer aqui todas as versões piratas de amor. O amor deve começar em ti, antes de tudo, de ti pra ti, ser capaz de te motivar a dar o teu melhor pro mundo, porque tu é feliz contigo, com quem tu te tornou. Tu é capaz de te enxergar. (If you can’t love yourself, how the hell you gonna love somebody else?! QUENAIGUEREINEIIIMENNN). Ser capaz de te preencher em coisas e gestos e sensações que não dizem respeito ao seu/sua próximx futurx ex. O amor começa em conceitos tais quais o de amizade, de empatia, de compaixão, de bondade, de compreensão, de humildade e de insignificância. Insignificância mesmo, você é zero, nada, porra nenhuma. Você não é especial, você é só mais um com algumas características agradáveis dentre um bando de outros com suas características agradáveis. Você é mais um… só que você tem coragem.

Então, agora, podemos falar de amor.

Por que coragem é tão importante se tu já deu o check em tudo aquilo lá em cima, né? Ora bolas, primeiro porque todo mundo já se fodeu. Todo mundo é traumatizado. Tem gente que é traumatizado até por ter sido um merda e nem sabe. Já que conseguiu continuar vivendo numa boa aceitando ser um merda, pra quê mudar esse status confortável de podridão de ser, não é mesmo? Essa comodidade com o trauma é uma peste. Isso não é ser sabichão, maduro, sei lá o quê, isso é ser – desculpa se essa carapuça é certinho o teu tamanho – burro. Ignobilmente covarde. Quero dar um chute carpado na tua cara. Mas voltando… Segundo, porque se tem medo de, apesar de se saber capaz de exercer amor, não ter lá muita certeza se o outro é. E terceiro, porque apesar de traumas vencidos, quando alguém se dá a uma intimidade no nível de amor, seu equilíbrio se torna mais vulnerável, não é mais só seu.

Ninguém é uma montanha inabalável. Nenhum zen é capaz de amar como os humanos-animais. E nós, que entendemos tanto a necessidade quanto a grandeza do zen, ainda não queremos sê-lo. Nós queremos tê-lo, acessível só, pois nós ainda queremos ficar sem ar. E nós ainda achamos que poder ajudar alguém a ser sua melhor versão em uma intimidade que cubra tantos pontos, e ter alguém que tire o melhor de nossas capacidades dessa mesma maneira, não tem com o que comparar. Nós nos despimos cotidianamente do medo. Nós sabemos que não precisamos, que é mais fácil ficar sem, que é uma escolha. Porém, nós ainda somos meio como Johnny com June.

johnnytojune

E eu me vejo numa geração de grandes egos. Grandes certezas, rasas opiniões. Irredutíveis pretos e brancos. Fodalhões, lindos, beijinho no ombro. Iludidos em seus maravilhosos diferenciais. Certos de serem subversivos só por terem caído de paraquedas num ponto da linha do tempo Histórica de grandes mudanças, mas fácil massa de manobra. Relações plásticas, baseadas em memes sem fim. Relações que parecem abortos porque melhor assim. Ultra radicais porque dão tapa na cara da sociedade. Consumidores pelo ícone, camuflados em um milhão de bandas e filmes pois que massa o pôster. Secos e molhados só na calça. Feitos de trouxa mas só de engraçadinho dizer. Fanáticos, FANÁTICOS, F-A-N-Á-T-I-C-O-S. Muito orgulho beber beijar beber beijar beber beijar porque não sou obrigada a nada. A nada. A velha ladainha do timing errado, sendo que é coração no lugar errado mesmo. Tá tudo na mão, autoestima baixa se cura num botão. É tudo designer e publicitário nessa porra porque administração já perdeu o posto da indecisão. É bonitinho, mas será que não sabe quem é Julian Casablancas?????? Indireta daqui, indireta de lá, inimizades plus size, amizades de curtida. Bota o teu, papai. Caralhada de tatuagem, desfalcado de personalidade. E cacetada de lágrimas no travesseiro, porque na realzinha: tu não é feliz. E a culpa é tua. Mas beleza, dos males o menor, na fortaleza que tu mostra, tu impera. E ninguém vai te dizer o que fazer. E vacilou, perdeu. E parabéns a você.

Eu olho pra geração anterior, e o vazio é o mesmo, só é mais brega.

Eu olho pra geração antes da anterior, e o vazio é o mesmo, só que já tá velho e cansado.

Eu olho pra gente, vocês como eu, e sabe… Dentre tantas formas de lacrar, a nossa coragem em escolher amar é a coisa mais rebelde que a gente podia fazer.

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2 pensamentos sobre “Hoje, o amor é uma rebeldia

