John Frusciante – WOW #4

“Frusciante” é um nome de origem italiana, “ante” chega de sufixo dando um estado à coisa de estar ou fazer o que o início da palavra sugere, como em “viajante”, um particípio presente. O que o cara faz, ou é, tem algo de frusciare, sussurrar, farfalhar. Coincidência ou não, influência ou não, os nomes desabotoam peitos. Viagem ou não, John Frusciante entrega em som suavemente o que é feito de delicadeza ao mais desesperado, elétrico, intenso ou rompante sentimento. São ondas envolventes até no que há de mais delirante e perturbador. Tudo faz sentido quando é sentido. É simples como parece.

Essa deve ser uma das maiores paixões da minha vida, deve ser uma das coisas que eu sou mais grata por existir, porque na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza, tudo o que ouço molda-se em abraço ou camisa-de-força, toma a forma do que eu preciso sem eu ter a consciência de qual necessidade seria essa. Encaixa, desperta, acalma, apoia, reflete. Faço das minhas palavras perdidas a escultura de som e silêncio que vem acompanhada por esse nome, John Frusciante.

Existem alguns motivos pra esse WOW, além do fato de eu ser apaixonada pela música dessa criatura. Primeiro, esse é um depoimento lindo sobre música, concedido à equipe do documentário The Heart is a Drum Machine (que também vale muito a pena ser assistido, façam a nota mental), e não fala só de música, fala de muito mais, e na minha opinião, esse “mais” diz respeito a todos, vejo como basicamente a relação do indivíduo com o mundo e consigo mesmo. Em segundo lugar, esses 45 minutos de falatório conseguem tocar em pontos os quais foram esclarecedores para mim nos últimos anos da minha vida. E eu não sei nem expressar o tamanho da falta de solidão ao receber certas conclusões já entranhadas em mim pela boca de outra pessoa, ainda mais essa outra pessoa sendo alguém que me causa já tamanha sensação de pertencer a esse mesmo mundo que tanto já senti não ser o lugar que eu deveria estar. É muito do que eu gostaria de falar a tantas pessoas, é muito do que eu falo para minha própria cabeça. Acredito que esses dois pontos bastam, mas adiciono: esse depoimento tem o poder de te deixar suave, mesmo que excesso de análise te perturbe. Tudo faz sentido. Só isso.

Pra facilitar, transcrevi a entrevista completa em português. Segue abaixo:

“Eu acho que a força que nos criou se expressa através da nossa existência. Eu não acredito que uma ideia musical começa no seu cérebro, acredito que comece em um lugar antes disso, um lugar o qual não temos qualquer contato direto. E acredito que tudo o que fazemos, tudo o que criamos, é a natureza se expressando, da mesma forma que uma flor cresce do chão ou uma árvore, é a natureza se expressando. Você pode dizer que uma árvore se expressa pela forma como seus galhos crescem, mas é a força que direciona a natureza. A coisa visível, aparente, aos nossos sentidos. Mas isso não nos mostra a fonte, a razão disso se perpetuar.

Música é uma coisa inefável, que eu não acredito que palavras realmente consigam nos dar um verdadeiro entendimento a respeito. Somos capazes de fazer contato com essa corrente, essa força criativa do universo, uma certa fonte, deus, ou como queira chamar. Somos capazes de nos conectar com essa inteligência, aprendendo uma linguagem musical, aprendendo um instrumento musical, aprendendo como identificar um som e um sentimento, e ser capaz de aprender como expressar esse sentimento gradualmente através de um instrumento. Eu sinto que… Não é como se simplesmente… A ideia de alguém se considerando o responsável por uma música é ridícula, nós estamos apenas agindo dentro das leis da natureza que nos deram as possibilidades de explorar com a inteligência que nos foi dada. Você tem algo como o espectro de frequência de alto para baixo, é com isso que estamos trabalhando, isso está aqui você estando ou não, existe, é parte da estrutura física da realidade, e nossos cérebros estão aprendendo a interagir com isso ao aprender um instrumento, ou em usarmos nossa voz de certa maneira. Mas as possibilidades são apresentadas nesse tipo de forma invisível e silenciosa, elas estão apenas lá. Sons, as leis da acústica… elas são o que são. O espectro de frequência é o que é, as doze notas, a escala de oitavas, eram só coisas aí esperando para serem descobertas, mas já era uma possibilidade matemática antes de… qual é o nome? Argh! Pet… Pet… Droga, não consigo lembrar do nome dele. (“Pitágoras”). Pitágoras! Pitágoras pensar nela. E, então, eu só acredito nisso, não era como se ele estivesse inventando algo, estava lá esperando ser inventada, estava por perto esperando alguém descobri-la, e eu acho que é assim com qualquer trecho musical. Eu acho que é a grande mentira que tem sido perpetuada desde que a máquina de fazer estrelas de Hollywood começou.

