Quando Tocar o Céu da Boca

Voltamos do enterro e me pus a cortar cebolas pro almoço. Minha mãe saiu pra deixar o guri na escola, ele não entendia nada mesmo, então que estudasse. E eu ficava ali, esperando a cebola me ajudar. Suplicando pelas lágrimas, mesmo falsas, que nunca vieram. Ardência nos olhos, no peito, nos pés. E um corte no dedo manchando os quadradinhos de cebola de vermelho. A faca atraente, o sangue insuficiente para trazer alívio. Só mais uma ardência.

Os dias se arrastavam em horas sem sorrisos. Nenhuma paciência destinada à vontade de continuar dos outros, à aceitação prematura da minha mãe, às brincadeiras fora de hora do meu irmãozinho de quatro anos, às ligações superprotetoras da minha avó em outro estado. Mas ninguém ousava entrar no escritório dele, nunca trancado, só de porta encostada por um peso de areia no formato de uma tartaruga vesga. Assim, a sensação de que ele sempre poderia sair de lá, como de costume, perguntando se a vaca ainda ia ser abatida, se era preciso a ajuda de um de seus rifles de coleção pro almoço ser posto na mesa. Horrivelmente ambíguo, mas minha mãe ria, eu ria. Risadas não mais se ouvia, só as do meu irmão em frente a TV, sem sentir falta de muita coisa, sem sentir o nada que eu sentia. Eu o observava, com raiva e com inveja, ele não parecia pertencer ao mesmo mundo em que eu tentava continuar caminhando.

Gritaram meu nome da cozinha, não queria atender, queria me fingir inexistente, mas fui, em respeito a memória do meu pai e às repreendas constantes de que eu devia obedecê-la. O pirralho de pijamas agarrado nas pernas da mulher esperneava.

– Ajuda aqui, vai… Faz o café do teu irmão que eu tô lavando as coisas.

– E esse menino não sabe esperar, por acaso? Assim não tem como aprender a respeitar nada nem ninguém, se fica se fazendo todas as vontades na hora que bem quer…

– Então dê o exemplo, pra ele não acabar igual você.

Ele observava minha humilhação com gosto. Peguei o pote de achocolatado com raiva e despejei numa xícara deixando cair quase a mesma quantidade fora. Limpei a merda que fiz e bati a porta de casa às costas, deixando um nescau mal mexido pro pirralho.

Cris me recebeu com aquele olhar de quem me lê e entende. Me abraçou. Sentei na cama, desabafei um pouco, em frases soltas de lamento e revolta. No meio do meu monólogo, ele se deu a remexer nos livros. Virou-se para mim folheando um.

– Escuta isso: Família é ser escravo para o conforto dos outros, do respeito que não se tem, da gratidão que não se sente. Por isso escolhi o mundo, em vez da raíz que prende.

– Me identifico. Fazia algum sentido antes, ficar lá. Agora não mais.

– Não tá na hora de ir para o mundo?

Fiz o percurso de volta para casa sabendo exatamente de onde tirar a mala, contando na cabeça as mudas de roupa que levaria, o que não podia esquecer. Todos os argumentos montados na ponta da língua, ela não teria como me impedir. Entrei e passei direto sem olhar ao redor, não daria brecha a nenhum chamado. Tirei a mala do compartimento de cima do guarda-roupas, arranquei calças e blusas dos cabides, procurei pelo par de tênis branco. Parei por um momento sem conseguir encontrá-lo. Percebi no silêncio. O silêncio incomum de um final de tarde de sábado. Televisão sempre ligada, os passos apressados do guri pra lá e pra cá, minha mãe gritando “cuidado”. Que bom que estava sozinha, deixaria só um bilhete, seria melhor assim. Saí do meu quarto em direção à cozinha para a área de serviço em busca do tênis. A luz da cozinha ligada, estranho. E o cheiro de queimado. Cheguei à entrada sem portas. O ar foi sugado dos meus pulmões. Meus pés se desequilibraram no piso escorregadio. Senti os joelhos chocarem contra o chão. À minha frente, meu irmão olhava curioso para algo escuro em suas mãos, entre suas pernas, sentado. Ao seu lado minha mãe, de bruços. Os dois em uma poça vermelha. O cheiro de ferrugem escureceu minha visão.

