Trilogia dos Espelhos: conexão e solidão (parte I)
Num desencadeamento de turbilhão mental muito feroz, se passa dias com a cabeça tão veloz e acesa que só dá pra recorrer à melhor forma de organizar a avalanche de raciocínio: escrevendo.
I – GRÃO SEM SACO
Ela questiona os arredores como quem quer motivos pra todas as manchas da parede. “De onde surgiu o assobio ‘fiu-fiu’ e por que ele denomina elogio estético? E por que a etiqueta de ‘vulgar tolerável’? E por que vulgar? E por que tolerável? Vulgar pra quem? Tolerável pra quem?”. Uma pergunta inicial gera mais filhotes que moscas na cabeça inquieta dessa criatura. Ele, ele ri. Acha graça. A outra acha tudo uma idiodoidice, que diferença vai fazer saber de onde surgiu o “fiu-fiu”? E tem o terceiro que começa a se questionar também porque alguém, Ela, jogou a interrogação pra cima pra quem quisesse tentar alcançar.
Ela sou eu. Mas também pode ser você. Ou quem sabe você não seja Ele ou A outra ou o Terceiro? Ou uma misturinha deles? Talvez não, mas, com certeza, você é algum personagem lendo isso aqui, com seus outros iguais em reação na mesma escarcela em prol da organização, ou melhor, no saco da farinha que você é grão igual aquele outro e aquele outro ali e mais alguns muitos. E isso não é ruim, não tô supondo que você não seja único de valor, nem nada disso. (Por que a beleza sempre se demonstra como equivalente do único?). Você deve reagir a respeito de algo igualzinho outras milhares de pessoas, e isso é bonito, sabe? Caso contrário, como você se acharia no mundo? Ou você gosta de se sentir perdido? Se sentir perdido e deslocado te dá um prazer masoquista disso significar ser diferente dos outros e logo ter mais valor? Pois esse prazerzinho estranho dá em quase todo mundo. Nem nisso você está sozinho e é o único. Ah, o prazer de se sentir só porque ninguém consegue te entender… A lâmina fria que tanto fere quanto causa arrepios de desfruto mas seria antiético, imoral, amoral, errado, contraditório – insira aqui palavras que não se pode ser pelo bem da coerência – admitir.
Não é necessário se admitir a plenos pulmões pra todos os ouvidos disponíveis a completude de nuances da nossa natureza, mas tô num saco de grãos onde se acredita ser válido pensar a respeito. Algumas nuances são pra ser encaradas apenas como nuances, não como determinantes. Nunca deixe de se conectar com alguém com um vazio porque por trás daquele vazio há um prazerzinho singular de se ter o vazio. O vazio nos traz muitas respostas, muitas borbulhas que fazem pléc no ar quando se dissipam as bolhas, estalos que nos fazem ir atrás do que preenche o vazio ou de ao menos desejar o preenchimento. Ter o vazio é a fome. E a fome nos dá o singular prazerzinho da antecipação da gostosura. Eu gosto de ter fome, porque eu gosto de comer. E quem não prefere comer com fome ao invés de comer por comer? O prazer da fome é inconsciente, assim como o prazer de se sentir só e incompreendido, deslocado e perdido. É o prazerzinho da antecipação, da ansiedade, a adrenalina velada, do que vai acontecer quando passar, quando se achar, quando alguém perceber que o teu vazio é bonito, porque é. Porque te faz crescer, porque te faz desfrutar do cheio como ninguém (ou todos iguais a ti). O prazer do incompreendido solitário, do ser diferente por isso (sendo que não se é) é só porque quem sempre vive cheio não deve pensar muito em nada. A angústia da reflexão tem uma das belezas mais sutis e cegantes da natureza humana.
(E somos criaturas tão estranhas que existem exemplares de nós que falseiam e dramatizam o só pra receber uma fácil mão estendida. Não se deixe levar por quem se faz de coitado o tempo todo. A carência dessa pessoa nunca será sanada por você, não importa o que você faça. Ela vai te consumir, consumir por inteiro, suas vontades não existirão mais, você se tornará um servo, um pescoço veiudo de estimação à disposição. Essa carência só poderá ser sanada por ela mesma, os outros podem auxiliar, mas é só um auxílio, não a solução. Alguns espécimes de nós se viciam no vazio porque o vazio é fácil, se sentir só é fácil, reclamar então…).