A máquina de fazer estrelas de Hollywood tem perpetuado a mentira de que a imagem é a coisa, a coisa responsável por um grande ator ou grande músico, isso só tem sido continuado pela indústria da música. Eles colocam essa ideia na cabeça do público de que a imagem física de uma pessoa ou o nome de uma pessoa que é o responsável pelo que criam. E não é. O que cria é a imaginação… A coisa que torna possível uma pessoa estar no  lugar certo, no momento certo, em suas vidas para criar o que criam. Tem a ver com uma estrutura realmente complexa da mente e da alma, e do sistema nervoso, tudo, todas essas coisas desconhecidas que estão tomando lugar no subconsciente, que podem tanto ser estruturadas por coisas horríveis quanto por boas. Uma pessoa pode ser nada além de abusada e colocada para baixo sua vida toda, e por qualquer que seja a razão, sua vontade de viver, seu amor por música, seu sentimento por música… e todas as coisas fodidas que aconteceram com ela… todas se combinam para fazer a perfeição. Por exemplo, alguém como Jimi Hendrix tendo uma vida muito difícil no seu crescimento, e ainda assim isso foi exatamente o que o fez a pessoa capaz de fazer a linda, perfeita música que fez. Ou algum tipo de desvantagem, como Beethoven ser surdo. Coisas que aparentam serem desvantagens, de alguma forma, na complexa rede da inteligência do universo, acabam funcionando para fazer essa perfeição. Eu realmente não acredito que alguém faria isso com algum tipo de vida perfeita, e isso tudo são coisas que não dá pra explicar. Ninguém entende o porquê de resultar nisso. Não é porque Jimi Hendrix tinha a aparência que tinha, não é porque ele dançava como dançava, ou porque seu nome era uma porra de Jimi Hendrix. Essas coisas não significam nada, e ainda, a forma como a indústria utiliza as ferramentas da mídia perpetuou essa ideia de que o que importa é que ele é o melhor guitarrista que já existiu, que ele é “Jimi Hendrix” e “essa é a foto dele”, “esse é ele”, e sabe, a única imagem real dele é sua música. A única coisa que deveríamos colocar em um pedestal é o trabalho da imaginação de alguém e é a própria imaginação que deveria ser fornecida pelas pessoas responsáveis de levar a música de alguém para um público. É a verdadeira estrela da coisa toda, eu não acredito que o ser humano é a estrela, eu não acredito que o seu nome é a estrela, eu acho que é a sua imaginação que é a estrela, só porque não é algo que você pode empacotar, que você pode tirar uma foto, só porque é algo que não se pode medir por “é número 1” ou “foi vendido tantos”, ou “tantas pessoas amam isso”, ou “esse tanto de gente vai aos shows”. Não há uma forma de quantificar a imaginação e não há como vendê-la diretamente. Acho que é só isso.

Assim que eu comecei, eu realmente achava que era eu que agora estava sendo esperado após anos praticando no meu quarto o tempo inteiro, eu achei que agora era eu que esperavam ser bom, no comando, sabe? Eu entrei em uma banda que na época era a minha favorita e então, não foi como o mesmo tipo de desenvolvimento musical que uma pessoa pode ter por só seguir sua intuição, seguir o curso de seus interesses, e imaginação, e eventualmente tropeçar em algo que realmente se sente como a coisa que se está aqui pra fazer. No meu caso, eu entrei em uma banda, e basicamente estava sob uma tremenda pressão de ser apreciado, de ser bom, e eu gradualmente percebi que todas essas preocupações realmente atrapalham o pensamento criativo, o sufoca de verdade. Quanto mais eu saí  do caminho, mais eu fui parando de acreditar que era eu que estava fazendo aquilo, mais eu dei permissão para a força que me faz sentir o que sinto de ser a coisa a carregar tudo, controlar a coisa toda. Eu só descobri que música era algo que estava ali, não era pra ser algo a ser forçado, não era algo que eu deveria me colocar sob qualquer pressão para fazer, eu só senti que era algo que acontecia. Infelizmente eu já estava tão desequilibrado por ter me colocado sob tanta pressão por uns anos que no tempo que eu fiz isso, eu não entendia o porquê de sentir o que estava sentindo, provavelmente não podia articular isso tão bem como consigo agora, então eu acabei tendo essa sensação realmente diferente de que a imagem não era o que importava, que não eram as pessoas as responsáveis por fazer isso, e de alguma forma, que por ser parte daquele mundo que eu estava naquele tempo estava interrompendo o fluxo de criatividade e eu ia aos poucos perder o contato com o sentimento que tinha. E então, eu acabei indo muito longe na direção contrária e, basicamente, passei todo o meu tempo pintando por cinco anos, sem qualquer pensamento a respeito de como os produtos da minha imaginação valeriam para qualquer outra pessoa, e isso foi algo muito saudável para eu fazer naquele tempo.

