o parto do buraco negro

o parto do buraco negro

entendi
entendi e senti
em cada poro
a gota d’água
do poço
de uma poça breu
não quando lá estava
no escuro
mas quando de lá saí
ao claro

me foi preciso
o conhecer d’
o fosso e fossa
o lodo e lama
o inferno
pra ver o teu
e não me ressinto
não minto
e não findo
o ~fato~
de que encontrei
as piores bestas
e a decadência da fé
a espiral do eco
e o labirinto
sem muros
do vácuo
e conheci o que
cobre a tua luz
e que até lá só fui
por amor

(meu amor de
louco
venceu derrotado
porque amor
não é direcionado
é o manto
que une o mundo
na pupila da estrela
de onde todos viemos)

meu amor
não se ressinta
com erros de tempo
isso não existe
a vida não é
com/passo perfeito
não se levante com
armas baratas
elas saem pela
culatra
e não cura, a gaze
mofada
não acredite nas vozes
que te são re/correntes
elas são hálito veneno
às penas do teu pássaro
não esqueça que
a tua maior força
é a tua verdade
só verdade faz valer
a pena que é viver
no caos onde
nos encaixaram
e me perdoa
por antes não ter
conhecido
o peso
e a liquidez
do escuro

– Nyx K.

hugnight

Um fio que tem força, sem esforço, contra a gravidade

É rua. Calçada. Parede suja. Fiapos de mato e esgoto. O ar de mil escapamentos de carro por minuto. Num banco, um palhaço está sentado como se esperasse moedas num chapéu invisível à sua frente. Como uma figura artística, uma performance urbana, uma mensagem humana por vias de fantasia.

Mais aceitável que um homem de terno chorando, essa figura da cara branca e cabelo azul, cores do macacão de seda em contraposição entre os lados esquerdo e direito. No rosto, um olho tem a cruz, abaixo do outro uma lágrima, a boca pintada de vermelho bem além-boca. O palhaço não ri, não se mexe. Uma estátua com pupilas de Monalisa, ele observa todos que passam, à pés, nos carros, com um olhar triste de apatia, caído de monótono. Uma mão repousa no respectivo joelho, a outra de luva segura um fio de nylon contra a gravidade. O fio leva a um balão, bem cheio, bem recente, vermelho, e em formato de coração. O coração vagueia ali no alto calmamente, aparentando esconder um segredo seminal. O palhaço não parece perceber o balão, o balão não parece perceber a lágrima preta na bochecha, a lágrima não parece perceber ser ridículo aparecer em um palhaço. E essa é minha imagem do amor.

Há anos esse palhaço aparece na minha cabeça, sentado nesse cenário urbano, e me instiga a torná-lo real. Em uma fotografia, em um documentário, em uma cena, em um vídeo musical, em um desenho. Mas nunca fiz. Há anos esse palhaço aparece na minha cabeça e tudo que faço é encontrar seus olhos. A gente se encara por um momento e fico grata pelo reflexo. A moeda pro chapéu que não existe é o espelho. Depois de enxergado e fazer enxergar, ele muda o foco esperando outro responder.

A história se repete. Às vezes me questiono porque o palhaço não escolhe apagar a lágrima, ou furar o balão, ou tirar a fantasia. A história seria outra. Mal me pergunto e já sei a resposta. Algumas coisas são como são. É como se existisse um equilíbrio além da nossa compreensão. Não importa o quanto gostaríamos de mudá-las, elas são o que são. Da magia à dor.

Ali, escondido, depois dos créditos, eu gosto de inserir uma cena extra de vez em quando. Do outro lado da rua, em outra parede suja, em outra calçada erosiva, um outro palhaço coloca uma cadeira e senta-se. A única diferença entre ele e o primeiro é a posição dos elementos. As cores são as mesmas, lados contrários. A lágrima na outra bochecha. O coração na outra mão. E de frente um pro outro eles são iguais.

E eu, sentada pensando isso aqui, vejo uma mão nua no meu próprio joelho e a outra de luva segurando um fio, que tem força, sem esforço, contra a gravidade.

O Vírus

Mastigo esse pedaço de pão e parece gaze de ferida. Não parece que meus dentes funcionam, não parece que triturei a massa, que se transformou num bolo alimentar. Engulo e é áspero, não remete a nada comestível. É assim sempre que como sem apetite, e eu não tenho apetite desde ontem, ou antes de ontem. Meus maus hábitos me alimentam de fumaça. E quando eu como, passo mal. É o que meu corpo precisa, mas aparentemente nem ele aceita, ou é aquelas da revolta por ter sido esquecido por tantas horas. Me concentrei demais na cabeça, indo da ideia que temos de que merecemos ser felizes à realidade de que não conseguimos ser, e todos os porquês. O sentimento de querer dar o mundo e não ter um mundo pra dar. O amor da sua vida bateu à sua porta, e você não estava em casa. Vinte e quatro horas se passaram, e você não deu um passo sequer em direção a um objetivo. A caixa de chocolates é aberta e por algum infortúnio do destino esqueceram o único exemplar do seu favorito, a caixa então está vazia.

Os dias, meses e anos se passam, eu já não sou uma menina, eu já tenho medo de me olhar no espelho e encontrar rugas no meu rosto e, ainda, espero o dia que as coisas façam mais sentido. A vida não é justa. O tempo te dá a ilusão que sim e logo te toma de volta, de novo e de novo. A vida faz pés do mesmo número de calçado se cruzarem, de pernas que não conseguem caminhar ao mesmo passo. Quando eu era menina ou não tanto assim, eu diminuía o passo pra acompanhar, engolia o impulso de correr. Doía. Doía por muito tempo não poder rasgar o vento com o nariz. E agora, o que dói é não conseguir caminhar. E eu que sempre achei que sofreria das mesmas coisas, de novo e de novo, agora me vejo a odiar minha incapacidade de ser o que acabava machucando. Aquela ideia de que se merece ser feliz persistente, a força em falta. Tudo o que eu nunca pude arde em não conseguir ser exatamente o que eu não deveria ter feito antes.

