A cor do respeito

“Filho de uma puta, corno safado! Nos explora nessas horas extras pra quê? Pra encher o cu de brilhantes dessas vadias que quanto mais cifrões se mostra, mais elas ficam molhadas! Velho desgraçado pau mole!”, Horácio tomou fôlego, e continuou sua revolta sibilar, a face se despedia do sangue concentrado e uma das espessas sobrancelhas arqueava em suspeita, “sabe o que eu acho? Que ele anda roubando todas as ideias daquele grupinho de estagiários que se danou a passear por aí pra bancar o descolado. Sabe o que eu to falando, né? O famoso benchmarking de potencial. E os coitados ficam lá, chupando o saco enrugado do velho, tentando impressionar…”. Calado como fiquei, os passos caros ecoaram pelo saguão daquele prédio que não tardei a nunca mais querer retornar, e saímos rua afora.

Desde a minha promoção, Horácio fora o único da velha guarda a me convidar para almoçar. Nos sentávamos em algum restaurante nas proximidades e ele fazia questão de que eu comesse o mesmo que ele “pra ser mais rápido na cozinha, entende?” ou porque “é o melhor prato da casa, se pedir outra coisa é burrice!”, assim como eu pre-ci-sa-va experimentar “e eu até te daria uma prova do meu, mas aí tu ia querer comer todo o resto! há-há!”. E eu o deixava fazer como queria. Se já me sentia obrigado a conviver e lhe dar ouvidos para não me trazer problemas, que eu ao menos tirasse algum prazer em vê-lo inventar novas desculpas para mascarar o fato de que lhe aborreceria enormemente perceber que o prato que havia escolhido era mais apetitoso que o dele. Horácio era assim.

Quando sentamos à mesa do Le Pendant naquele começo de tarde de segunda-feira, Horácio precipitou-se a gesticular para o garçom conhecido e a abrir bem a boca, acompanhada dos olhos, em todas as sílabas de “dois camarões provence”, objetivando a leitura labial como se não estivesse quase berrando o pedido. Se Horácio não fosse assim, teria demorado menos para que eu quisesse deixar aquela vida.

“Mas olha, eu respeito o velho. Um cara no ramo há décadas e nunca saiu do topo. Nunca precisou se desfazer das extravagâncias, como aquele helicóptero que todo mundo torceu o nariz quando ele comprou pra ficar aí de ponte aérea pra casa…”.

Aqui, quando ele me falava cara a cara, eu já não tinha como optar pelo silêncio, soltei um “É…”, e Horácio deu-se por satisfeito, emendando mais colocações. Só que não ouvi. Meus ouvidos se prenderam no “eu respeito o velho” e uma gama de significados se desdobrou como um origami em retrocesso. Respeito. Um conceito que antes sempre estivera no automático da compreensão, desabrochou visivelmente todas as suas faces.

O respeito que se dá é o respeito que se quer. Não no simples aspecto de reciprocidade social, mas no de sentir e ver o “respeito”. A educação tem o seu respeito de não ultrapassar os limites do outro, o que seria o não faltar com o respeito, apenas uma norma, e também uma estratégia, de convívio. O respeito de reconhecer alguém como bom no que faz, e ainda: no que é melhor do que você. E quando entramos por aí… Quanta frustração. A competitividade que se não é levada para desenvolver-se de maneira saudável, impregna a inveja, e quando esta inveja é percebida, o invejado preenche-se de vaidade. Vaidade que supre o ego e repentinamente o motivo de estar vivo é revelado, a vida tem recheio.

O respeito a alguém pelo status que se tem, porque muitos lhe babam o ovo, ou como Horácio diria: chupam-lhe o saco. As palavras elogiosas de interesse, o nervosismo no trato com alguém poderoso, a admiração pela beleza genética ou árdua em disciplina de exercícios, os olhos felizes em ver o que o outro possui, uma bolsa, um colar, o helicóptero. Os prostrados pelos prêmios recebidos, pela opinião pública. A opinião pública sobre quem ninguém vê cometer falhas, ouve lançar comentários politicamente incorretos, sabe que pagou uma puta, e não quer dizer que não o faça. O respeito de tantos me pareceu a coisa mais ridícula do mundo. Um respeito que eu simplesmente não tinha, e portanto percebi: não queria.

“… mas é assim mesmo, né?”. Horácio finalmente terminara seu discurso, e isso foi tudo o que ouvi. Sem saber, eu podia concordar: era assim mesmo. Tudo “é assim mesmo”, né? Então concordei com a cabeça. Aquele assentir triplicado e lento, de quem com certeza não só ouviu perfeitamente como quem sente igualmente, sem tirar nem pôr, o mesmo. E graças a Deus os camarões chegaram e Horácio encheu a boca de comida, deixando meus ouvidos vazios para o jazz ironicamente tranquilo do Le Pendant. Na minha cabeça, o verão tempestuoso de Vivaldi.

Os camarões pareciam pedregulhos, o arroz areia, as notas do piano me faziam de boneco de vodu. Todos os meus sentidos traídos pelo meu cérebro. Onde eu fui me meter? Comigo era assim. Eu sabia muito bem que estava indo contra o fluxo da minha natureza quando aceitei aquele emprego, sabia com que tipo de pessoa teria que lidar, o que eu precisaria fazer para sobreviver e crescer dentro do negócio. E eu só tinha passado de isca para peixe pequeno naquela odiosa cadeia alimentar. “Está decidido”, pensei. Vou largar tudo isso de mão. Peço minhas contas hoje. Melhor, vou me fazer ser despedido. Aí consigo um bom dinheiro pra me sustentar por um tempo. Não vou morrer amargurado, vou voltar à escultura. Sim, o barro, o desbastador, as unhas sujas por dias. Reencontrar os velhos amigos, conhecer gente que eu possa respeitar por ser gente, como eu.

Ninguém me respeitava porque eu estava no lugar errado. Era só isso. Eu não respeitava ninguém além do obrigado, porque eu estava no lugar errado. Minha vida estava descolorida. Uma urgência me subiu pelo ventre, eu precisava respeitar! Há quanto tempo não falava com alguém que me despertasse o real sentimento de respeito? Aquele de admiração por um belo espécime de humanidade? Havia me tornado um peão do tabuleiro da vida alheia, da opinião dos meus familiares e da necessidade de conseguir pagar todas as parcelas de um carro luxuoso para provar a felicidade. Não mais. Eu ia engolir aqueles pedregulhos pela última vez.

Quando cheguei de volta ao escritório, despistei Horácio com a desculpa de “banheiro” e me dirigi à sala do velho. Não me despediria dele, não teria seus olhos indagativos sobre meu estado mental. Tudo ao meu respeito naquele trajeto ao salão triangular  exalava confiança. Senti ser observado com atenção por duas ou mais mulheres. Estufei o peito mais ainda. Coloquei as duas mãos em cima da mesa da secretária e pedi para falar com Ele. Ela me olhou com curiosidade, uma curiosidade sensual, eu achei. Um outro peixe pequeno estava sentado no aguardo. Ainda a me observar, ela discou dois dígitos, leu meu nome no crachá e avisou o velho de minha presença. Nem me espantei quando ela levou o telefone de volta ao gancho e me disse que eu podia entrar. É como dizem, quando você toma o caminho certo, as barreiras caem sozinhas. Me dirigi à porta e minhas costas foram fuziladas pelo homem que provavelmente aguardava ser chamado há horas.

1 minuto se passou e eu saí. Meu peito mais estufado que nunca. A vida colorida. Recebi um aumento e toda minha urgência por respeito fora esquecida. Até ontem, quando recebi outro aumento.

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