Você reconhece um outro grão que pertence ao seu saco e somos divididos em sacos pra facilitar as coisas, os rótulos servem pra isso, os próprios adjetivos servem pra isso. Porém, na verdade, somos como a areia duma praia, de longe aparentamos grãos idênticos, de perto*:
O que te faz único é o que conseguem ver quando querem ver, quando chegam perto o suficiente pra ver, mesmo de longe. Porque seu namorado pode ser um arquiteto, vestir camisetas divertidas, tocar bateria, ser na dele, ter de refeição predileta o Big Mac e ser viciado em cinema alemão, e a cada característica que eu fui listando, o grupo a que ele pertence foi diminuindo em quantidade, mas ainda assim, com essas características ele se mantém parte de um grupo. E o que difere? Dentro dos arquitetos, a inspiração dele são ondas e tentáculos de polvos e tudo que é marinho e quando ele tá desenvolvendo uma ideia, os pés dele não param quietos, como se estivesse a todo vapor num pedal duplo de bateria, que ele toca como um diabólico totem, erguendo as sobrancelhas e inflando as narinas, e costuma dizer “se eu não fosse baterista, eu seria pugilista, porque eu preciso bater em alguma coisa”. Mas ele é na dele, não mexe com ninguém, e é sempre muito calmo, exceto quando surta infantilmente de empolgação balançando os braços igual um robô insano, e reproduz em um alemão caricato e como um grito de guerra “Als das Kind Kind war, ging es mit hängenden Armen!” (Quando a criança era criança, andava balançando os braços), de um poema narrado em Asas do Desejo. Não é o fato de ele usar camisetas divertidas que significa que ele tenha inteligência pro humor, você sabe disso, ele é meio lerdo e não consegue entender as piadas que contam até que pare um pouco pra pensar. E para pra pensar com uma expressão de quem compreendeu tudo, mas ele dá aquela coçadinha na mão como se estivesse amaciando a têmpora, no estilo estímulo físico pras engrenagens mentais rodarem. Ah, e ele é vegetariano, mas todo sábado come McDonald’s porque “minhocas tem é que morrer por estragarem as minhas plantas gostosas”. Você acha graça tanto da incoerência quanto da desculpa cômica.
Ele não seria único pra você se sua percepção não quisesse que ele fosse, se de repente o que o rodeia alegoricamente e o que o preenche não sussurrasse seu nome. Feromônios, química, admiração, instigação curiosa, identificação, encaixe, sei lá. Você só é único pra alguém se o alguém assim lhe fizer. E, certamente, você quer pessoas por perto que possa enxergar além dos olhos.
Contente-se com sua circunstância de grão como os outros. Delicie-se e viva quando se transformar num cristal pra alguém que também cintila pra você. É como quando suas duas pupilas encontram diretamente outras duas pupilas em êxtase, até que isso aconteça vocês só se olham… Mas aí, vocês vem a se enxergar, talvez, e o brilho nos olhos é meramente inevitável.
Mas o vazio não acaba aí, a vida só se torna mais… confortável. E bonita.
Somos, em essência, grãos sem saco, na solidão. E somos grãos sem saco, em perspectiva e objetivo, de sermos únicos. E, ser único não deixa de ser solitário. Entende?
“Loneliness is the human condition. Cultivate it. The way it tunnels into you allows your soul room to grow. Never expect to outgrow loneliness. Never hope to find people who will understand you, someone to fill that space. An intelligent, sensitive person is the exception, the very great exception. If you expect to find people who will understand you, you will grow murderous with disappointment. The best you’ll ever do is to understand yourself, know what it is that you want (…)”. — Janet Fitch, “White Oleander”**
Simplesmente não ligue pra solidão, se beneficie dela, e pode ter certeza que a vida dá um jeito de revelar os cristais.
*Microfotografias de grãos de areia. Fonte: sandgrains.com/index.html
**Nunca li, não sei nada a respeito, mas essa citação apareceu coincidentemente na minha fuça navegando à deriva pedindo pra ser encaixada na mensagem final.








