Ferrolho de Porta de Banheiro

Os banheiros da rua sempre me dão ideias. Não sei bem se é o silêncio proporcionado por não ter o costume de tantas companheiras de gênero, o de chamar uma amiga pra acompanhar na ida, ou se é fruto do tempo ocioso na fila, entre uma reclamação compartilhada e outra sobre a égua que não se tem o menor conhecimento da vida, mas já se torna uma filha duma puta por demorar tanto. Bexigas não tem compaixão.

Numa dessas ocasiões, em um banheiro cheio de portas, que quando dentro de uma cabine se fica ouvindo o conversê alheio e rindo baixinho, mais um ferrolho quebrado. Mais um. Penso que homens não devem saber o que é isso. A não ser que sejam adeptos do número dois (a.k.a. cagar, pra quem não sabe) na rua, constantemente. Até porque, se o ferrolho tá quebrado, não tem muito problema, se está ali, bem equilibrado com os pés paralelos no chão, fazendo sua necessidade por uma torneirinha, de costas. A tríade da mulher moderna estampada nas revistas, mãe, profissional e dona de casa, não inclui que mulheres tem que desenvolver a habilidade de fazer xixi em pé, sem se molhar, segurando a porta. Até porque isso não tem importância alguma. Só pra mim, que me vi encarando esse maldito “mais um ferrolho quebrado” da minha vida. A sobriedade não era o meu estado e me ajudaria muitíssimo não precisar, além de fazer xixi em pé sem me molhar, me equilibrar nessa glória pra segurar a porta. Então, enquanto me aliviava, pensei em todos os motivos daquele diabo estar quebrado.

Azar, tinha que ser mais um azarzinho. Aposto como o do banheiro ao lado estava em perfeito estado. Porque sempre tem um, pelo menos, que se manteve firme e forte. Mas provavelmente era nesse que estaria um produto marrom (a.k.a. cocô, merda, bosta, tolete etc)  no fundo do sanitário. Abençoai os intestinos sem restrição! Então não podia ser azar eu ter entrado na cabine com o ferrolho quebrado, coisa pior tem.

Era culpa da economia de investimentos da casa. Compraram os ferrolhos mais vagabundos pra sobrar dinheiro pros guardanapos de se colocar no pescoço da longneck, aquele uso pro papel de fazer as árvores dos coleguinhas eco chorar sangue. Eu não vejo motivo algum praquele babador de garrafa, se alguém souber, me informe, preferia um ferrolho de primeira qualidade e arrisco dizer que se houvesse uma votação, estariam todas comigo. Não ao guardanapo babador de garrafa! O que queremos? Ferrolhos de qualidade! Aí tu pensa nas criancinhas das favelas e para de imaginar uma merda dessas. Não, claro que não, porque quem é usuário da imaginação ridículo-dramática (sim, é um gênero da imaginação efetuado por essa que vos escreve e mais alguns idiotas), não tem limites, já vê as criancinhas todas invadindo a casa de shows e lutando pela mesma causa. A fome se aguenta, quem não se aguenta são os bêbados. Coitadas delas, moço, tão aqui querendo curtir a festa, lhe dar o ganha-pão, mas tá complicado de não mijar as pernas tendo que segurar essa porta. Isso não é coisa que se faça. Tsc tsc tsc.

Talvez o ferrolho era sim o melhor do mercado, o problema foi o peso da porta num declive do chão, multiplicando seu peso por um número qualquer, exceto o zero, que ocasionou ao ferrolho, após tanto tentar e inclusive suceder, uma situação de “é demais para mim”. Quebrou. A física explica, eu não. Se não foi nada disso, foi o jeito que o artefato de encaixe fora fixado. Ou então foi culpa de alguma jumenta sem noção de sua própria força após o consumo de substâncias modificadoras do funcionamento normal do cérebro. Qualquer que tenha sido o motivo, no final das contas, as coisas tem prazo de validade. O manuseio errôneo acelera esse prazo, isso não modifica o fato de que há um. O jeito é trocar, ou ficar naquele malabarismo de ter que segurar a porta.

Aí, ali, com minha conclusão de aceitação das coisas, me vi a pior escritora do mundo, se eu viesse a escrever o que pensei. Escrevi no bloco de notas do celular: o pior escritor que existe é o que em tudo vê metáfora para relacionamentos. É só um ferrolho quebrado, só! E voltei a imaginar o protesto. O dono do estabelecimento passou a servir longnecks sem babador e ninguém mais precisou segurar a porta para se livrar de interrupções desconfortáveis. Até quebrar de novo. E tiveram que tirar as azeitonas dos martinis.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s