A gente tem uns demônios na vida, mais conhecidos como meras pessoas carregando suas próprias cruzes, desequilibradas, vão levando qualquer um pelo caminho, a gente tenta ajudar a carregar porque somos bonzinhos e entendemos, nossa empatia é um absurdo, mas acabamos carregando um peso que não deveríamos e também açoitados como Cristo. Perdemos umas crenças, sujamos nossa perfeita índole, ligamos o foda-se um pouco, aprendemos que ser egoísta tem seu valor, ficamos um pouco frios, cínicos, acabamos fazendo mal a quem menos merece, personagem esse que um dia fomos. A gente se odeia por isso. A gente se odeia por ter sido vulnerável a se infectar. A gente se odeia por ser humano e como humanos sermos fracos, nos vemos como fracasso. Convivemos com o vírus, conseguimos acreditar ainda até, o “não desiste das pessoas” ecoa e nos movimenta, mas já sabemos tanto da natureza humana que o tédio bate na cara e a insegurança lateja se não conseguem penetrar nossa carcaça anestesiada e fazer-nos sentir com uma dose de adrenalina cavalar. Temos coragem, só não temos mais pés, precisamos que nos empurrem. Temos coragem, mas não chegamos inteiros e esperamos que nos curem. Temos coragem, mas chegamos prontos pra uma etiqueta no pé. Precisamos de calor, precisamos que estejam prontos para nós, que não precisemos nos esforçar muito ao encaixe porque estamos quebrados em diversas partes e pedaços, qualquer movimento é excruciante. Deitados, inertes, sentimos a frieza dar forma a uma aura de calor intenso ao redor do corpo, é o calor do corpo de sempre, ocos e abaixo de zero estamos sós, não adiantou ter coragem, não encontramos cura e só sabemos que estamos vivos porque a barriga ronca.

Eu faria uma eternidade só pra gente

– “Me deixa ler a enciclopédia da tua vida”, esse é o tanto.
– Essa é a minha angústia sobre a vida.
– Qual?
– Morrer e não poder acompanhar a História, sabe?
– Que história?
– “A”. A História. Principalmente o que existe no universo. O que é o universo.
– Ok… Mas… Eu tava falando da gente.
– Eu também.
– Como assim?
– Lembra quando eu te disse que tu era meu universo?
– Hahaha, sim.
– Eu não quero me desgrudar de ti enquanto eu viver. Eu me angustio de saber que vou morrer e não vou ter a eternidade sabendo de ti e te descobrindo. As roupas que vão mudando. O novo livro que você vai acabar assumindo características de algum personagem por uns dois meses. Suas primeiras vezes… Segundas, terceiras… Enfim.
– Se eu pudesse, eu faria uma eternidade só pra gente.

***

Manchete de um ano e quatro meses depois: Homem coloca veneno em jantar romântico e os dois morrem.

***

O problema do romance são as altas doses de psicopatia.

Hoje, o amor é uma rebeldia

Uma coisa é certa: o amor virou rebeldia.

Uns meses atrás travei um embate com meu padrinho num daqueles momentos raros que ele levanta o dedo em riste e diz que vai falar algo muito importante, “escuta, é sério isso… escuta!”, e acaba que é sério mesmo. Ele disse: “amar é uma escolha”. Essas palavras imprimiram uma chicotada na minha cara e lembro que exprimi uma testa franzida de menosprezo debochado. As palavras de alguém que o tempo tornara cínico o suficiente pra preferir uma vida sem essa espécie de enxaqueca, ou talvez alguém que não sabia o que era amor de fato. Rebati logo: e não é algo que apenas se sente e não se pode controlar? “Não”, sem qualquer freio de reflexão.

E essa escolha, não acaba fazendo o sentimento falso? “Não”. Eu não entendi aquilo. “Tu só envelheceu e deixou a graça de amar ficar velha junto contigo”. Eu não entendi mesmo aquilo. Como que eu poderia simplesmente escolher ou não amar. Como que se pode meramente ignorar ou cortar uma sensação boa que vai crescendo motivada por uma pessoa, o encantamento. Como que se escolhe “ah, essa pessoa aí eu vou amar”. Como, basicamente, COMO DIABOS alguém não se permite porque vai acabar tendo que lidar com umas coisas meio chatas ou mesmo péssimas em algumas alturas do campeonato.

Mas a verdade, meu ou minha camarada, é que o amor é uma habilidade. E se você não a tem naturalmente desprendida, você pode, inclusive, escolher ter. Uma aptidão que você escolhe sim, colocar em prática ou não. E quando você tem o amor-dom, que é o cerne do amor materno, é aí que tu tá lascado mesmo e precisa dominar uma técnica forte para torná-lo praticável.

Vamos esquecer aqui todos os conceitos de carência, insegurança e acasalamento. Vamos esquecer aqui todas as versões piratas de amor. O amor deve começar em ti, antes de tudo, de ti pra ti, ser capaz de te motivar a dar o teu melhor pro mundo, porque tu é feliz contigo, com quem tu te tornou. Tu é capaz de te enxergar. (If you can’t love yourself, how the hell you gonna love somebody else?! QUENAIGUEREINEIIIMENNN). Ser capaz de te preencher em coisas e gestos e sensações que não dizem respeito ao seu/sua próximx futurx ex. O amor começa em conceitos tais quais o de amizade, de empatia, de compaixão, de bondade, de compreensão, de humildade e de insignificância. Insignificância mesmo, você é zero, nada, porra nenhuma. Você não é especial, você é só mais um com algumas características agradáveis dentre um bando de outros com suas características agradáveis. Você é mais um… só que você tem coragem.

Então, agora, podemos falar de amor.

Por que coragem é tão importante se tu já deu o check em tudo aquilo lá em cima, né? Ora bolas, primeiro porque todo mundo já se fodeu. Todo mundo é traumatizado. Tem gente que é traumatizado até por ter sido um merda e nem sabe. Já que conseguiu continuar vivendo numa boa aceitando ser um merda, pra quê mudar esse status confortável de podridão de ser, não é mesmo? Essa comodidade com o trauma é uma peste. Isso não é ser sabichão, maduro, sei lá o quê, isso é ser – desculpa se essa carapuça é certinho o teu tamanho – burro. Ignobilmente covarde. Quero dar um chute carpado na tua cara. Mas voltando… Segundo, porque se tem medo de, apesar de se saber capaz de exercer amor, não ter lá muita certeza se o outro é. E terceiro, porque apesar de traumas vencidos, quando alguém se dá a uma intimidade no nível de amor, seu equilíbrio se torna mais vulnerável, não é mais só seu.

