TPM: Uma Jornada – TPM não é Jesus Cristo

TPM poderia ser uma sigla existente em cantigas educacionais infantis, daquelas de botar medo. Se uma mitologia fosse a ser originada nos dias de hoje, inspirada no humano contemporâneo médio, a TPM seria, sem sombra de dúvidas, representada como algum monstrengo poderoso de força sobrenatural, e cheio de lábia. E mesmo não existindo essa entidade mitológica, a TPM paira como uma nuvem surreal na vida de muitos, e é vista sim como um mito, uma bobagem, uma desculpa esfarrapada.

TPM: Uma Jornada está dividida em dois posts e quatro sessões. Aqui as duas primeiras, onde eu conto um momento da vida quando eu quis querer arrancar a cabeça de uma mulher com os dentes e uma explicação plausivelmente científica para tal. No próximo post “A minha teoria que eu gosto de pensar” e “Um paralelo entre a incompreendida TPM e o que os homens acreditam que não dá pra entender”.

Uma historinha introdutória:

Uma vez eu conheci uma mulher que, vestida em um tubinho douradíssimo num final de tarde na praia, conseguiu a proeza de ter a soberba como elemento cegante. Pesquisadora, destemida e com algum trauma de infância (sic), comentava com ironia misteriosa sobre um “mito” chamado TPM, sensual se fez aos homens em demonstrar como não era uma mulher igual as outras, tirando as curvas que seus trinta e poucos anos não deixavam em nada a desejar, ou muito a desejar. Os comentáriozinhos nebulosos e irônicos tratavam ter tido como resultado de uma pesquisa que a tensão pré-menstrual era, basicamente, uma historinha pra boi dormir. Apesar de às vezes parecer que eu faço rodeios e me delongo desnecessariamente pra chegar a um ponto central, eu tenho real apreço ao papo reto, por isso a ela me direcionei amigavelmente, apenas por uma questão de “vamos deixar bem claro?”,  mesmo sem termos sido apresentadas: “tu tá dizendo que TPM não existe?”. Ela, sem conseguir sustentar meu olhar talvez por crer que havia me ofendido com seu posicionamento, me deu um “sim” sem dizer “sim”, mais uma afirmação cheia de nuvens. “Tu não tem TPM, né?”, nem me importei com o ultrapassar limites da não-intimidade. E ignorando a atenção que lhe dava e meu interesse pelo assunto, jogou os cabelos para o lado e confirmou o que eu imaginava, ela não sabia o que era. “Não, nunca tive?”, e voltou-se a olhar para o outro lado. Seu tom interrogatório indicativo de “estou bem aqui no alto, querida” só me fez dar-lhe um soco bem no meio do nariz, na minha imaginação, mas ainda não conseguira me fazer parar a tentativa de diálogo. “Engraçado, eu nem marco o dia que vou menstruar, mas sempre sei que tá chegando quando me dou conta que tô na TPM, sabia? E é batata”. O que ela ia dizer? Os olhos disseram “pobre coitada que se engana” e a boca entortou-se num sorrisinho cínico, antes de voltar a ignorar minha presença. TPM não existe e ponto final com aquela dali, ~pesquisadora~, sabe? “Se eu tivesse na TPM tu que deixava de existir”, balãozinho de pensamento sagitarianamente dramático em cima da minha cabeça.

Ao longo da vida eu precisei lidar com um questionamento e uma afirmação negativa de sumir com a íris revirando os olhos pra dentro da cabeça. “Tu acredita em TPM?” e “Não acredito em TPM”. TPM não é a divindade de Jesus Cristo, meus queridos. TPM não é Deus, não é a fidelidade do seu cônjuge, não é a palavra da sua mãe. TPM não é uma questão de crença. TPM existe. Para algumas felizes criaturas, como nossa colega do primeiro parágrafo, ela se esconde. Contudo, todo mundo já sofreu devido à síndrome, inclusive e principalmente quem não tinha nada a ver com isso.