O arroz um grude escuro e duro no fundo da panela. A carne crua na bancada. O escritório do meu pai um pouco revirado, algumas caixas abertas. O corpo sem vida da minha mãe levado embora. Apenas as pequenas impressões digitais encontradas na arma. Ele nada disse além de estar brincando com a mamãe e ter feito barulho. Começou a chorar quando as perguntas não pareciam parar. Um psicólogo foi tudo o que indicaram de necessário, uma vez por semana, para ele. Para mim, adulta, maior de dezoito com dezoito, que soubesse lidar e fosse responsável. Sobrou eu e ele.

Os dias se arrastaram em minutos inexpressivos. Ele parecia estar bem. Comia, assistia TV, soltava suas gargalhadas. Eu cozinhava, deixava e pegava na escola, varria, lavava, passava, dobrava, guardava, fazia nescau. No silêncio, no mínimo de palavras, tornei-me um fantasma ou uma pedra. Me entupia de remédios, amorteci todas as dores, desviei o caminho das lágrimas, eu era uma alma dormente. E o menino agia pavorosamente normal. A falta de compreensão da vida que tinha, ou da morte, me assustava.

Um dia dentro da terceira semana após o segundo enterro do mês, ele apareceu correndo no meu quarto, mostrando o dedão. Havia se machucado. Gotinhas de sangue se formavam enquanto ele pressionava o dedo. Limpei a ferida, fiz o curativo.

– Quanto precisa sair de sangue pra ir onde a mamãe foi?

Não respondi. O psicólogo me pediu para nunca entrar no assunto e deixar tudo com ele, avisá-lo de algum comportamento ou questionamento diferente, e só. Assim fiz.

Na oitava semana, e dias antes do seu quinto aniversário, o guri voltou no assunto. Sentado à mesa revirando a comida no prato, parecia concentrado, sorria por vezes, e logo voltava a ficar sério. Em um dos momentos de seriedade me indagou:

– Quando a mamãe volta?

– Nunca.

– Por que?

Me arrependi de ter respondido, dei o silêncio ao porquê. Ele continuou.

– Vamo visitar… Vamo conseguir dinheiro e ir… Papai deixou dinheiro, não deixou?

Dormi e a vi. Ela me dizia para ajudar meu irmão no que precisasse, e que eu precisava ter paciência e coragem para dar meu amor, que existia amor em mim. Esperei pelo papai e ele não apareceu, ele nunca aparecia. Um barulho seco no tímpano, minha mãe com um furo no meio do peito. Eu coberta de sangue. Me encaminhei à cozinha. A luz ligada, passei pela abertura. Ninguém lá. Um ruído de ar passando por dentes, de quem chupa saliva. Respiração pesada. Procurei ao redor, não havia ninguém. Me encaminhei para a área de serviço, abri armários, o volume do ruído aumentava. Uma puxada na barra do meu pijama. Virei. Mãos apertaram meu pescoço por trás me sufocando. À minha frente meu irmão em pé segurava um braço humano que arrastava no chão, o braço do meu pai, e me encarando, hipnotizado, levou a boca vermelha ao buraco de um dedo decepado e chupou.

Suor. Muito suor. Era meio da madrugada. Passei pela sala em direção à cozinha, as formas no escuro se transformando em espreita contra um quadro azul da luz que refletia na película das janelas. Substituí o fôlego por água e quando o ar vinha a preencher o espaço restante dentro de mim, um repuxo na minha calça. Caí, atordoada tateei o chão para me virar e me defender do que quer que fosse. Olhei ao redor. Nada. A bainha da minha calça presa no meu calcanhar.