Ninguém é uma montanha inabalável. Nenhum zen é capaz de amar como os humanos-animais. E nós, que entendemos tanto a necessidade quanto a grandeza do zen, ainda não queremos sê-lo. Nós queremos tê-lo, acessível só, pois nós ainda queremos ficar sem ar. E nós ainda achamos que poder ajudar alguém a ser sua melhor versão em uma intimidade que cubra tantos pontos, e ter alguém que tire o melhor de nossas capacidades dessa mesma maneira, não tem com o que comparar. Nós nos despimos cotidianamente do medo. Nós sabemos que não precisamos, que é mais fácil ficar sem, que é uma escolha. Porém, nós ainda somos meio como Johnny com June.

johnnytojune

E eu me vejo numa geração de grandes egos. Grandes certezas, rasas opiniões. Irredutíveis pretos e brancos. Fodalhões, lindos, beijinho no ombro. Iludidos em seus maravilhosos diferenciais. Certos de serem subversivos só por terem caído de paraquedas num ponto da linha do tempo Histórica de grandes mudanças, mas fácil massa de manobra. Relações plásticas, baseadas em memes sem fim. Relações que parecem abortos porque melhor assim. Ultra radicais porque dão tapa na cara da sociedade. Consumidores pelo ícone, camuflados em um milhão de bandas e filmes pois que massa o pôster. Secos e molhados só na calça. Feitos de trouxa mas só de engraçadinho dizer. Fanáticos, FANÁTICOS, F-A-N-Á-T-I-C-O-S. Muito orgulho beber beijar beber beijar beber beijar porque não sou obrigada a nada. A nada. A velha ladainha do timing errado, sendo que é coração no lugar errado mesmo. Tá tudo na mão, autoestima baixa se cura num botão. É tudo designer e publicitário nessa porra porque administração já perdeu o posto da indecisão. É bonitinho, mas será que não sabe quem é Julian Casablancas?????? Indireta daqui, indireta de lá, inimizades plus size, amizades de curtida. Bota o teu, papai. Caralhada de tatuagem, desfalcado de personalidade. E cacetada de lágrimas no travesseiro, porque na realzinha: tu não é feliz. E a culpa é tua. Mas beleza, dos males o menor, na fortaleza que tu mostra, tu impera. E ninguém vai te dizer o que fazer. E vacilou, perdeu. E parabéns a você.

Eu olho pra geração anterior, e o vazio é o mesmo, só é mais brega.

Eu olho pra geração antes da anterior, e o vazio é o mesmo, só que já tá velho e cansado.

Eu olho pra gente, vocês como eu, e sabe… Dentre tantas formas de lacrar, a nossa coragem em escolher amar é a coisa mais rebelde que a gente podia fazer.

Pedaço de Caminho Sem Fim

O caminho era mais do mesmo. Era só seguir com o carro rumo à avenida da praia, percorrer todo o asfalto paralelo ao litoral e estaria em casa. O caminho era mais do mesmo, só não foi. Acelerei e me vi subindo uma encosta, vegetação familiar de árvorezinhas baixas cheias de galhos, terreno rochoso, o carro balançava, era uma trilha pra não-sei-onde. O que é isso? Onde eu tô? Como vim parar aqui? Pavor subindo pela garganta em nós. O susto do trajeto inesperado pulsando na jugular, o carro subia mais, as plantas arranhavam a lataria e cobriam parte da minha visão. As plantas sumiram. O céu estava ali. Azul-aço claro, como o nascer ou o cair de um dia sem nuvens. A tensão apavorada foi substituída por hipnose. Era a lua, jorrando luz prateada no meu rosto, quase lambendo minha testa. Enorme. Enorme como o mundo. O ruído do motor, dos pneus no terreno seco, dos galhos no metal, cessaram, por dois segundos só existiu uma vibração grave, o som da gravidade da lua me puxando. O “O que é isso? Onde eu tô? Como vim parar aqui?” evaporados, todos os pelos do meu corpo, todas as minhas células, imploravam pra voar. Porém o carro não parara. O grunhido motriz voltou ao labirinto dos ouvidos. O medo me socou no meio da cara quando enxerguei um palmo à frente. Puxei o volante da direção do abismo, o carro como um dragão obediente raspou as rodas na limítrofe da morte e da janela vi que estava acima do mar. Exatamente acima do mar. As ondas surravam a encosta. O mar não era o daqui, era de um profundo azul-esverdeado. Não haviam navios no horizonte. Não havia vivalma. A ira do oceano ensurdecedora, mas não soava como ira. Soava como libertação. A sensação de olhos em espiral, de pulmão fatigado, estava a me consumir. Eu ia desmaiar. Um último esforço. Só preciso dar meia volta e retornar pra voltar ao caminho de casa. Fiz. Mas não vi retorno. Eu estava no topo de uma montanha, sem qualquer indício de estrada, sem saber como havia chegado até ali. O oceano ao redor. Eu era muito pequena. Não parei o carro nem uma vez, não usei o freio, era como se o automóvel estivesse desgovernado e, ainda, fosse parte de mim, meus pés, meus impulsos, eu queria. Eu ia desmaiar. A lua reapareceu. Parecia ainda maior, ela ia me engolir. O mar parecia chamar meu nome enquanto me pedia pra acalmar, o chiado da espuma. Ssshhh… Ssshhh… Ssshhh… A pressão da estática gravíssima vibrava todos os meus órgãos. O ruído era rosa. Meu sangue começou a borbulhar. Eu ia desmaiar. E o carro não parou. Eu não impedi. Eu não quis. A sensação inebriante daquele cenário surreal de dia-noite com muito sal me consumiu por inteiro. Eu fui sufocada pela beleza, eu não tinha como fugir, eu era parte daquilo. O carro não parou. À frente o nada pra continuar. Eu quis. Eu fui. O carro seguiu para o ar. Eu não impedi. Eu me matei.