Uma explicação científica na minha (e na sua) língua:

Vamos entender uma coisa que existe: hormônios. Com os homens o gráfico mostra uma curva que vai subindo, vai subindo, vai subindo, fica lá em cima e depois vai caindo, caindo, caindo, ao longo da vida. Com as mulheres, essa curva sobe e desce num ciclo de aproximadamente 28 em 28 dias, o ciclo menstrual. Assim que a menstruação encerra, a curva começa a subir com o estrogênio, hormônio responsável pela ovulação, toda aquela preparação inicial do organismo feminino pra desenvolver uma vida, e não só: é o que faz uma mulher parecer mulher. (E homens também, veja aqui e aqui). Por volta do décimo quarto dia do ciclo, a produção de estrogênio começa a cair e a de progesterona a subir, e a progesterona termina aqueeeela preparação convidativa do “vem, neném”, o famoso e temido período fértil, óvulo no lugar certo, útero bem vascularizado, e você sendo mulher ou você conhecendo uma mulher já deve ter ouvido falar em “inchar” nessa época, não é à toa.

Agora, veja bem, esses dois hormônios são fabricados nos ovários e não agem sozinhos, para tudo isso ocorrer em exemplar sintonia com a natureza é preciso existir um cérebro. Um cérebro que lá no fundilho tenha um troço, ou glângula, do tamanho de uma ervilha chamado hipófise. A hipófise, pra quem não lembra das aulas, é chamada de glândula-mestre do sistema nervoso, porque lá de cima regula a atividade de outras glândulas e diversas funções do organismo, como o crescimento dos ossos, síntese de proteínas, seus rins funcionarem direito, o seu metabolismo basal, te ajuda, homem, a produzir espermatozóides, auxilia na regulagem da contração dos vasos sanguíneos, blá blá blá (insira aqui todo o funcionamento perfeito do seu corpo), e faz o ciclo menstrual acontecer dando uma mãozinha com dois outros hormônios, chamados hormônio folículo-estimulante e hormônio luteinizante, só à título de curiosidade, que atingem um curto pico de concentração pro ovário liberar um óvulo para dentro das trompas.

E essa glângula hipófise, esse carocinho poderoso, está ligado a uma outra doideira do cérebro, ladies and gentlemen, ao hipotálamo. Esse, mais graúdo, assim como uma castanha do pará, regula o que a hipófise faz e faz mais. Dentre controlar a temperatura do seu corpo e seu apetite, ele manda no comportamento sexual (o do organismo, não na sua cantada de pedreiro, OU NÃO) e nas emoções. Vamos ler de novo: emoções. Emoções são neurotransmissores, são hormônios, é química no e do cérebro. E eles são jogados pra lá e pra cá, indicam caminhos aqui, chegam ali. E agora tudo se abre como o universo: não existe uma coisinha sendo feita ali que não influencie outra coisinha sendo feita aqui. Isso tudo sendo dito para chegar a essa óbvia conclusão ululante, mas precisamente necessitada de lembrança. Tudo, tudo, TUDO, se influencia. Dentro do seu corpo acontece o mesmo, e ele tem uma inteligência única.

Voltando às mulheres e seus hormônios e o gráfico flutuante de 28 em 28 dias e sua TPM. Os hormônios na mulher estão em constante impulso de foguete ou em queda livre, certo? E isso não acontece sem ser notado ou sentido. Sem influenciar o resto do organismo. Não é sem qualquer explicação mulher ser vista como “de lua” pros machos que não tem seus hormônios interferindo na produção de serotonina. Nas mulheres, os hormônios femininos interferem. É sabido que a serotonina, o neurotransmissor responsável pelo humor, pelo contentamento, passeia pelo hipotálamo, influencia no sono, no apetite, na vida sexual etecetera, apresenta baixas taxas no momento pré-menstrual em um número grandioso de mulheres. OU SEJA, se esse diabo de serotonina não tá ali em quantidade suficiente, depressão, irritabilidade, tudo isso, fica facinho, facinho facinho. Por isso que você vê muitas fêmeas loucas por doce, chocolate, querendo se esbaldar num pote de sorvete assistindo comédia romântica, porque essas guloseimas estimulam a produção de serotonina. E eu tenho a impressão que comédias românticas também.

Existem outras causas, outros desequilíbrios que fazem cada tipo de TPM, porque além de ser um monstro, ainda tem várias cabeças. Se encontramos excesso de estrogênios ou baixas em progesterona, alguma deficiência num tal de PGE1, retenção de sódio… resulta em alguma coisa, como dores de cabeça, ganho de peso, esquecimento… Vixe.

Então, sim, TPM existe. E não entremos no ponto onde mulheres usam essa belezinha como desculpa por virar o demônio. Mas também saibam diferenciar um demônio de uma pessoa sensível e vulnerável.

***

=to be continued=

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