  1. Minha ‘AMADA’ sobrinha e afilhada Laila ‘Razzo’ (que de raso num tem nada),

    Nunca antes na história dagente, senti vc tão próxima, isso talvez seja o seu sentimento de amor, que está fazendo vc amar!!!
    Obrigado por está mais perto. Mas vc poderia está ainda mais perto! .
    Não me orgulho que quase nada na vida.
    Vaidade é uma coisa que possuo sim, mas é em dose homeopática, mas se pudesse dizer que me orgulho de alguma coisa, essas são: meu irmão, teu pai que tem muito mais capacidade de amar do que eu e vocês, nossos filhos, 03 ao todo – lagrimas de emoção. Tenho outros poucos orgulhos na vida, todos relacionados ao sentimento “amor”, que para me fazer melhor entender a vc e aos seus “ouvintes” está intrínseco no verbo “AMAR”.
    Vamos lá!!!
    Amar é uma opção, é uma atitude. Amor, que é o que está dentro do verbo, esse sim é um sentimento. É fácil de explicar e é mais fácil ainda, de entender.
    Mas não vou explicar como um conceito, mas com um exemplo, e usarei pra isso, vc mesma:
    O que eu sinto por ti, é um amor profundo, que eu não sei de onde vem e é tão indizível, que chego a brincar dizendo “que se vc não fosse minha sobrinha”, pegaria vc, o que é absolutamente verdadeiro e aí, já estamos falando de uma, dentre tantas outras facetas do sentimento amor. Mas além de tudo isso, eu escolhi amar vc, que através de uma palavra simples, podemos entender melhor: cuidar de vc.
    Assim fica claro o que eu sinto por vc(amor) e quais minhas atitudes em relação a vc(aquele que decidiu ama).
    Temos um exemplo no ocidente de grande relevância Jesus, que decidiu amar as pessoas. Mas temos outros também, Gandi, Madre Tereza de Calcutá, sua avó Clarice, dentre milhões de outros anônimos.
    Talvez estes são os verdadeiros rebeldes, pois resolveram amar, sem necessariamente sentir nada pelas pessoas amadas, quiçá alguma compaixão.
    Algumas pessoas, irão com certeza dizer que eu estou falando o obvio, e elas tem razão. Nós só precisamos é deixar claro para nós mesmos (e não para as outras pessoas), quanta capacidade nós temos de amar sem sentir amor. Isso, de maneira nenhuma, anula nossa capacidade de sentir amor e aquela “sensação boa que vai crescendo motivada por uma pessoa, o encantamento”.
    Um bom exercício para se poder amar, sem sentir amor, é fazer o que um ditado clichê diz: ‘para amar alguém, precisamos antes amar a nós mesmos’. Acredite, dá resultado, pois vc não nutre a seu próprio respeito, sentimentos avassaladores, a menos que vc esteja um pouco doente mesmo, né? rsrsrsrsrs
    Um icônico de exemplo de amar por amor, é um dos melhores desenho animados que já assistir na vida: CORAGEM, O CÃO COVARDE. Para os que não conhecem, Coragem é um cão vira latas que tem um verdadeiro sentimento de amor por sua dona, Muriel, uma velhinha completamente fora da realidade que se mete em assombrosos apuros, mesmo sendo extremamente medroso, Coragem, sempre toma atitude de salvar sua amada Muriel, apesar do total desprezo com que é ele é tratado por Eustáquio, marido da desastrada Muriel. Ocorre que esse tipo de amor, via de regra, gera sentimentos conflitantes o que é natural e genuíno.
    Olho para a geração anterior, e o vazio é o mesmo, só mais antiga.
    Eu olho para a geração anterior, e o vazio é o mesmo, só que bem mais antiga.
    Olho para vocês, e vejo que vocês tem um mundão de oportunidades de serem rebeldes e escolherem amar. Então, façam.

  2. Oi, laila

    Do nada eu acabei parando nesse teu blog hoje, numa manhã que eu tô pra matar alguém de tanta cólica que eu tô sentindo. Mas porra… queria te dizer que esse teu texto mexeu comigo como há muito nenhum texto fazia.

    Amar é uma escolha mesmo. E é um ato de coragem. Eu vim toda fudida de um relacionamento. Fui traída, enganada, trocada, maltratada etc quando tudo que eu fazia era dar amor e amor e amor. Saí completamente sem destino desse namoro, sem base, sem chão. Só chorava e chorava. Tinha decidido que nunca mais ia me entregar assim. Conheci umas pessoas, engatei relações rasas e ponto. Sai delas sem um arranhão porque, na boa, eu não dava a mínima.

    Aí conheci meu atual namorado. Se apaixonou por mim e me encheu de um amor profundo que eu nunca tinha conhecido. Mas no começo eu mandava ele pra me da, não queria me envolver. Muitos traumas. Emocionalmente eu já tá vá envolvida. Já o amava. Mas não queria amar. Porque amar traz uma responsabilidade da porra. Por você e pelo outro.

    Você não tá mais sozinho. Tem pessoas que serão afetadas por suas ações e isso é muito sério. Acabamos decidindo ficar juntos mas tinha dias que eu acordava de madrugada e chorava muito, com medo da porra toda se repetir, como no caso anterior. Chorava e Chorava e pensava “cara lho, ele vai repetir o que o outro fez comigo. Vai dar merda”

    Já se passou quase um ano e ainda não deu merda. Mas todo dia eu acordo decidida a amá -lo, a tornar isso memorável, a construir lembranças que vão permanecer. Tenho medo do futuro, do que pode acontecer, de acabarmos nos separando, como em algum ponto da vida todo casal faz. Mas sei que medo não vai me dizer nada. É preciso, mais do que amor, coragem.

    Amar a si mesmo também é um ato de coragem. E também é uma escolha. A gente decide que quer se amar e que não vai deixar ninguém assassinar nossa fé na vida. Até hoje às vezes ainda lembro desse outro relacionamento e choro de raiva ou dor ou ambos. A cicatriz sempre fica.

    Mas cara. O futuro reserva sempre coisas melhores e e eu sempre achei que isso era só um cliché de comédia romântica. Tudo é experiência e sempre vem coisa melhor. Hoje eu sei que sou mais feliz do que antes. Aprendi a amar de forma mais desprendida, sabendo que pode acabar a qualquer momento. E aprendi a me amar profundamente. A só aceitar o amor que eu mereço

    Obrigada por esse texto. Você é foda! Escreva mais :))
    Beijos

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