Escarafunchar-se pra ser, de novo pra sempre
Escarafunchar. Cavucar. Cavar. Futucar. Cutucar. Arranhar. Arrancar. Rasgar. Descascar. Furar. O quanto for necessário pra ver, achar, entender; o quanto for necessário pra suprir esse vício de sentido.
Por detrás da pele, os músculos; dos músculos, os ossos. Por detrás do gesto, a intenção; da intenção uma razão, um sentimento. Por detrás de um sorriso, uma felicidade, uma cortesia, uma mentira; da felicidade, uma beleza ou uma maldade; da cortesia, a educação; da mentira, uma insegurança, uma fraqueza ou um receio. Por detrás do aperto de mão de terno, um acordo; do acordo, um interesse. Por detrás do “bom dia” pálido, talvez a sonolência, talvez uma vontade que vire palavra mágica e assim o dia se torne. Por detrás do “eu te amo”, um “não te amo”, “não sei o que é amor”, “deve ser a coisa certa a dizer”, “você me faz bem”, “eu te admiro”, quem sabe. Por detrás da ideia, um impulso, uma incubação, um objetivo, uma vontade. Por detrás do laço, embrulho; do embrulho, caixa; da caixa, presente. Por detrás do hoje, ontem. Por detrás de amanhã, hoje. Por detrás da tinta nova, tinta velha, reboco, emboço, chapisco, argamassa, concreto, tijolo, vigas.
In this act of excavating, it’s the process itself which is expressive, more than the final result. It’s a process of trying to reflect upon our own layers”.
(“Nesse ato de escavar, é o processo em si que é expressivo, mais que o resultado final. É um processo de tentar refletir a respeito de nossas próprias camadas”).
E às vezes, pra achar, ver, entender, se precisa explodir:
E quando se tem a capacidade de captura de um slow motion, quando a observação é aguçada e a visão é um pente fino, por detrás de tudo ainda tem o farelo mineral; os pontos de encontro das teias, a trama engatando no urdume, as sinapses. E a poeira, e o átomo, o invisível e provavelmente o indizível. Daí volta tudo de novo a ser bom dia, eu te amo, sorriso e parede.
***
I believe that, as social animals, we are all composed and shaped by a variety of different influences which are layered onto us. We are formed by these social and historical layers which are provided by the environment and context we grow up and live in. This same environment can also be seen as being composed by a vast amount of layers which have shaped it into what it is today. In a very symbolical way, I believe that by removing some of these layers and leaving other, deeper and therefore older, layers, we can expose some of the things which have been forgotten or discarded along the way. Some of these might be truly important or valuable, or even just interesting or whatever. These lost memories compose who we are today”.
(“Acredito que, como animais sociais, somos todos compostos e formados por uma variedade de diferentes influências que se sobrepoem sobre nós. Somos formados por essas camadas sociais e históricas que são fornecidas pelo ambiente e contexto que crescemos e vivemos. Esse mesmo ambiente também pode ser visto como tendo sido composto por uma vasta quantidade de camadas que o moldaram como é hoje. De forma bem simbólica, eu acredito que removendo algumas dessas camadas e deixando outras, mais profundas e logo mais antigas, se pode expor algumas das coisas que foram esquecidas ou descartadas pelo caminho. Algumas delas podem ser verdadeiramente importantes e valorosas, ou mesmo apenas interessantes ou sei lá. Essas memórias perdidas constituem quem somos hoje”).
Alexandre Farto a.k.a. Vhils é um artista português nascido em 1987. Entrevista (em inglês) pra Fat Cap aqui.
***
Escarafunchar: esgaravatar; tirar ou remover com as unhas; procurar, examinar ou investigar com insistência, com paciência; remexer em, ger. à procura de alguma coisa.







E lá vou eu comentar novamente.
Confesso que esse texto foi um dos melhores. Essa história de camadas faz tanto sentido quando a gente precisa encontrar uma explicação para as ‘superfíceis’ dentro de nós mesmos. E, também, que o hoje é feito do ontem e amanhã será feito de hoje. No fundo nós sabemos disso, mas estamos tão cegos esperando por milagres, que ontem acaba sendo igual amanhã: apenas mais um dia.
The world is unanimous, time managin’
Slip like bananas, split quick, can’t handle it?
It’s difficult when you’re on your own
But be on your shit, mothafucka you grown