Um mundo fictício que não é pra ser lido

Outro dia eu acordei com um insight na beira do cérebro, prestes a ser lindamente despejado em papeis digitais. Tinha tudo bem amarrado, ia dar um conto e tanto, talvez um livro. Os detalhes eram muitos, tinha de tudo. Sociedade e comportamento, trâmites políticos, entretenimento, paixão, verdade, lástima, revolta, competição. Isso tudo, de um universo e personagens fictícios. Vou tentar explicar mais ou menos esse mundo e suas peculiaridades. Era mais ou menos assim…

Os seres Putônicos viviam na terra, isso quer dizer: não eram da água ou do ar, mas até tentavam e conseguiam. Construíram moradia na terra, no entanto, e viviam em sociedade. Isso quer dizer: o que um não sabia, o outro sabia, ou dizia que sabia. E assim um ao outro se “ajudava”, muitas das vezes não passando das aspas. O auxílio não vinha de graça, pois a sociedade dos putônicos, vamos chamá-la de Putiedade, elegeu uma forma de recompensa para todas as ações cometidas, se não era de maneira física, havia uma “consciência de pagamento” imaterial, instintivo, sensorial. A troca de ações movimentava toda a sociedade, e os putônicos tinham cada um ideias diferentes de justiça, certo e errado, interpretação e significados. Enfim, era uma bagunça. Como viviam em sociedade e necessitavam das ajudinhas um do outro, alguém ou um grupo de putônicos tinha que mandar nas coisas. E assim haviam chefões de todas as ordens. A maioria, no entanto, deveria cumprir o que os chefões mandavam, e não era difícil. Quando se percebia no mundo dos putônicos, as coisas já eram daquele jeito, quando se percebia… já se era parte, condicionado, adestrado, por mero convívio, cultura. Bem lindo. De repente, o que parecia ter tudo pra ser uma bagunça, funcionava! Os putônicos tinham tanto em comum quanto não tinham. Talvez não era bem em quantidade, mas em pontos cruciais de suas existências. Basicamente, viviam para: reprodução, entretenimento e tornarem-se chefões de alguma coisa. Precisavam ser ou parecer bons reprodutores, gozar de ótimos entretenimentos e serem chefões de alguma ordem onde seu meio social central abrilhantaria os olhos pelo patamar atingido, oficial ou dado inconscientemente por “grandes feitos”. Cada uma dessas três áreas tinha um mundo só delas tão extenso pra abordar, e cada ponto possível de listar abria mais um submundo de riquezas, que meu insight me levou pra um pontinho específico dentro da segunda: entretenimento.

Os putônicos tinham como costume o exercício de jogos de competição. Além da graça que viam nessas atividades, eram movidos pelo outro item, aquele de ser chefão. Se era competição, alguém saía vencedor, oras. E consequentemente, por algum motivo que precisaria de não só um parágrafo como também de outro livro, quem se tornava chefão aos olhos dos outros através de um jogo de competição, também parecia ou se tornava um ótimo reprodutor. E todo putônico que se preze com certeza ia querer reproduzir-se com um outro que lhe adicionasse qualquer status de grandeza emprestado. E muitíssimas das vezes a reprodução não era algo de fato concretizado, ou sequer tentado, ou desejado, mas só se gostava de estar próximo de quem lhe aparentava um bom tipo. Seja por embasamento de capital reprodutivo, chefonístico ou entretedor, e se vocês ainda não entenderam: essas coisas se misturam. Sim, é meio complexo mesmo. Era pra ser um livro, ou dois, ou três, ou alguns, e eu preciso fazer apenas um post, então tentem me acompanhar, por favor.