Quando estou me apresentando para um público… é um pouco estranho. Eu gosto mais de gravar do que tocar ao vivo, porque você só fecha seus olhos, especialmente gravando sozinho, você está só com a força da música, não há outras distrações, não há possibilidade para teu cérebro ir a qualquer outro lugar. Se você é uma pessoa física em pé na frente das pessoas você recebe certas cargas… Afortunadamente, é a energia transferida entre o intérprete e o público, o público e o intérprete, que eu realmente aprecio. Realmente amo ver as pessoas com um sorriso no rosto, a luz brilhando em seus olhos, e coisas assim, é o que me faz amar tocar ao vivo. Mas, eu gosto de estar no palco e só fechar meus olhos, e logo paro de me preocupar em entreter a audiência, porque percebi que essas coisas que um artista pega o hábito de pensar que tem que fazer para entreter, ficar pulando e coisas assim, você começa a fazer porque você tem vontade, mas eventualmente se torna um hábito, e eu comecei a perceber que não importava, que a transferência importante é do que você está sentindo dentro de si para o público, e eles responderão com entusiasmo se o que você sente é forte o bastante e se o que eles sentem é forte o suficiente. Vai te elevar a um nível além. Pode ser que te faça tocar mais rápido no palco do que se estivesse em um cômodo sozinho. Você pode se encontrar colocando uma energia naquilo que é mais intensa do que você faz no estúdio. Não é necessariamente melhor ou pior, mas é somente energia humana ricocheteando entre um e outro, que é o que acontece quando as pessoas fazem sexo ou o que seja. Mais que tudo, foi e é importante para mim estar pensando na música e pensando sobre a força que faz aquelas pessoas sentirem o que sentem, e na força que faz eu me sentir como me sinto. E não ficar pensando nisso tudo como… Eu acho que um artista nunca deveria se julgar enquanto está se apresentando, se comete um erro, ou se não fez um solo tão bom, ou se entrou errado na bateria. São coisas estúpidas para se pensar e é estúpido ficar se avaliando na hora. Te coloca depois, quando uma coisa já aconteceu é como se arrepender do passado, não faz sentido, já passou. O melhor a se fazer é viver o momento e se preocupar com o próximo passo, bem, não “se preocupar” mas pensar no próximo passo. Então, quando estou tocando, geralmente estou entre estar no momento ou prevendo coisas antes que aconteçam. Um músico é capaz de estar em um momento da música, digamos, dois compassos antes, e antecipar o que um quarto compasso de um ciclo vai ser, e pode pensar em como seria se colocasse uma nota, digamos, na décima ou na décima sexta nota da escala ou algo assim, você não precisa usar símbolos ou números ou o que seja na sua cabeça, a não ser que sejam equivalentes ao sentimento musical, tudo o que você tem que fazer é imaginar o sentimento musical.