Saí da cozinha desligando a luz atrás de mim. Passei pelo quadro composto de janela e sombras. Lentamente. Sem querer ouvir meus próprios passos. Uma sombra se moveu, veloz. Passos estalados ecoaram. Algo macio arrastava-se pelo piso da sala. O suor pregando na minha pele, o frio da espinha me congelou. Pressionei a fenda dos olhos com força, esperando por um barulho mais alto, as mãos no pescoço, o odor de lata velha. Esperei dois segundos. Um barulho. Minha mão no interruptor. A sala iluminada. Meu irmão me fitava do canto, a uns cinco metros, apático, abraçado ao travesseiro como se escondesse algo além de si. Nos encaramos por um momento. Escondi o meu medo por detrás da seriedade. O chamei. Ele não se moveu. O chamei novamente. Ele hesitou. Deu um passo para frente. Deu outro. Sem deixar de me olhar, sem desviar seus olhos frios, sem vida, dos meus. Percebi um sorriso salientar-se no canto de sua boca, tímido. O travesseiro preso por um dos braços contra o corpo, pendeu para a direita, revelando o início de seu outro braço. Aceitei o meu destino. Primeiro meu pai, que eu não aceitava ter cometido suicídio, não acreditava, e depois ela. Agora era eu a companheira de brincadeira. Ele diria “mãos ao alto?” como o policial da série que assistia? Onde pode ter arranjado outra arma? O escritório. O escritório que eu ainda não havia tido coragem de limpar. Dar as coisas. Que se mantinha entreaberto com um peso de areia revestido de tartaruga, como se ele pudesse sair de lá a qualquer momento e me dissesse “daqui a pouco o seu irmão lhe bate e vai começar a doer, aí você vai se arrepender de tirar do programa dele só pra chatear…”. O menino apressou o passo em minha direção, agora com os lábios formando uma meia lua de sorriso. Tentei falar alguma coisa, nada audível. Ele continuou vindo, o travesseiro arrastando no chão, as duas mãos ocupadas nele. Ele passou e se dirigiu ao quarto. Não consegui ouvir meu suspiro, mas o movimento do meu peito denunciou o alívio.

Eu morava e cuidava do demônio. Quatro anos, e sem qualquer indício de humanidade. Nenhuma compreensão do que é a dor da alma, vivendo para suprir necessidades. Nenhum sinal de real emoção, exceto o entretenimento de quem não tem nada com o que se preocupar. Seu destino em minhas mãos, ao que aparentava, mas o meu que estava nas suas. Algemada em sua pequena e destruidora existência.

Acumulei coragem e entrei no escritório no dia seguinte, depois de deixá-lo na escola. Ainda revirado. Nada senti. Em ações automáticas como um cão bem treinado me pus a arrumar. Abri armários, caixas, folheei papeis. Muitos foram para o lixo. Purificação a cada reserva de itens para doar, a cada papelada inútil na lixeira. Um álbum. Um álbum meu. Ali estava eu recém-nascida, arroxeada, um bolo de carne prematuro. E depois nos braços da minha mãe com ele em pé ao lado da cama de hospital. Meu batizado. Meu primeiro aniversário. Cada fotografia com uma legenda, “minha menina abrindo o primeito presente de natal”, a vida tranquila que sua menina um dia teve. A pressão no estômago subiu para a garganta, ia vomitar. Expeli um grito soluçado, fechei o álbum num tapa, meu corpo inteiro chorava, meus olhos não. O tremor dos dedos dos pés aos ombros. Me impulsionei a continuar o trabalho.

Esvaziei mais um compartimento de envelopes, no fundo três caixas de madeira. Uma era o abridor de vinhos velho do meu avô, item de família há algumas gerações, em outra cartões antigos de felicitações, na última, uma caixa com entalhos trabalhados, mais um item de sua coleção. Fitei o interior da caixa por um momento. As outras duas joguei no lixo, essa guardei comigo.

Era a noite do quinto aniversário do menino. Não havia lhe dado parabéns, feito bolo, nem nescau com granulados de brigadeiro como nossa mãe costumava fazer. Apertada em minhas mãos a caixa de madeira entalhada. Fui ao seu quarto, onde já de pijamas se preparava para dormir. Sentei na cama, ele me olhou com curiosidade, tinha pena em seus olhos. Não desviei.

– A mamãe te mandou um presente – disse.

– Sério? – uma súbita empolgação lhe tomou a face.

– Uhum. Ela me ligou e disse que sabia que você sentia sua falta. Pediu que eu lhe ajudasse a ir encontrá-la.

Ele ficou maravilhado. Lhe entreguei a caixa. Lhe disse como fazer.

– Espere eu sair. É só apertar aqui com força quando tocar o céu da boca.

Ele assentiu ansioso.

– Feliz aniversário.

Voltei ao meu quarto e esperei. Alguns segundos se passaram. O via chegar ao meu quarto a qualquer momento, com seus passos curtos e leves, que faziam estalos. Desejei que o fizesse. Não me importava, contanto que aquilo acabasse. E então um estampido. Alcancei o telefone e disquei. Estava livre.

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