Fugi do meu dentista porque não conseguia sorrir

Às vezes é necessário uma dose de Woody Allen, uma xícara grande de capuccino e toda sua companhia à sós pra te tirar do inferno. Essa era a meta quando peguei o carro, além do desejo por um jantar salada. Fui onde sabia que tomaria o capuccino perfeito, a salada ficaria nas possibilidades opostas da surpresa.

Lugar vazio, muito prazer. Me dirigi para a área dos doentes mentais fumantes, a única com vivalma, mas ninguém conhecido, vi por alto, ainda bem. Um moço ali acompanhado de seu smart phone, uma senhora ali com um rapaz, e… me enganei, um perfil reconhecível. Passei direto e me sentei de costas. A figura conhecida tomando forma na cabeça: meu dentista. Por todos os Santos do Mau-Humor, eu não conseguia nem sorrir, a opção de fingir não ter percebido a presença me pareceu a única, ainda mais agora que eu já havia sentado, e de costas, no melhor impulso antissocial não ensinado pelos senhores meus genitores.

Pedi o capuccino. Abri o cardápio em busca da salada, achei, pedi. Capuccino chegou, cremoso de transformar o esôfago. Peguei a carteira de cigarro. Remexi na bolsa. Isqueiro. Isqueiro? Cadê? Puta merda, esqueci no carro. Mas eu não podia levantar, seria arriscado demais para a educação ir até o carro, então decidi ir só até o balcão em pedido de socorro. Levantei-me e segui o rumo da venta, sem inspirar qualquer suspeita de perceber arredores. Consegui o isqueiro e voltei, fechando a porta com as minhas costas para a situação social sem assunto. Sentei de volta. Ufa. E me entendi muito bem com a nicotina, a cafeína e a loucura woodyallenesca. Menos com o vento. Ali, dizendo com todas as letras que vinha, bagunçava tudo, e ia embora, mas que voltava. E sempre voltava.

A situação social de ignorar presença não me fazia esquecê-la, mesmo quando toda a certeza de melhor escolha era inquestionável. “Fugi do meu dentista porque não conseguia sorrir” aparecia num letreiro luminoso a cada piscar de olhos, aquilo tudo era muito ridículo, e fazia um sentido tão doentio que beirava o reconfortante. Microfones logotipados de emissoras de TV eram enfiados no meu nariz. “Por que você não falou com o seu dentista? Ele lhe fez alguma coisa? É algum receio crônico da utilização da broca? Você acha que se ele lhe visse ele ia querer futucar os seus dentes?”. E tudo o que eu consegui responder aos microfones foi: Eu até utilizaria bem a oportunidade de mostrar-lhe meus dentes para a crítica, ele veria como andam bem cuidados, exceto por esse cilindro que carrego no dedo. Mas o problema é que não consigo mostrar os dentes. E se optar pelo sorriso sem eles, ainda estaria lhe dando uma careta, e seria capaz de ele sair correndo de assombro. E então eu ri, ri feito um alien, momento propício pro garçom chegar com a minha salada. E que salada! Exclamei: vixe, mas é pra trinta, né? Com o que ele me responde: “mas é só folha! Num dá nada!”. Vou dizer o quê? Que dá? Dá nadinha não. Folha it is. E foram. Um monte pro chão.

O vento, que como disse, vinha, bagunçava tudo, e voltava, voltava. E vinha e voltava. E vinha… e ficou nessa. Ai meu deus, como eu vou conseguir comer isso? Duas mãos era o que eu tinha, um garfo, uma faca e um pegador, administrei todos como peso de papel, e ainda assim… plano falível. Alface voava. Melhor eu ir lá pra dentro comer isso. Não posso! Como que eu vou passar por lá sem falar com meu dentista? Seria muito mau educado da minha parte! Croutons viraram pesos de folha também. E os pedacinhos de frango. E eu segui ali, numa técnica que só o improviso pode explicar, mas folhas voavam. “Mas que jantar, hein?”. Susto. Minha boca cheia de folha. As mãos ocupadas na travessa daquele matagal alimentício. Viro e dou de cara com o sorriso mais amigável da esfera planetária, e o mais invejavelmente branco também. Meu dentista. Engulo fazendo força pra conseguir responder. E tudo o que sai da minha boca é o desespero: né! Jantar revoltoso! Tô tendo que segurar tudo pra não voar!

Muito bem, Laila. Muito bem. Pra quê confessar o drama? Pra deixar a pessoa sem ter o que dizer. “Ah…”. Pois é. Tudo bem?? Tudo bem. Tudo bem também. E aí?? Beleza! Silêncio. Não houve cumprimento físico, eu não podia levantar, perderia meu jantar, eu não poderia tirar as mãos de cima da salada, perderia meu jantar! E então ficamos ali nos encarando por dois segundos, eu encurvada e encaretada, ele desconfortável pela minha existência patética. “Manda um beijo pra tua mãe!”. Joinha. Eu consegui mandar um joinha. Uma folha voou. E eu mandei um: joinha. Uma folha voou pra eu mandar um: joinha. E meu dentista foi embora. Olhei pra alface no chão e pensei: alguns são sacrificados em prol das piores ações.

O que me tirou do inferno não foi o café, nem o livro, mas o meu dentista e um diabo de salada voadora. No carro, voltando pra casa, concluí por mais uma vez na vida: o inferno deixa de existir a partir do momento que você ri da própria cara. E eu não fiz outra coisa.

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Um pensamento sobre “Fugi do meu dentista porque não conseguia sorrir

  1. Isso viraria um CURTA e animado! (fui imaginando cada cena da tua pessoa em desenho com caras e bocas e o dentista um galã) UAHAUHAUHAUHAUAHUAHA tou rindo alto demais. Bueno, eu te dou um tapinha nas costas por entender totalmente a situação. Passei por ela many times.

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