Eu costumava fazer esse tipo de meditação que você tenta imaginar o sentimento do aço, ou tentava manter uma forma na mente, como um círculo vermelho, e mantê-lo lá e não deixá-lo mudar de forma ou de tamanho, só tentar segurá-lo na mente. Enquanto eu fazia essas coisas todo dia… Ou tentava imaginar o cheiro do chocolate, e manter o cheiro na cabeça… E você… Cheiro do chocolate! O gosto do chocolate. E você tenta manter essas coisas na sua mente, e percebi que faço isso o tempo todo na música. Geralmente imagino um ritmo que posso fazer com a guitarra e imagino, por exemplo, quatro compassos na frente. E Flea estaria ouvindo a mesma coisa e nós tocaríamos isso ao mesmo tempo. Algo está nos oferecendo essas coisas. Se o seu cérebro está aberto para elas, você desenvolve uma relação correta com as leis da música e com seu instrumento, você só as encontrará lá esperando por você. Acredito de verdade que essa ideia de “Oh, Deus. Como eu vou conseguir ser um guitarrista? Nunca serei um Eric Clapton…” ou algo assim, que esse tipo de ideia de que a pessoa é uma figura intimidadora ou um grande deus está interrompendo… e o fato de que as pessoas estão julgando a si próprias por… como se houvesse um tipo de critério que faz relação com essas intimidantes figuras “deuses”, é como se isso fosse onde queremos chegar e eu sinto que qualquer um, uma criança, por exemplo, tem essa relação com a força criativa. Sim, seus pais gradualmente sufocam essa conexão com a força criativa e gradualmente esfregam sua cara no asfalto, assim como seus professores e todo o sistema escolar, tudo está trabalhando contra você, mas a força da criatividade, a natureza, não está agindo contra você, está bem aí para você, e a qualquer hora. Você só deve estar preparado para não se julgar e estar aberto para as coisas que virão, estar preparado para não se julgar e ficar bem com o que quer que aconteça, porque é apenas o universo expressando ele próprio, não é nada esperado de você, você só tem que estar lá para isso. Às vezes, para chegar a essa posição você toma anos de abnegação, ou anos de apenas amor por música, por nenhuma razão, só por música produzir os sentimentos que produz em você, e tocar um instrumento produz os sentimentos que produz, e você só segue a luz e, às vezes… Meus anos de prática com a guitarra não foram muito emotivos, eu só passava muito tempo praticando escalas e aprendendo, por exemplo, instrumentais, tentando aprender a música mais complicada que podia. Criou-se um… A maneira que minha inteligência foi capaz de se relacionar e conectar com a natureza da música e sentimentos que a música provoca, que desperta em mim, acabaram por me fazer capaz de somente formar um pensamento musical na cabeça, e ser capaz de trazê-lo para a realidade física por meu instrumento.

Me lembro de ser um pequeno garoto ouvindo música na minha cabeça o tempo inteiro, eu ouvia canções na minha cabeça, mas sendo um garoto de sete anos de idade não tinha ideia de como reproduzi-las, como colocá-las para fora, apenas as ouvia. E somente depois de anos de tocar um instrumento sem outra razão a não ser amar fazer isso, você eventualmente aprende os acordes, aprende os intervalos, aprende todo tipo de referência musical em aprender a música dos outros. E, pouco a pouco, o que você ouve dentro da sua cabeça pode chegar a sair. Não há nada de intimidador no processo, além de talvez ter que dedicar um tempo para desenvolver um relacionamento com o instrumento. Eu não acho que as pessoas deveriam se sentir ameaçadas por essa ideia de serem grandiosas, as únicas pessoas que tem o direito de decidir quem é grandioso ou não… Não sei, gente como Stravinsky… Bartok… Eles, com um critério para julgar música, pela forma como veem a música. Eles sabiam do início que era algo inefável, não tentaram descrevê-la, o que tentaram descrever foi o seu critério de maneira teórica. Da mesma forma que os músicos de jazz discutiriam, mais ou menos. A ideia de que música começou a ser julgada pela sensação que uma estrela gera na mente das pessoas realmente confundiu a questão. Acho que as pessoas deveriam voltar a ver a música pelo que ela realmente é e não por essas coisas, não pelas pessoas que tocam, ou pelas diversas maneiras que ela é vendida.