Vamos mais no ponto. Dentre os jogos de competição que os putônicos se amarravam, havia um em especial que putônicos de toda a Putiedade curtiam muito. Mesmo os putônicos mais distintos um do outro. O embate chamava-se Putente. E se gostava tanto, mas tanto do Putente, que se alguns putônicos jogavam, outros ficavam pra assistir e até torciam, e até brigavam entre si. O joguinho era tão adorado que ao longo da História Putânica, os putônicos começaram a se profissionalizar naquele exercício de entretenimento. Começaram a surgir técnicas e treinamentos, estudos, mais público, apetrechos-padrão para demonstrar que putônico tal queria que grupo tal ganhasse, e logo, chefões para mandar e organizar aquela putanice toda. E claro, tudo movido por trocas.

Os profissionais do Putente ganhavam aquele tipo de recompensa física, que servia pra serem vistos como chefões. Porque chefão que era chefão não podia morar em um tipo de construção como os outros, não tinha o menor cabimento aparecerem com outros putônicos e coisas no geral vistas como comuns e alcançáveis pela maioria, e a ajuda física era a melhor forma de conseguir essas coisas de outros putônicos. Porque a troca imaterial e sensorial não era aceita pela maioria tão facilmente. Enquanto isso, os putônicos que gostavam muito de assistir, ganhavam esse outro tipo. Por que eles aceitavam facilmente? Porque o Putente mexia muito com eles. E porque mexia muito com eles que todos os chefões de todas as coisas da Putiedade trabalhavam para o acontecimento de embates de Putente. Simples assim. Porque eram legais e davam aos putônicos o que eles queriam. Porque os chefões eram donos de coisas que precisavam ser adoradas tanto quanto o Putente pelos putônicos. Porque os chefões precisavam que o putônico-comum, que não era chefão de nada relevante para a classe dos maiores chefões, que não era o tipo de reprodutor que um chefãozão gostaria de aliar-se e que também não era um profissional escolhido para o Putente, se sentisse bem. Caso contrário, os putônicos ficariam muito, muito revoltados, e aquele abismo entre suas ideias pessoais, interpretações, noções, quando percebidas, tornariam-se evidentes e toda aquela organização milagrosa da Putiedade despejaria. Assim como o Putente, haviam outras milhares de formas dentro do setor entretenimento que faziam os putônicos confortáveis em serem putônicos-médios ou putônicos-alguma-coisa. Nenhum putônico se acreditava um putônico-médio, os chefões não deixavam isso acontecer. Não era simples lidar com tantas maneiras de ser um putônico, por isso haviam tantos subgrupos entre eles, e por isso também que o Putente era tão valioso. Só o Putente conseguia unir, mesmo que como adversários, todos os tipos de putônicos. E por isso, uma montanha incontável de recompensas físicas para quem fizesse algo pelo Putente, qualquer coisa, qualquer, era movimentada. E a Putiedade parava pra ver os embates, porque os putônicos haviam desenvolvido uma tecnologia para atingir além da plateia presencial, coisa de maluco, quem tivesse em casa ou em qualquer outro local que houvesse a parafernália podia assistir, e junto com o Putente viam também vários símbolos de valores que os chefões acreditavam ser essencial que os putônicos tivessem, assim como lembrarem de suas existências como chefões, ávidos por uma ajudinha de toda aquela massa putânica, fazendo-os mais chefões ainda.

Louco, né? O que um grupo de putônicos contra outro, movimentando um objeto entre si até chegar numa área denominada putilância, e assim, a cada vez que o objeto chegava lá, um putônico, que se acreditava não querer nem que um nem que outro ganhasse, fazia um tracinho pra comparar que grupo tinha mais e quem teria mais ao final de tempo predeterminado sairia vencedor, conseguia fazer no mundo fictício que eu criei. Aí… Eu percebi que não dava pra escrever esse livro. Era muito surreal fazer as pessoas se envolverem com uma história tão sem pé nem cabeça. Não parecia convincente dizer simplesmente “os putônicos gostavam de se sentir parte de algo e queriam se sentir chefões por empréstimo do patamar atingido por outros putônicos, que por algum motivo acreditava-se representá-los, e eles só gostavam muito, muito mesmo do Putente”. Desisti.

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