Não sei usar freios. Dou todo meu fôlego, todo meu ar, no que me convence. No que convence meu instinto. Eu vou seguir minhas intuições mais gritantes. Ela grita e eu me entrego… me entrego ao perigo que só uma coisa bonita consegue ter. Eu não tenho medo dessa estrada, os meus limites são nebulosos até mesmo pra mim e eu não vou mudar. E eu vou morrer. Eu vou morrer quantas vezes eu tiver que morrer. A morte não é o fim, morte é transformação, é renovação, é abraçar o desconhecido que te chama em cada poro. O caminho de casa é esse. Eu vou misturar os meus átomos, deixar minha alma sem escudos, eu vou me despir. Eu sou um pedaço de caminho sem fim.

Um mundo fictício que não é pra ser lido

Outro dia eu acordei com um insight na beira do cérebro, prestes a ser lindamente despejado em papeis digitais. Tinha tudo bem amarrado, ia dar um conto e tanto, talvez um livro. Os detalhes eram muitos, tinha de tudo. Sociedade e comportamento, trâmites políticos, entretenimento, paixão, verdade, lástima, revolta, competição. Isso tudo, de um universo e personagens fictícios. Vou tentar explicar mais ou menos esse mundo e suas peculiaridades. Era mais ou menos assim…

Os seres Putônicos viviam na terra, isso quer dizer: não eram da água ou do ar, mas até tentavam e conseguiam. Construíram moradia na terra, no entanto, e viviam em sociedade. Isso quer dizer: o que um não sabia, o outro sabia, ou dizia que sabia. E assim um ao outro se “ajudava”, muitas das vezes não passando das aspas. O auxílio não vinha de graça, pois a sociedade dos putônicos, vamos chamá-la de Putiedade, elegeu uma forma de recompensa para todas as ações cometidas, se não era de maneira física, havia uma “consciência de pagamento” imaterial, instintivo, sensorial. A troca de ações movimentava toda a sociedade, e os putônicos tinham cada um ideias diferentes de justiça, certo e errado, interpretação e significados. Enfim, era uma bagunça. Como viviam em sociedade e necessitavam das ajudinhas um do outro, alguém ou um grupo de putônicos tinha que mandar nas coisas. E assim haviam chefões de todas as ordens. A maioria, no entanto, deveria cumprir o que os chefões mandavam, e não era difícil. Quando se percebia no mundo dos putônicos, as coisas já eram daquele jeito, quando se percebia… já se era parte, condicionado, adestrado, por mero convívio, cultura. Bem lindo. De repente, o que parecia ter tudo pra ser uma bagunça, funcionava! Os putônicos tinham tanto em comum quanto não tinham. Talvez não era bem em quantidade, mas em pontos cruciais de suas existências. Basicamente, viviam para: reprodução, entretenimento e tornarem-se chefões de alguma coisa. Precisavam ser ou parecer bons reprodutores, gozar de ótimos entretenimentos e serem chefões de alguma ordem onde seu meio social central abrilhantaria os olhos pelo patamar atingido, oficial ou dado inconscientemente por “grandes feitos”. Cada uma dessas três áreas tinha um mundo só delas tão extenso pra abordar, e cada ponto possível de listar abria mais um submundo de riquezas, que meu insight me levou pra um pontinho específico dentro da segunda: entretenimento.

Os putônicos tinham como costume o exercício de jogos de competição. Além da graça que viam nessas atividades, eram movidos pelo outro item, aquele de ser chefão. Se era competição, alguém saía vencedor, oras. E consequentemente, por algum motivo que precisaria de não só um parágrafo como também de outro livro, quem se tornava chefão aos olhos dos outros através de um jogo de competição, também parecia ou se tornava um ótimo reprodutor. E todo putônico que se preze com certeza ia querer reproduzir-se com um outro que lhe adicionasse qualquer status de grandeza emprestado. E muitíssimas das vezes a reprodução não era algo de fato concretizado, ou sequer tentado, ou desejado, mas só se gostava de estar próximo de quem lhe aparentava um bom tipo. Seja por embasamento de capital reprodutivo, chefonístico ou entretedor, e se vocês ainda não entenderam: essas coisas se misturam. Sim, é meio complexo mesmo. Era pra ser um livro, ou dois, ou três, ou alguns, e eu preciso fazer apenas um post, então tentem me acompanhar, por favor.

Vamos mais no ponto. Dentre os jogos de competição que os putônicos se amarravam, havia um em especial que putônicos de toda a Putiedade curtiam muito. Mesmo os putônicos mais distintos um do outro. O embate chamava-se Putente. E se gostava tanto, mas tanto do Putente, que se alguns putônicos jogavam, outros ficavam pra assistir e até torciam, e até brigavam entre si. O joguinho era tão adorado que ao longo da História Putânica, os putônicos começaram a se profissionalizar naquele exercício de entretenimento. Começaram a surgir técnicas e treinamentos, estudos, mais público, apetrechos-padrão para demonstrar que putônico tal queria que grupo tal ganhasse, e logo, chefões para mandar e organizar aquela putanice toda. E claro, tudo movido por trocas.