Uma interessante definição de música que ouvi foi que… Uma interessante descrição é que… é som… é um ponto coordenado entre o som e a inteligência humana. É o encontro dessas duas coisas. O som por si só não é música, por mais que John Cage tenha amado o som do tráfego de Nova York, ou por mais que gostemos do som dos pássaros cantando, não é música até que seja organizado pelo pensamento humano. E o fato de que o som entra nos nossos ouvidos e se transforma de uma onda a uma corrente elétrica em nosso cérebro, e isso se traduz e se torna um sentimento musical, e o fato de que música está constantemente se transformando de uma coisa em outra, é mais uma daquelas coisas que acontecem e não temos ideia do porquê. Cientistas podem apenas explicar que está acontecendo mas não conseguem explicar o porquê. O fato de que um som pode começar como movimento físico, que acerta uma corda que vibra, e essa corda se transforma em eletricidade que passa por um captador, que passa por um cabo, e depois sai de um amplificador e se transforma em uma onda, e então pelas formas de como as moléculas de ar estão se movimentando ao redor causa algo em um microfone, e se transforma novamente em corrente elétrica e pode virar um som em uma fita, e então outra onda se forma no ar e entra no ouvido de uma pessoa e passa a ser ar de novo para se tornar mais uma vez uma corrente elétrica no cérebro de alguém… Isso é só um processo de algo que não entendemos. Podemos descrevê-lo e podemos controlá-lo, mas não temos ideia do porquê que ocorre. Cientistas podem explicar o que acontece e nós conseguimos entender quais são as leis que afetam o que acontece, mas não entendemos o porquê de acontecer.

O processo que acabei de descrever é equivalente a ideia da reencarnação, de uma pessoa tornando-se outra coisa.  É só o que sempre ocorre, nada realmente morre. E de todo modo, até mesmo uma música, o fato de que você apenas ouve um momento dela agora mesmo, logo é uma série de momentos, que nunca ocorrem em outro tempo senão agora, cada momento em uma música está morrendo e transformando-se em outra coisa enquanto a coisa toda desenvolve. Basicamente, é a ideia da reencarnação através do fluxo da forma de uma canção. Uma seção se transforma em outra seção e então volta a ser outra seção, e gradualmente se constroi e cresce. Por que isso é possível? Por que a realidade não é como nos sonhos onde de repente se está em um lugar e então sem razão aparente, e sem ter nada a ver com a tua própria vontade, se está em outro lugar? O fato de que a realidade também não é assim ninguém consegue explicar porquê. Então, estar satisfeito com algum tipo de explicação do que está acontecendo ao invés do porquê de estar acontecendo é bobo. Pessoas que estão satisfeitas com isso, com esse tipo de explicação, só penso que estão ignorando metade do que acontece. Metade é como acontece e a outra metade é o que faz que aconteça. Às vezes coisas que não entendemos ou que nos dão medo, a morte dá medo porque não a entendemos, acho que colocamos um monte de coisas que não entendemos nessa categoria porque tantos de nós tem medo da morte, mas é esse o processo em que estamos vivendo. E essas leis da natureza que fazem essas coisas, a perpetuação da realidade, o fato de que ontem não morre, se conserva em um pensamento, e o que colocamos em uma prateleira no dia anterior ainda estará lá no dia seguinte, o fato de que há essa consistência que se move entre as coisas, o fato de que há a permanência da matéria é também algo que deveríamos ficar felizes de ser assim, poderia ser de tantas outras formas, e isso você pode ver nos seus sonhos, é como… a realidade pode ser realmente difícil de lidar, e afortunadamente nos foi dado esse dom de ser capaz de praticar algo e se familiarizar com as leis, as leis da música, da natureza, e gradualmente ser capaz de criar algo, da mesma maneira como o sol nos criou, que o sol está nos ensinando essa lição orbitando, fazendo a mesma coisa todos os dias. Está nos dizendo que, se você faz a mesma coisa todos os dias, você pode construir e construir e as coisas vão crescer como resultado de fazer isso repetidamente, todo mundo sabe isso. Todos conseguem trabalhos e pensam que estão conseguindo empregos para ter dinheiro, mas é só o jeito que a natureza trabalha. A natureza trabalha em círculos, a natureza trabalha em ciclos, e se você ignora esse ciclo, e só fica sentado sem fazer nada o tempo todo ou se não seguir o interesse dentro de si, que te compele a fazer coisas, sua vida vai gradualmente perder o sentido até que esteja velho. Ou se faz algo que você não quer, sua vida também perderá sentido até que esteja velho. Mas, quanto mais você explorar o fato de que, através de um hábito constante de leitura, ou praticar constantemente seu instrumento, ou um estudo constante das leis da ciência, você estará crescendo de uma forma interna que nem sempre pode ser medida, mas que sempre lhe preencherá, e sempre lhe dará uma fascinação por onde se encontra na vida, pelo que você é e pelo porquê de você estar aqui. E acredito que, por fazer isso, uma pessoa de idade avançada, pode ser um privilégio, pode ser uma forma de ir além, de preocupar-se sobre a representação externa do que você é, de se preocupar com o que se é do lado de fora, e pode aos poucos enriquecer o que você é internamente. Acho que qualquer música que valha alguma coisa foi feita por pessoas muito interessadas pelo processo interno de sua alma e de sua mente, que acontecia enquanto escreviam música, suas emoções. Sempre foram pessoas interessadas pelo processo do que fazem, e não estavam tão preocupadas com o resultado externo do que iam fazer. Isso é quando se liberta o espírito. E acredito que mesmo um grande músico preocupado com o que acontece quando sai de sua esfera mais próxima, é menor o contato que ele tem com o que se passa em seu interior, porque você começa a ver a música de acordo com a reação que provoca em oposição ao que naturalmente é. Que é algo que toma lugar dentro de ti, que você foi dado a habilidade de realizar e manifestar. Então, sempre senti fortemente… ouvir o que sua imaginação dita.

