Pedaço de Caminho Sem Fim

O caminho era mais do mesmo. Era só seguir com o carro rumo à avenida da praia, percorrer todo o asfalto paralelo ao litoral e estaria em casa. O caminho era mais do mesmo, só não foi. Acelerei e me vi subindo uma encosta, vegetação familiar de árvorezinhas baixas cheias de galhos, terreno rochoso, o carro balançava, era uma trilha pra não-sei-onde. O que é isso? Onde eu tô? Como vim parar aqui? Pavor subindo pela garganta em nós. O susto do trajeto inesperado pulsando na jugular, o carro subia mais, as plantas arranhavam a lataria e cobriam parte da minha visão. As plantas sumiram. O céu estava ali. Azul-aço claro, como o nascer ou o cair de um dia sem nuvens. A tensão apavorada foi substituída por hipnose. Era a lua, jorrando luz prateada no meu rosto, quase lambendo minha testa. Enorme. Enorme como o mundo. O ruído do motor, dos pneus no terreno seco, dos galhos no metal, cessaram, por dois segundos só existiu uma vibração grave, o som da gravidade da lua me puxando. O “O que é isso? Onde eu tô? Como vim parar aqui?” evaporados, todos os pelos do meu corpo, todas as minhas células, imploravam pra voar. Porém o carro não parara. O grunhido motriz voltou ao labirinto dos ouvidos. O medo me socou no meio da cara quando enxerguei um palmo à frente. Puxei o volante da direção do abismo, o carro como um dragão obediente raspou as rodas na limítrofe da morte e da janela vi que estava acima do mar. Exatamente acima do mar. As ondas surravam a encosta. O mar não era o daqui, era de um profundo azul-esverdeado. Não haviam navios no horizonte. Não havia vivalma. A ira do oceano ensurdecedora, mas não soava como ira. Soava como libertação. A sensação de olhos em espiral, de pulmão fatigado, estava a me consumir. Eu ia desmaiar. Um último esforço. Só preciso dar meia volta e retornar pra voltar ao caminho de casa. Fiz. Mas não vi retorno. Eu estava no topo de uma montanha, sem qualquer indício de estrada, sem saber como havia chegado até ali. O oceano ao redor. Eu era muito pequena. Não parei o carro nem uma vez, não usei o freio, era como se o automóvel estivesse desgovernado e, ainda, fosse parte de mim, meus pés, meus impulsos, eu queria. Eu ia desmaiar. A lua reapareceu. Parecia ainda maior, ela ia me engolir. O mar parecia chamar meu nome enquanto me pedia pra acalmar, o chiado da espuma. Ssshhh… Ssshhh… Ssshhh… A pressão da estática gravíssima vibrava todos os meus órgãos. O ruído era rosa. Meu sangue começou a borbulhar. Eu ia desmaiar. E o carro não parou. Eu não impedi. Eu não quis. A sensação inebriante daquele cenário surreal de dia-noite com muito sal me consumiu por inteiro. Eu fui sufocada pela beleza, eu não tinha como fugir, eu era parte daquilo. O carro não parou. À frente o nada pra continuar. Eu quis. Eu fui. O carro seguiu para o ar. Eu não impedi. Eu me matei.

Não sei usar freios. Dou todo meu fôlego, todo meu ar, no que me convence. No que convence meu instinto. Eu vou seguir minhas intuições mais gritantes. Ela grita e eu me entrego… me entrego ao perigo que só uma coisa bonita consegue ter. Eu não tenho medo dessa estrada, os meus limites são nebulosos até mesmo pra mim e eu não vou mudar. E eu vou morrer. Eu vou morrer quantas vezes eu tiver que morrer. A morte não é o fim, morte é transformação, é renovação, é abraçar o desconhecido que te chama em cada poro. O caminho de casa é esse. Eu vou misturar os meus átomos, deixar minha alma sem escudos, eu vou me despir. Eu sou um pedaço de caminho sem fim.

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