Os profissionais do Putente ganhavam aquele tipo de recompensa física, que servia pra serem vistos como chefões. Porque chefão que era chefão não podia morar em um tipo de construção como os outros, não tinha o menor cabimento aparecerem com outros putônicos e coisas no geral vistas como comuns e alcançáveis pela maioria, e a ajuda física era a melhor forma de conseguir essas coisas de outros putônicos. Porque a troca imaterial e sensorial não era aceita pela maioria tão facilmente. Enquanto isso, os putônicos que gostavam muito de assistir, ganhavam esse outro tipo. Por que eles aceitavam facilmente? Porque o Putente mexia muito com eles. E porque mexia muito com eles que todos os chefões de todas as coisas da Putiedade trabalhavam para o acontecimento de embates de Putente. Simples assim. Porque eram legais e davam aos putônicos o que eles queriam. Porque os chefões eram donos de coisas que precisavam ser adoradas tanto quanto o Putente pelos putônicos. Porque os chefões precisavam que o putônico-comum, que não era chefão de nada relevante para a classe dos maiores chefões, que não era o tipo de reprodutor que um chefãozão gostaria de aliar-se e que também não era um profissional escolhido para o Putente, se sentisse bem. Caso contrário, os putônicos ficariam muito, muito revoltados, e aquele abismo entre suas ideias pessoais, interpretações, noções, quando percebidas, tornariam-se evidentes e toda aquela organização milagrosa da Putiedade despejaria. Assim como o Putente, haviam outras milhares de formas dentro do setor entretenimento que faziam os putônicos confortáveis em serem putônicos-médios ou putônicos-alguma-coisa. Nenhum putônico se acreditava um putônico-médio, os chefões não deixavam isso acontecer. Não era simples lidar com tantas maneiras de ser um putônico, por isso haviam tantos subgrupos entre eles, e por isso também que o Putente era tão valioso. Só o Putente conseguia unir, mesmo que como adversários, todos os tipos de putônicos. E por isso, uma montanha incontável de recompensas físicas para quem fizesse algo pelo Putente, qualquer coisa, qualquer, era movimentada. E a Putiedade parava pra ver os embates, porque os putônicos haviam desenvolvido uma tecnologia para atingir além da plateia presencial, coisa de maluco, quem tivesse em casa ou em qualquer outro local que houvesse a parafernália podia assistir, e junto com o Putente viam também vários símbolos de valores que os chefões acreditavam ser essencial que os putônicos tivessem, assim como lembrarem de suas existências como chefões, ávidos por uma ajudinha de toda aquela massa putânica, fazendo-os mais chefões ainda.

Louco, né? O que um grupo de putônicos contra outro, movimentando um objeto entre si até chegar numa área denominada putilância, e assim, a cada vez que o objeto chegava lá, um putônico, que se acreditava não querer nem que um nem que outro ganhasse, fazia um tracinho pra comparar que grupo tinha mais e quem teria mais ao final de tempo predeterminado sairia vencedor, conseguia fazer no mundo fictício que eu criei. Aí… Eu percebi que não dava pra escrever esse livro. Era muito surreal fazer as pessoas se envolverem com uma história tão sem pé nem cabeça. Não parecia convincente dizer simplesmente “os putônicos gostavam de se sentir parte de algo e queriam se sentir chefões por empréstimo do patamar atingido por outros putônicos, que por algum motivo acreditava-se representá-los, e eles só gostavam muito, muito mesmo do Putente”. Desisti.

Uma Resenha Muito Pessoal, RHCP 07.11 ou Eu Poderia Ter Mentido

Eu acho esse lance todo de idolatria uma besteira. Não é ridículo que se coloque alguém num pedestal por parte ou conjunto de sua obra, respeito é algo merecido. Quando o pedestal vira uma redoma de santidade absoluta, o intocável que se deseja o toque, que falta emanar raios brilhantes da aura e o dito cujo parece é estar executando milagres, por favor. Não é uma questão de esnobismo, ~recalque~, é uma questão de humanidade. E não tem nada de humano, pelo menos dentro do meu conceito do contrário de ser desumano vide bizarro, o que atitudes fanáticas demonstram. A cena final de “Perfume” é a comparação perfeita pra histeria dos apreciadores radicais de qualquer coisa que seja, inclusive da música. Que nem é mais música, recai no “criador” ou “efetuante”. E não é por achar isso tudo uma babaquice sem noção que eu não tenha ídolos. E eu digo que o John Frusciante é um ser iluminado e eu iria pra qualquer lugar do mundo, com uma mão atrás e nenhuma na frente, pra assistir a um show desse cidadão, caso ele decidisse fazer um. Ainda não é a idolatria que eu tento exemplificar. Eu não abriria caminho cotovelando costela alheia pra chegar mais perto, não faria questão de ter um autógrafo, uma foto, um pedaço do cabelo da criatura, não guardaria o copinho no qual bebeu um chá. Eu não tenho memorizado o dia que nasceu, o que come, com quem casou, se tem filhos ou quantidade da prole, se fala uma segunda língua e cor preferida para dias quentes. Muito menos tenho atração física, energia sexual tilintando pelas cavidades, direcionada à pessoa, que nasceu homem, eu, no caso, mulher heterossexual, por manter uma relação de afeto profundo com o que musicalmente produz. Tudo isto sendo dito, eu vou falar, mais uma vez, do meu (outro) amor mais sincero.

Há uns anos atrás me pus aqui a contar sobre como o Red Hot Chili Peppers se fez notado por mim em táticas de perseguição e fez check-in na minha vida num momento quase completamente solitário. Pra chegar ao final do relato e falar de um purê de batatas com manteiga ou margarina. Minha preferência, por familiaridade, o feito com manteiga, leia-se: John Frusciante. A margarina era o Josh Klinghoffer, guitarrista que o substituiu. Àquela altura da vida, eu não conhecia os álbuns solos do John, exceto o Curtains. Muito menos sabia da colaboração do Josh em álbuns dele, ou o A Sphere in the Heart of Silence assinado pelos dois, ou como guitarrista de turnê com o RHCP. Uma pessoa chegou a comentar nesse post sobre a parceria e o trabalho solo do John, ao que confessei: eu tinha medo de baixar. Tinha medo de detestar. Tudo por ter ouvido, nessas lojas de música que você pega o cd, passa naquele leitor, e como era das boas, não te informava só o valor a pagar, mas te deixava ouvir as tracks, um bando de grito sinistramente tristes e confusos. Uma criação caótica e feia que eu não tava preparada nem por um segundo. Num cd do Frusciante. Isso me entristeceu e construiu uma trava. Até um amigo indicar o Curtains. E ainda assim, não havia passado daí. Se fosse vinil, tinha furado. E nada de eu ir atrás dos outros sei lá quantos álbuns disponíveis na pirataria do uso individual. Aí, já aceitando que se eu quisesse ouvir algo do cara teria que futucar a tal carreira solo, deixei de ser besta e baixei logo a discografia. Nem tenho muito o que dizer, uma paixão atrás da outra. Até minha mãe e uma das irmãs resolveram se apaixonar também, virou trilha sonora da casa, né? Ninguém escapou. Cada álbum foi consumido devagarzinho, passava meses em cada, ao ponto de ficar nessa degustação por mais de um ano. Mas nunca, NUNCA, ouvi o Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt na íntegra, e creio eu, nem todas as faixas intercaladas pelo tempo que fosse.