Eu sou o tipo de pessoa que muda de gostar de um tipo de música pra gostar de outro tipo de música, eu passo por um período de três anos em que fico obcecado por um tipo de música e três anos depois eu nem consigo imaginar porque eu estava ouvindo aquilo, por estar em um lugar tão diferente. Mas foi só onde minha imaginação me levou. A ideia de ouvir uma coisa deixou de ser empolgante, e logo a ideia de ouvir outra coisa parece mais empolgante. E é só porque vejo música baseando-me em sua qualidade, e obviamente uma pessoa que julga música de acordo a quão popular é ou algo assim, terá a tendência a focar seu interesse apenas em coisas que são populares, e tenderá a todos os seus esforços musicais estarem coordenados pelos modelos que o público decide de ser “o melhor”. E acredito que esse tipo de coisa pode fazer a imaginação de uma pessoa, que deveria estar mudando de uma coisa para outra, ter uma ideia fixa do que é bom. E a mente deveria só mudar de uma coisa para outra, porque é essa a natureza da mente, salta de um pensamento a outro a todo momento, não temos controle sobre isso. Bom, não entrarei nisso. Mas, é a natureza das coisas de mudar de uma coisa para outra, e nossas mentes fazem isso o tempo inteiro, não existe uma razão de uma pessoa não poder mudar seu interesse de uma forma musical para outra, ou mudar sua ideia do que um grande guitarrista é, ou sua ideia do que a música deveria fazer. É tudo muito natural, e deixar as ideias do que a sociedade lhe diz: “esse é um grande guitarrista, ele é número 1! Ninguém é melhor que ele!”, o que isso acaba fazendo é fixar uma ideia de algo, e as pessoas não deveriam ter uma ideia fixa sobre nada. Eu tenho fases que passo estudando guitarristas que não eram muito bons na prática e não tinham uma grande técnica, mas suas ideias eram tão fortes, e a emoção que colocavam no que faziam era tão forte, e eram tão únicos e originais, que eles, naquele momento, me pareciam melhores que alguém como Jeff Beck ou Jimi Hendrix, gente que eu também considero dos maiores. Mas  não consigo ver alguém como Bernard Summer do Joy Division sendo menos do que foi Jimi Hendrix. Aos meus olhos são a mesma coisa, dependendo do meu humor, dependendo do tempo na minha vida, vejo um extremamente relevante e o outro sem relevância alguma, e depois eles mudam de lugar outra vez. Sou muito feliz de que essa seja a forma que o cérebro funcione, e que essa seja a natureza da música. Apenas o indivíduo pode ter para si o que é bom e o que vale a pena. Essas ideias eternizadas que nos engana a pensar que há uma espécie de critério para essas coisas são ridículas. É só o que faz você sentir o que sente. E só você sabe disso. Às vezes precisa limpar sua cabeça um pouco, deixar de se importar com o que seus amigos acham que é legal, para realmente escutar seu subconsciente, seus próprios sentimentos e decidir por você mesmo o que é melhor pra você.