Degustando John, eu descobri o Josh. Sem conhecer porra nenhuma, eu já considerava que não seria uma mudança ruim que haveria na banda, uma questão de confiança ali. Depois de conhecer alguma coisa, eu tive certeza que bom sairia. Eu sabia o que esperar. Então não fui abalada de maneira alguma pela falta do fator frusciantesco no I’m With You. Eu já gostava da margarina e o purê acabou ficando gostoso, mesmo que diferente. Inclusive, o álbum da banda do Josh, Dot Hacker, fez a playlist de dias em sequência. E só a título de eu-quero-dizer, a voz do Josh passou pelo meu ouvido e foi direto pro coração. Voz mais gostosa não há, apenas, talvez, equivalente.

Veio o anúncio do Rock in Rio, comprei. Veio o anúncio do show em São Paulo, adquiri. Fui nos dois. Dois shows em quatro dias. Josh, em início de turnê, um tímido que de repente dava um treco de equilibrista corporal em posições esdrúxulas e por isso muito massa de ver, mas com um som baixo, que era engolido, não correspondendo ao movimento das mãos muitas vezes; Kiedis, como eu já esperava por vídeos recentes, parecendo meio retraído, paradão demais comparado aos tais tempos “áureos” (detesto essa expressão, eu tô com o Iron Maiden que tenta te jogar uma real: don’t waste your time always searching for those wasted years (…) and realise you’re living in the golden years), que fazia a macacada toda pulando de um lado pro outro do palco, mas tudo bem. Ainda conseguiram ser ótimos shows. Afinal de contas, eu esperava aquilo (o fator expectativa conta muito), ainda parecia o RHCP, o Flea é um personagem absurdo, e ele e o Chad são figuras de constância e consistência. E o plus do Mauro Refosco naquela batucada sensacional. Contudo, eu sabia, e sei, que teria sido completamente diferente na formação clássica. Principalmente por ter coincidido com os meses de degustação e paixão avassaladora pela música do John solo.

Dois anos se passaram e novo anúncio de show, inesperado pra mim. Circuito Banco do Brasil, festival, blergh. Mas peraí, em BH e RJ… Não é possível que vão passar por aqui e não vão parar em São Paulo praquele showzinho único. Claro que não. Logo anunciaram o show na Arena Anhembi, e óbvio, enviei os números do cartão.

Fui. Sabendo o que esperar, mais um show que eu ia pular Higher Ground inteira até o orgasmo muscular, mas apenas essa pois agora virou uma tradição individual, fazendo o panocópio no ar. E com aquela esperançazinha, ou melhor, desejo, de um setlist o mais distinto possível do que eu já havia assistido. Ou seja, dentre Higher Ground, Californication, Give It Away, Under the Bridge, Otherside, Can’t Stop, By The Way, Scar Tissue… Outras sem ser aquelas outras das outras vezes. Mas se fosse igualzinho, eu ia gostar do mesmo jeito.

Abertura do Yeah Yeah Yeahs. Som estranho. Não chegava. Poderia ser minha posição ali no meio? Só o que faltava… Vinte e duas horas se aproximava. O DJ dançante de gorrinho que eu não sei bem o que faz no palco com o RHCP ultimamente, talvez seja VJ na verdade? Não sei. Só sei que ele apareceu pelo palco e parecia ser quem tava dando play nas músicas após o Yeah Yeah Yeahs. Uma sequência soul, funk, tenho a ligeira impressão que escolha do Flea, também não me pergunte porquê, e também não chegava bem onde eu tava. Aí… Um trompetinho doido começou a soar. Alto. Chegando. Era aquilo, né? Nego ia entrar no palco ao final daquilo. Exato. Pontuais. Entraram e… tumulto. A galera não se controla. Parece que nunca viram gente de cabelo roxo que toca baixo pra cacete e entra no palco dando estrelinha. Início de show sabe como? Jam. Jam, meu amigo. Lindeza! E Can’t Stop. Empurra-empurra. Pessoas doidas, acho que não queriam prestar atenção no som não. Ficar bolado não era opção, tu tá na chuva não é pra ficar seco. Então tu se deixa levar e ri.

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E agora eu detalho o real motivo de começar a escrever sobre essa parada toda. Depois de Can’t Stop, veio Dani California, Otherside. Todas temperadas com doses da sensação cardume sofrendo histeria coletiva. Factory of Faith. Amenizada. Snow. O clima de luzes e telões mais lindíssimo de tão lindo. Timelapse de céu de corgasmo de pôr ou nascer do sol. Compreende? E aí algo passou pela minha cabeça. Essas coisas da cabeça, que tu pensa sem racionalizar. Que tu não consegue dizer como a mensagem é formada, se por imagens ou palavra ou apenas sensação ou tudo isso junto. Mas que na rapidez e na sede de tornar inteligível o pensamento, tu transforma em mensagem. Não parece simples explicar uma previsão, até porque é dita impossível. Desses símbolos que passaram pela minha cabeça, o que eu consegui tirar foi: I Could Have Lied, choro. Concluí o pensamento com: se tocasse I Could Have Lied eu acho que eu choraria. E eu nunca havia pensado que eu gostaria muito de ouvir essa música ao vivo, como já pensei de Venice Queen ou This Velvet Glove. E o tal pensamento foi embora tão rápido quanto veio. Coisa de trinta segundos depois… Josh começa sozinho uma sequência de notas. Na terceira nota, segurei minha cabeça baixa nas mãos e minha exclamação “caralho!” só não foi audível porque não dava pra ser. Uma sensação inacreditável do absurdo se alastrou por todo o meu corpo, minha cabeça parecia sorrir um riso de benfeitoria, junto com toda a carga emocional de repetir a mesma música por vezes seguidas num som comprado exatamente praquilo, num quarto vazio que não era o meu de verdade, sem qualquer contato com o familiar. Quando eu levantei a cabeça, meu rosto era uma careta de choro.

I Could Have Lied amplificada. Chegando. O cardume num chá de estática. Sem coros de vozes, por uma súbita audição seletiva, efeito bolha, ou por verdade, não ouvi sequer uma voz por perto entoando junto. Exceto a minha, embargada, sussurrada, mas ali, cantando pra mim, como tantas outras vezes e como nenhuma outra vez. And I could never change just what I feel, my face will never show what is not real…

Eu não pretendo, por explicar a minha relação com essa banda e sua música, nisso que é mais uma página de diário pessoal aberto, menosprezar o que significa às gritantes excitadas, aos idólatras come-página-de-fofoca, aos empurreiros eufóricos, aos que não tiveram uma experiência “diferente” no desenvolver de seu afeto, ter sido feita de um jeito comum, pela MTV ou por um álbum compartilhado com amigos. Quem faz esse tipo de comparação de valor por experiência, ou por grandiosidade de seu status de fã, só pode ser, exatamente e na mosca, um babaca. (Eu sempre achei estranhíssimo, aliás, esse conceito de fã, me dizer fã, porque acaba por remeter ao pior perfil de admirador, mas é isso que eu sou, fã, certo?). Provavelmente um dos primeiros três exemplos citados ali ou outros fariam uma comparação juvenil dessas. São bem ridículos, mas não é por isso que o valor dado seja catalogado entre mais ou menos, melhor ou pior, as atitudes é que são uma lástima, mesmo. O pensamento é que é, possivelmente, reduzido, não as sensações musicais. Isso, nunca saberemos.

A minha verdade é que não é por ser uma banda foda que gosto muito e concluo uma preferência ou por ouvir desde criancinha ou algo assim. A minha verdade é que quando eu não tinha nada, eu tinha o Blood Sugar Sex Magik. E eu sou uma completa idiota de escrever isso e chorar de novo, e não de tristeza. Mas eu sou esse tipo de imbecil, exatamente esse. “Nada”, felizmente, consistia apenas em não manter contato algum com ninguém. O vácuo inicial de uma fase de habituação a uma vida longe de casa, de tudo que é familiar. O familiar, o esperado, foram conceitos salpicados ao longo desse texto inteiro. Tudo é mais simples de digerir quando se coloca a expectativa correta (ou a falta dela) ou quando se vê em terreno familiar. Quando não se tem os dois, duas coisas podem acontecer: você é tomado pelo receio, em picos o pânico, a ansiedade, ou… você se encontra, você se liberta. Comigo aconteceu a segunda opção. Em nenhum momento foi dor, o meu “nada”, pode ter sido parto, pode ter sido expurgo, pode ter sido ardido, mas doloroso não foi. E eu não seria quem eu sou hoje se não tivesse, aos 17 anos, vivido isso. E não teria sido a mesma coisa, e talvez fosse extremamente doído e habitado por maus pensamentos, se eu não tivesse a companhia da música. Nesse caso, cds do Red Hot Chili Peppers em um aparelho de som feitos meus na primeira oportunidade de compras, em plena Era das Mp3s e seus players e laptops e afins, e nenhum deles eu tinha a favor da mobilidade e diversidade. Não foi preciso. No replay eu me fiz.

I Could Have Lied, chegando como chegou, pegou uma parcela de mim e jogou no lixo, e trouxe outra e colocou no lugar, a (re)lembrança, a coisa mais importante a se relembrar e se reconectar, quem você é. Redenção. E o setlist seguiu… Cheio de jams, pra minha alegria. Eu poderia ver um show do RHCP só de jams, numa boa. Os momentos de maior nitidez pra se perceber que se tratava de uma banda diferente da que vi nas outras duas vezes. E como aquilo tava lindo! A intimidade era diferente, a sintonia logo muito mais poderosa. Josh nasceu. Anthony voltou a passar felicidade em estar ali, domínio do palco, da comunicação. Flea, Chad e esses outros dois se uniam no centro do palco e dançavam ao improviso, tribal, visceral, religioso. I Like Dirt. Adventures. E If You Have to Ask. Mais uma música daquele setlist do meu processo de libertação do quarto vazio, que eu sei cantar inteira, e cantei, só porque era muito divertido ficar com o encarte na fuça do alto de alguns graus de astigmatismo não detectados por um profissional, mas com certeza já ali, tentando decorar o montante de frases hip-hopísticas do Anthony Kiedis. E fazendo o gritinho agudo “if you have to aaask”, e dançando amalucada entre as quatro paredes. Ah, que setlist perfeito… Higher Ground logo em seguida. E os pulos reservados só pra ela. Com a camiseta que assisti os outros shows rodando no ar, que eu tive que parar de rodar por motivos de bater na cara das pessoas ao redor, mas tudo bem. Parei de pular quando atingi o tal orgasmo muscular, voltei a pular, e só parei de novo pela famosa dor de viado, de desviado, ou desviada, aquela na costela, que se tem quando se é guri afoito do corre-corre e eu não tinha há anos e anos. Nunca gostei tanto dessa dorzinha. Foi cômico.

Começaram Dosed e não dava pra acreditar de novo. E só começaram, só uma brincadeirinha. Emendaram Under the Bridge. Ethiopia. Californication e By the way, como esperado. Quase o fim. O intervalo pré-bis. Retorno com Chad e Mauro, um solo de cuíca, a brasileirada logo acende. O resto da banda reaparece, Flea andando ao contrário, isso quer dizer, de cabeça pra baixo, de bananeira, pela extensão toda do palco. É um doido maravilhoso. Um salve caloroso ao Mauro, brasileiro, percussionista da Forro in the Dark, também membro da Atoms for Peace, que gravou quase todas as faixas nesse último álbum e se juntou ao grupo pra essa turnê. Eu esperava só Give it Away, que sempre fecha os shows, e um Scar Tissuezinho, Monarchy of Roses ou Did I Let You Know? Around the World. AAAAAAAAAAAA. E depois ainda Meet me at the Corner, das mais lindonas do I’m With You, com aquela partezinha cantada sozinha pela voz mais delícia. E aí sim. “Let’s dance one more time…”. Give it Away.

Além das minhas expectativas. O desejo de setlist o mais distinto do que já havia assistido atendido. Me refamiliarizou com ideias reconfortantes de ser e sentir. Foi lindo. Obrigada.

Uma vez disse, e repito: a energia convertida em som entregue por esse grupo é meu porto-seguro. É o que segura a minha mão e me entrega a mim mesma. O meu porto-seguro se transforma em mim. Eu sou eu.