Eu dizia que eu odiava tal música, mas eu não odiava. Eu odiava o pessoal que eu associava à música. Então quando coisas como Depeche Mode começaram a aparecer, eu não achei que gostava, Duran Duran e coisas assim, e eu sabia no fundo da minha cabeça que eu gostava como soava, mas na época que surgiram não havia como eu admitir para mim mesmo que eu gostava porque estava preocupado com a aparência externa, do que significaria se eu gostasse, e criar um tipo de identidade fixa de mim mesmo, como o cara que estava ligado a música que estava, como King Crimson, Genesis e Yes, coisas assim. Era com isso que me relacionava melhor e que sentia me proporcionar mais identidade, mas progressivamente, quando comecei a me ligar em coisas como Depeche Mode e Duran Duran, eu estava tipo… “eu lembro de gostar disso quando ouvia, só não queria admitir para mim mesmo”. Poderia ter sido uma coisa a manter como segredo, mas eu nem mesmo me deixei saber. Eu me lembro de gravar uma música do Depeche Mode da rádio, e quando percebi que eram eles, eu parei a gravação. Eu adorava o som, isso deveria ter sido a única coisa para me deixar levar. Não deveria me preocupar com as pessoas que gostavam só porque eu não gostava delas. É uma forma tola de pensar. Creio que eu fazia o inverso, a maioria das pessoas gostam das coisas porque os outros também gostam, e de qualquer forma que seja, você não está sendo justo consigo mesmo, porque você gosta de tudo que gosta por um motivo. Se algo soa bem para você, soa bem por uma razão e mesmo que você não entenda algo de cara, às vezes se tem uma partezinha do cérebro que diz: “tem algo saudável aqui, tem algo interessante aqui”, às vezes também é importante fazer isso. Eu fiz isso com jazz e tudo mais. Acho que por ter crescido em música clássica, não tinha ouvido para o jazz como algumas pessoas tem quando jovens, mas eu sabia que tinha algo ali para mim, então eu aprendi coisas na guitarra e gradualmente desenvolvi os receptores no meu cérebro, os receptores emocionais no meu cérebro, que se relacionavam com os tipos de sentimentos, sons, acordes e melodias que se encontram nesse tipo de música.

Há tantas forças trabalhando contra as pessoas, para arranjar uma ideia fixa do que gostam, que às vezes você tem que treinar a si mesmo para se dar conta do que realmente gosta. Aconteceu que eu realmente amo jazz, e significa muito, mas essas portas foram abertas na minha cabeça, como disse, esses receptores, necessitavam ser despertados. Realmente penso que é importante prestar atenção na forma natural do cérebro se relacionar com música.  E escutar cada coisinha que ele manda, em termos de como conseguir mais de toda a riqueza e beleza da música que há no mundo. Tem uma quantidade incrível de música grandiosa, é inacreditável que tudo seja resultado de nós mesmos. Há tanto quanto comida saindo da terra, plantas crescendo. Está aí se você gravitar em sua direção e colocar sua energia nisso, acho que é muito pouco inteligente comprar o que lhe atiram na cara. É importante procurar as coisas e encontrá-las por si próprio. Você descobre que algo o guia em direção ao que você necessita ouvir, quanto mais você faz, mais estará em contato com essa força. A natureza quer que você veja suas belas frutas, e coma suas belas frutas, e comer seus vegetais e olhar suas árvores e sentir seu vento, e a natureza quer que você ouça a música que resulta disso. Não há razão de se pensar que os esforços do homem são separados da natureza, é tudo uma só coisa. É a natureza, o que existe, uma só coisa.