Ferrolho de Porta de Banheiro

Os banheiros da rua sempre me dão ideias. Não sei bem se é o silêncio proporcionado por não ter o costume de tantas companheiras de gênero, o de chamar uma amiga pra acompanhar na ida, ou se é fruto do tempo ocioso na fila, entre uma reclamação compartilhada e outra sobre a égua que não se tem o menor conhecimento da vida, mas já se torna uma filha duma puta por demorar tanto. Bexigas não tem compaixão.

Numa dessas ocasiões, em um banheiro cheio de portas, que quando dentro de uma cabine se fica ouvindo o conversê alheio e rindo baixinho, mais um ferrolho quebrado. Mais um. Penso que homens não devem saber o que é isso. A não ser que sejam adeptos do número dois (a.k.a. cagar, pra quem não sabe) na rua, constantemente. Até porque, se o ferrolho tá quebrado, não tem muito problema, se está ali, bem equilibrado com os pés paralelos no chão, fazendo sua necessidade por uma torneirinha, de costas. A tríade da mulher moderna estampada nas revistas, mãe, profissional e dona de casa, não inclui que mulheres tem que desenvolver a habilidade de fazer xixi em pé, sem se molhar, segurando a porta. Até porque isso não tem importância alguma. Só pra mim, que me vi encarando esse maldito “mais um ferrolho quebrado” da minha vida. A sobriedade não era o meu estado e me ajudaria muitíssimo não precisar, além de fazer xixi em pé sem me molhar, me equilibrar nessa glória pra segurar a porta. Então, enquanto me aliviava, pensei em todos os motivos daquele diabo estar quebrado.

Azar, tinha que ser mais um azarzinho. Aposto como o do banheiro ao lado estava em perfeito estado. Porque sempre tem um, pelo menos, que se manteve firme e forte. Mas provavelmente era nesse que estaria um produto marrom (a.k.a. cocô, merda, bosta, tolete etc)  no fundo do sanitário. Abençoai os intestinos sem restrição! Então não podia ser azar eu ter entrado na cabine com o ferrolho quebrado, coisa pior tem.

Era culpa da economia de investimentos da casa. Compraram os ferrolhos mais vagabundos pra sobrar dinheiro pros guardanapos de se colocar no pescoço da longneck, aquele uso pro papel de fazer as árvores dos coleguinhas eco chorar sangue. Eu não vejo motivo algum praquele babador de garrafa, se alguém souber, me informe, preferia um ferrolho de primeira qualidade e arrisco dizer que se houvesse uma votação, estariam todas comigo. Não ao guardanapo babador de garrafa! O que queremos? Ferrolhos de qualidade! Aí tu pensa nas criancinhas das favelas e para de imaginar uma merda dessas. Não, claro que não, porque quem é usuário da imaginação ridículo-dramática (sim, é um gênero da imaginação efetuado por essa que vos escreve e mais alguns idiotas), não tem limites, já vê as criancinhas todas invadindo a casa de shows e lutando pela mesma causa. A fome se aguenta, quem não se aguenta são os bêbados. Coitadas delas, moço, tão aqui querendo curtir a festa, lhe dar o ganha-pão, mas tá complicado de não mijar as pernas tendo que segurar essa porta. Isso não é coisa que se faça. Tsc tsc tsc.

Talvez o ferrolho era sim o melhor do mercado, o problema foi o peso da porta num declive do chão, multiplicando seu peso por um número qualquer, exceto o zero, que ocasionou ao ferrolho, após tanto tentar e inclusive suceder, uma situação de “é demais para mim”. Quebrou. A física explica, eu não. Se não foi nada disso, foi o jeito que o artefato de encaixe fora fixado. Ou então foi culpa de alguma jumenta sem noção de sua própria força após o consumo de substâncias modificadoras do funcionamento normal do cérebro. Qualquer que tenha sido o motivo, no final das contas, as coisas tem prazo de validade. O manuseio errôneo acelera esse prazo, isso não modifica o fato de que há um. O jeito é trocar, ou ficar naquele malabarismo de ter que segurar a porta.

Aí, ali, com minha conclusão de aceitação das coisas, me vi a pior escritora do mundo, se eu viesse a escrever o que pensei. Escrevi no bloco de notas do celular: o pior escritor que existe é o que em tudo vê metáfora para relacionamentos. É só um ferrolho quebrado, só! E voltei a imaginar o protesto. O dono do estabelecimento passou a servir longnecks sem babador e ninguém mais precisou segurar a porta para se livrar de interrupções desconfortáveis. Até quebrar de novo. E tiveram que tirar as azeitonas dos martinis.

Bola de neve

No desenrolar da bola de neve que a gente vai se tornando e rolando, uma hora alcança terra, grãos, atrito, e a neve nos deixa em lascas. Outra hora, cai no mar e a neve vira mais algum litro de oceano. E o que acontece depois é ridículo. Em uma situação, se vira carne viva à milanesa de areia. Na outra, não se consegue respirar. Então se volta ao topo do cume gélido acreditando poder se manter em pé, firme, mas ninguém é mais forte que a gravidade, uma avalanche ou a vontade humana de se jogar e sair da mesma merda de lugar.

Que exista o vento cortando a face, se deixar acumular a vida, que se prenda em nós como limo em pedra. Ao que parece, repetiremos as mesmas ações, sentiremos o mesmo vazio, nossa alegria sempre será fruto do que sabemos nos fazer sorrir e pecaremos nas conhecidas falhas. O importante não é mudar quem somos, é saber quem somos. Só com conhecimento do percurso que se pode desviá-lo com sabedoria. Somente se deixando rolar que saberemos como e até onde podemos ir. A neve não nos prende, ela nos embolota para que possamos, no momento certo, nos livrar dela e automaticamente virar memória, e memória é experiência.

Quem não se vê uma bola de neve não tem como dizer que lutou por alguma coisa. E isso é coisa de quem sabe o que quer, de quem segue o que chamam de destino. O corroborar para a existência em atitudes da sua essência. Ser vida, não sobrevida. Se lascar no chão e perder a respiração faz parte, ser bola de neve que só rola é repetir a mesma sequência de quadros como Tom caçando Jerry. Tudo tem seu momento, e a vida é assim: cume gélido, bola de neve, já chega de neve, já chega de não neve. E de novo.