Eu tenho uma impressão, falei com uma médium e ela falou algo sobre meus gatos gostarem do barulho que eu faço. E ela também disse algo sobre eles não terem a mesma percepção de tempo que temos, e isso me fez questionar, porque música é tão intrinsecamente conectada ao tempo, é som estruturado pelo tempo que, com a percepção deles não escutariam a organização da mesma forma que nós. É engraçado como uma música, você apenas segue seus sentimentos, mas você toca algo que é bom na forma que está. Mas, se uma nota estiver fora, estivesse em outro lugar, poderia soar totalmente errado. Soaria como se não seguisse uma linha coerente de pensamento. É bem específico porque uma nota soa bem porque tem outra que a segue, e de novo, é apenas uma coisa que você aprende gradualmente seguindo a sua intuição, não é algo que foi diretamente explicado, ou entendido, mas tem a ver somente com como é feito o nosso cérebro, nós percebemos o tempo como percebemos por como nosso cérebro está configurado, e a forma como opera, e nosso sistema nervoso. Não é que o tempo definitivamente é nessa velocidade, é perfeitamente possível para outra espécie percebê-lo em uma velocidade completamente diferente. Me parece que as moscas devem experimentar tudo em uma velocidade drasticamente diferente, estão bem acima de tudo por terem cérebros tão pequenos. Então, supus que meus gatos provavelmente estão ouvindo o tempo acelerando-se ou diminuindo de velocidade o tempo todo, e o que nós ouvimos é organização musical, em uma linha coerente de pensamento, não deve soar como uma linha coerente de pensamento para eles, mas ao mesmo tempo parecem responder à música. Meus gatos adoram quando eu ouço música com eles mais que qualquer outra coisa, e acredito que é por perceberem as sensações que você tem ao ouvir música. Creio que haja uma… que os gatos escutem, que eles sintam o que você está sentindo, e seus pensamentos são em imagens, não palavras, e você pode passar as imagens da sua mente para o seu animal, e então eu acho que eles devem sentir o que eu sinto, da mesma forma como, de novo, em sexo, quando as duas pessoas estão causando na outra a mesma sensação, e quando pessoas vão a um show, pelo poder da música, o público está todo sentindo mais ou menos a mesma coisa, alterado um pouco pela personalidade de alguém, ou a capacidade de alguém de sentir com outras, mas basicamente, todos sentem o que os outros estão sentindo, e acho que é isso que ocorre quando alguém realmente ama seu animal, e seu cachorro chega correndo quando o ouve tocar piano, acho que gostam de lhe ouvir tocando piano porque é quando os membros da família sentem o que sentem, e eles gostam de estar em um ambiente com essa corrente de energia fluindo. Acho que eles ouvem o som, mas não acho que eles experimentam da mesma maneira que nós, mas eles ainda experienciam e o resultado final continua sendo o mesmo sentimento, ou o mais parecido. Ao menos é como eu compreendo.

Uma das coisas mais bonitas que penso sobre música ao vivo é o fato de que pelo período de tempo que essas pessoas estão naquele lugar, partindo do pressuposto que todos que foram é porque amam, porque música gera a sensação que ela dita, todos estão sentindo a mesma coisa no geral, estão basicamente se sentindo bem na mesma hora, todos estão ali deixando de lado os pensamentos do dia-a-dia, todas suas preocupações, não estão na cabeça, o poder da música unifica todas as suas consciências em uma só coisa, eles estão literalmente funcionando como um só organismo, estão todos sentindo mais ou menos a mesma coisa. É como em sexo, que vocês interagem de forma que um sente o que o outro está sentindo. É como em qualquer evento, como um evento esportivo, é a mesma coisa, todo mundo está se conectando com o que está acontecendo e as emoções que isso provoca. E isso une as pessoas de uma forma que nas suas vidas cotidianas… você sabe, é parte da tragédia da existência, estamos todos sozinhos aqui. Não há como escapar disso. Você está dentro do seu corpo, você gostando ou não. Assim, ser capaz de sentir o que está dentro de você, está em todos ao redor, creio que seja a habilidade real de experimentar o que está se passando, que tudo é a mesma coisa.”

A real imagem de John Frusciante pode ser encontrada ao seguir algo daqui: http://en.wikipedia.org/wiki/John_Frusciante_discography

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4 pensamentos sobre “John Frusciante – WOW #4

  1. Que foda.

    Também sou maníaco por arte e questões existenciais.

    “E eu não sei nem expressar o tamanho da falta de solidão ao receber certas conclusões já entranhadas em mim pela boca de outra pessoa, ainda mais essa outra pessoa sendo alguém que me causa já tamanha sensação de pertencer a esse mesmo mundo que tanto já senti não ser o lugar que eu deveria estar.”

    Isso aconteceu comigo duas vezes na vida. A mais musical delas foi com o Frank Zappa. (Um dia eu te conto sobre a outra.) Com o Zappa, além de todo o resto – como a coisa do fazer musical que desafia limites, e o workaholiquismo arteiro que fica zanzando por aí, cinema, banda, música de câmara… – descobri que ele via a sua própria obra do mesmo jeito que eu via a minha, na época.

    Ah, pois sim… Acabei de ver um artigo seu no Literatortura, sobre aquele italiano pirado que fez uma enciclopédia de esquisitices bonitas. Tuas interpretações das ilustrações foram calibradíssimas. Hahaha.

    Sobre o artigo acima… Que legal, também.

    “Às vezes precisa limpar sua cabeça um pouco, deixar de se importar com o que seus amigos acham que é legal, para realmente escutar seu subconsciente, seus próprios sentimentos e decidir por você mesmo o que é melhor pra você.”

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